domingo, 18 de outubro de 2020

Memórias...(13)

 


"O mistério da Santíssima Trindade cristã é o mistério do amor divino. Você vê a Santíssima Trindade, se você vê o amor".

A definição de Santo Agostinho baliza, também, a Santíssima Trindade da bola. Se você vê poesia na bola, você entende Pelé, Maradona e Garrincha. 


Mauro Pandolfi

Nas despedidas, a mãe me acaricia, beija o rosto, me abençoa e, geralmente, diz: 'confie na Santíssima Trindade'. Rio, agradeço, devolvo o beijo e o carinho, repito sempre: 'confio demais!' É a vez dela sorrir. Acho que sabe de que Santíssima Trindade eu falo. Ainda não sei quem é quem. Desconfio que Pelé é o Pai. Afinal, nem um ateu contesta a divindade, o olhar superior, o que flana sobre tudo. Já Diego é o filho. O 'rebelde' que desperta tantas paixões, como ódios acumulados. O que desafina o coro dos contentes, o crítico dos poderosos, imolado, crucificado tantas vezes, ressuscitou todas. Nenhum deles foi tão desesperadamente humano. O que foi tentado, sucumbiu, ressurgiu. Já Manoel, o Mané! é o mais etéreos dos divinos. O mais belo, o mais triste, o mais esquecido. O que não resistiu ao mundo visível. Nem no desprezo trataram como um homem. Até na dor exigiram o seu balé. Sempre o enxergaram como um 'Anjo de pernas tortas'. Quando vejo um pássaro lenbro de Mané. Certamente, preferiu 'reencarnar' um pássaro. Tomara que não esteja trancado numa gaiola cono o 'trancaram' como homem. Outubro é o mês deles. Como é o de minha mãe. As paixões estão sempre próximas.

No silêncio do quarto percebi que estou encurralado. Nos meus medos e na sobrevivência, pelos olhares aflitos de meus filhos com a vida cortada no início dela. Sem escolas, sem amigos, saídas fugazes. Todos os sonhos adiados. Embalam seus dias com filmes, séries, jogos. Relaxo quando escuto os risos, os gritos de vitória. A vida pede, às vezes, exageradamente, resiliência. Para escapar do encurralamento procuro uma poesia, sobre o nada que reflete o tudo, de Chiko Kuneski e os jogos perdidos  de Pelé, Maradona e Garrincha. Algumas vezes, no you tube. A maioria na memória.

No domingo preguiçoso, olhando a vida pela janela, não escrevo, uso a 'memória'  para reverenciar a Santíssima Trindade.

Ando com saudade do beijo, do carinho da benção, do conselho da mãe. Saudade de um belo domingo com todos.


Santíssima trindade de outubro

 


"Se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola"

A elegia de Armando Nogueira serve, também, para Garrincha, Maradona, Didi, Sivori, Falcão, Kopa. Gênios que nasceram neste mês. E, para Messi, que se nasceu em junho, foi 'fabricado' em outubro.


Mauro Pandolfi


A cor de outubro é rosa. A imagem é a bola. Não há nada tão perfeito como a bola. Não há lado, nem ângulos, nem arestas. Há o objeto que flutua entre o sonho e a poesia. A bola que rola macia, suave, rápida nos pés de gênios, magos, artistas que nasceram em outubro. Craques que acariciavam a bola como Didi. Ou, desfilavam a elegância com ela grudada no pé feito Falcão. Insinuante, ligeiros, fascinados pelo gol como Kopa e Sivori. Mas, é num trio que o futebol se explica, apaixona, encanta, dilacera, torna-se religião, literatura, arte. Pelé, Garrincha e Maradona. Sete dias em que a estrela brilhante no céu era uma bola. Pelé é do dia 23; Garrincha, de 28 e Maradona, dia 30.  A Santíssima Trindade! Os três poderiam ter nascido bola. Deram vida a bola. Tornaram a bola o Santo Graal dos tempos modernos.

Pelé! O nome que não precisa de adjetivo. É um adjetivo! Basta citar...Pelé! Você já sabe do que se refere. Ele não inventou o futebol. Nem a bola. Mas, virou símbolo, referência, sinônimo. Pelé é um nobre. Um rei coroado algumas vezes. A primeira, aos 18 anos, em 1958. A última, hoje 23 de outubro, dias dos seus 75 anos. Foi lembrado, muito pouco, quase nada, por alguns jornalistas, amantes do futebol e pelos torcedores do Santos. E foi chamado de Rei Pelé! Ele é um mito! Mitologia não se explica. É, e pronto! Édson Arantes do Nascimento nunca conseguiu ser um cidadão comum. Pelé nunca deixou. Pelé jogava feito prosa. Do passe medido, da tabela, do gol, do pulo com o punho cerrado, socando o ar. É a melhor frase do futebol!

Vi um só jogo de Mané Garrincha. O último! O da despedida com a camisa da seleção contra o time de estrangeiros que jogavam no Brasil. Foi em 73. Verdes anos, pouca coisa para contar, muitas para sonhar. Lembro do lance. Garrincha parado. Corpo arqueado, nada que lembrasse um atleta. A bola presa no seu pé. Negaceou. Foi e voltou. O uruguaio Bunuel foi. Na volta, virou mais um João. A bola passou entre as pernas. As 150 mil pessoas vibraram com o drible derradeiro de Garrincha com a camisa da seleção. Aliás, com Pelé e Garrincha em campo, o Brasil nunca perdeu. Garrincha é um poeta. O homem que sucumbiu as tentações, ao amor e a paixão. Garrincha é o maior fantasma do futebol. Esta sempre presente num campo. Está no desejo do torcedor, na saudade de um velho amante da bola, num drible, num passe cruzado, num corte, no chute certeiro...na ausência da alegria. Todo jogo burocrático, sem graça, sem alma é uma outra morte do Mané.

Diego Armando Maradona! Eu não era mais um garoto. Já tinha escapado no exército, de Brasília. em 79 Vi pela primeira vez um jogo de Maradona. Um amistoso contra Alemanha. Não lembro resultado, nem vou pesquisar no google. Há um lance que de tempos em tempos relembro. Em todos os jogos que joguei tentei repetir. Belo demais! Alguns fiascos. Quando deu certo, virou gol. O lance é magia pura. Bola lançada pela direita. Longa, quase escapando. Maradona domina. Cercado, da dois passos em direção à linha de fundo. E, de letra, com o pé esquerdo, passando por trás do direito, cruzou. Os alemães ficaram atônitos e Ramón Diaz perdeu o gol. Nunca mais perdi Maradona de vista. Acompanhei a sua carreira, a glória, a tragédia pessoal, os equívocos, os acertos, a canonização, a humanização. Maradona tem algo de Pelé e muito de Mané. Que falta faz!

O dia da poesia, 31, fecha o mês dos ilusionistas da bola que poderia ser definido assim: "Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma" (pequeno verso de Carlos Drummond de Andrade também de outubro, uma espécie de Pelé, ou seria Mané, ou quem sabe Maradona, entre os poetas?).

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Destroços da paixão

 

 

"Ainda que o frio te queime, ainda que o medo te morda, ainda que o sol se ponha e se cale o vento..nâo te rendas".
Ando seguindo o uruguaio Mário Benedetti em relação ao Grêmio. Nunca imaginei que a paixão escaparia pelos dedos, fugiria das entranhas da alma, se tornaria um sentimento banal. Só a vitória no Grenal deu suspiro que tenta sobreviver ao desencanto. 

Mauro Pandolfi

Ando estranho com o futebol. Distante, arredio, ausente. Não há mais o fascínio de outros tempos, nem a nostalgia dos velhos momentos. Até escrever ficou pesado, difícil, como num pesadelo mal acordado. O medo das derrotas, os fantasmas de um passado quase recente, pareciam ter despertado a paixão gremista. Vi os jogos possíveis (sempre tentaram me convencer que o monópolio é drástico, caro, ruim para a liberdade de expressão e de escolha. Até o ano passado assinava o Premiere e vi todos os jogos do Grêmio. Agora, para ver todas partidas preciso, por enquanto, assinar dois canais. Sem grana, o rádio voltou a ser meu parceiro), escutei outros e vibrei com a vitória no Grenal. Uma vibração suave, sem gritos ou abraços, apenas alegria. Era só um engano a paixão redescoberta. Sei que a vida passa, os amores, as paixões precisam dos mesmos olhares, dos silêncios de sempre, das ausências que só reforçam, dos encantamentos que fazem a alma balançar, o coração pulsar, o corpo tremer. Não achei mais isto no futebol, nem no Grêmio. Nem escrever sobre ele provoca o desejo que sempre acompanhou os dedos nas teclas do computador. Não é uma desistência, não imagino um até logo. Quem sabe, uma reclusão para procurar em cada reentrância da alma, a paixão que se perdeu.
Não sei se foi o 'arrodião' (como os gaúchos chamam o vareio, o baile, o chocolate) do Caxias. Ou, foi o pânico de um passado sombrio após a derrota para o Sport, o empate contra o Atlético Goianiense ou novo 'arrodião' da Universid Católica (temi por 'Bayern' chileno) que despertou um sentimento parecido com a paixão.Ou, foi só medo? Desconfio do jogo espetacular desaparecido, sumido, não deixou rastros que inibiu, assustou, escondeu, anulou o arrebatamento amoroso com a bola. Não havia mais a 'arte' do drible, nem a 'poesia' do jogo traçado, planejado, que me fazia suspirar e esperar ansioso a bola correr. Somente após a sessão de cinema, em casa com a família, assistimos 'O Poderoso Chefão', fui ver Atlético Mineiro e Grêmio. A partida passou diante dos olhos, sem emoção, sem vibração, banal como um jogo de um time qualquer. É o fim da paixão, vou recolhendo os destroços ou é a vida sugerindo outros olhares que não tinha percebido antes? O tempo dirá ou será uma nova vitória no Grenal?
Nas minhas contradições, deixo o Grêmio de lado e vibro com o Leeds. Velho encanto do menino de Lages que devorava o 'tabelão' do Placar apaixonado pelo time de camisa branca. Também, nem tão jovem, se enamorou pelo pensar de Marcelo Bielsa. O louco e doce treinador que nunca sacrifica o jogo. Só a vitória. Por momentos pensei que Renato Portaluppi fosse um Bielsa. Mas, não é! Ele sacrifica o jogo. Prefere só a vitória. "Sempre cresciinos momentos de fracassos e piorei nos perídos de êxitos. O sucesso é deformante, relaxa, engana, torna-nos piores, faz com que nos enamoremos de nós mesmos". Está frase de Bielsa revela outra diferença com Renato. Bielsa gosta da reclusão, da solidão como parceira da reflexão, onde reinventa o seu pensar sobre a bola. Renato prefere a festa, ser o centro da festa, não precisa saber mais sobre a bola. Sabe tudo. Renato inventou o melhor Grêmio que vi. Bielsa ainda não criou o time dos meus sonhos.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Resíduos...

 

"Os amores são como impérios: desaparecendo a ideia sobre a qual foram construídos, morrem junto com ela".
Não sei se Milan Kundera gosta de futebol. Uso esta frase do autor de 'A insustentável leveza do ser', para tentar entender o 'desespero' com o 'fim' de Messi, Guardiola e do melhor Grêmio de minha vida. Será que o meu desancanto da paixão está ligado ao 'fim'?

Mauro Pandolfi

Ainda não esbarrei na paixão do teatro de grama após a volta do futebol. A dor da derrota, sim.  Massacrou forte a alma. Foi lancinante, angustiante, perversa. Em quatro dias, as poesias mais belas do futebol, aquelas provocadoras do reencontro com o Maurinho, desapareceram. Não por completo. Deixaram resíduos. Retalhos, pedaços, ruínas, que vão me consumindo devagar, aos poucos, para serem mais crueis. Messi, Guardiola, Grêmio de Renato - Luan, incluído - pertencem ao meu baú, onde guardo a eternidade. De tempos em tempos, abrirei. Para matar a saudades e encontrar a paixão, que está desaparecida. Espero que não tenha morrido de tristeza neste fim de semana.
Messi no canto do campo. Exilado, alheio ao jogo. A tevê explora o seu rosto. É de um homem destroçado. Sete a dois é o placar. O Bayern passeia, tripudia um Barcelona, inerte, atordoado, entregue, dolente. Messi encara o árbitro. Parece pedir ajuda, o final do jogo. O olhar complacente do juiz não impede o oitavo gol, de Philipe Coutinho. Num gesto de compaixão, Coutinho não festejou o gol. Respeitou o lendário craque argentino. Fim de jogo. A tevê acompanhou Messi. Distante, plangente, Lionel era um tango tocado em silêncio.
Há tempos que o Barcelona é um resquício do que foi. A frágil estruturação tática, o envelhecimento dos pílares, os pífios treinadores, se sustentavam na genialidade de Lionel Messi. Ele tentou, lutou, foi grande, mas, perdeu. O 8 a 2 marca o fim de dois 'impérios': o Barcelona, planejado por Cruyff, armado por Pep Guardiola, é só lembrança. O jogo contra o Bayern apagou os resíduos que existia na Catalunha; Messi, assim como Cristiano Ronaldo, não tem mais a magia poética de inventar soluções, saídas impossíveis, furar as linhas com passes e dribles. Só terá brilho, com um time jovem ao redor e uma estratégia bem definida, onde será somente 'o maestro'. Raramente, solista. Nunca mais o criador do jogo e do resultado. Nunca perderá o encanto.
Pep Guardiola é um autor a procura de um 'texto'. Uma ideia que renove tudo, outra vez. Guardiola é a negação do comum, do trivial. Rejeita, como sempre rejeitou, o burocrático, o previsível. Nunca antes na história, o futebol foi tão bem jogado. Ele é o idealizador. Nem Einstein desvendeu o espaço e tempo. Compactação, movimentos, velocidade, trocas de função, as linhas formando figuras geométricas, como um cubismo mágico e a bola nos pés. Quem tem a bola, tem o jogo. E, o Barcelona reinventou a arte do futebol. E, daí, tudo virou paixão.
Guardiola parecia um Merlin. Criou estratégias que confundia' o adversário. Estabeleceu conceitos, criou artimanhas e inventou segredos. Aos poucos, o 'enigma de Guardiola foi sendo decifrado. Não ganhava mais como antes. Os segredos não eram mais secretos. E, nem as novas ideias eram tão revolucionárias. Pep ainda tenta ser genial. Está longe de ser um treinador vulgar. Porém, na derrota para o Lion havia só resíduos do extraordinário Guardiola. E, por instantes, foram luminosos.
O Grêmio ainda toca a bola. Mais atrás, mais para o lado, falta quem fure a linha, como Luan ou Everton. Agora, a jogada é a bola alta em busca de Diego Souza. Jean Pierre ficou isolado, exilado no campo. Não há mais a parceria que desequilibrava o jogo. Tem de armar, criar o espaço e finalizar. Raramente tem conseguido. Falta alguém. O Luan de 2017 seria o parceiro ideal. Pena que Renato não percebeu isto. Luan me encantava pelo jogo sólido, belo, envolvente e a melancolia no olhar, nas passadas largas. No sábado, só encontrei a melancolia. Se há vestígios em Messi, em Guardiola, no Grêmio de Renato, não percebi resíduos em Luan. Isto é o mais triste nesta paixão desaparecida.


 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

'Hipocrisia'

 

"São curtos os limites que separam a resignação da hipocrisia".
Acho que ultrapassei os limites que o escritor espanhol Francisco de Quevedo estabeleceu. Em nome de uma paixão, que parece adormecida, resignei a coerência e a transformei em hipocrisia.

Mauro Pandolfi

Ao preferir ver o Grêmio em vez de um filme a convite do André, ouvi uma resposta que me desconcertou. "Você é contra a volta do futebol durante a pandemia. Então, não deveria assistir o jogo. Tem que ser coerente, pai! Ideias, palavras, só valem com a prática". Meu único argumento foi a paixão. O amor descoberto aos sete anos, tornou-se 'vício', trabalho, até terapia, motivo para escrever como fuga da louca sanidade deste 'estado de sítio' necessário da vida. O André foi gentil comigo ao falar em 'coerência' e não em hipocrisia. Vi o jogo. Um belo jogo! Assisti em silêncio, sem nenhum gesto de torcedor, nem no grito de gol, nem no desespero do empate, sem críticas ao Renato. Faltou tesão ao ver a bela camisa tricolor ocupando toda a tela. Não sei se a frase balançou os meus conceitos, se foi a 'hipocrisia', se o exílio forçado, se a vida banalizada, se a tristeza flertando com a depressão, senti a paixão desmoronada, destruída, sufocada. Sobrou só o teatro de grama.
Lembrei do meu velho amigo Rai Carlos, o vidente cego, ao 'perder' a paixão pelo Grêmio. Quando falávamos de amores, Rai lembrava da primeira paixão. 'Nunca acaba. Ressurgia forte ao sentir outra paixão se formando. Sempre se impunha. Foi assim durante muito tempo em vida. Até que um dia, a neutralizei. Estou livre, pensei. Era só um engano. Estes dias, ao escutar sua voz, a paixão explodiu. Estava escondida, guardada em algum ponto da alma, para aparecer feito uma emboscada', filosofava em meio aos goles de gim nas madrugadas de outro tempo. O Grenal será o sinal da paixão sufocada? Vou desafiar a minha 'hipocrisia', pensei.
Quarta-feira, ligo a tevê para a sessão de terapia. Descubro que será no Premiére. O meu fracasso financeiro me obrigou a cancelá-lo no final do ano passado. Paciência! Resolvi assistir Cricíuma e Chapecoense. Triste. Muito triste. Lamentável o futebol daqui. Obsoleto na ideia, obtuso na realização, medíocre no ato. Parecem ter uma organização defensiva. É um engano. É só uma retranca. Os ataques dependem da ação individual. E, aí, faltou talento. A decadência do futebol catarinense não tem nenhuma elegância. Passei para o derbi paulista. Se resisti trinta minutos com a partida daqui, aguentei quinze minutos na final de lá. Faltou tudo. Da inteligência tática até a habilidade. Um futebol tosco, precário. Entendi a opção do Flamengo pelo auxliiar de Pep Guardiola. O clássico de São Paulo mostrou o velho treinador bolorento e o novo técnico sem coragem. Não entenderam que o jogo pede beleza, arte, entreterimento e não só resultado. Nem a 'hipocrisia' resistiu.
Desliguei a tevê, liguei o rádio para ouvir o Grenal. O quarto no escuro, tirei os óculos, virei para o lado e dormi. Acordei com os 'gritos' do narrador falando das expulsões de Orejuella e Patrick. Vi o placar, o bom do rádio no facebook, que há uma tela com as informações do jogo, estava dois a zero para o Grêmio. Escutei até o final. Gostei da vitória! Esbocei um sorriso, uma leve alegria surgiu na alma. Era a paixão? Não!  Foi só uma piscadela de um flerte.
O jogo de domingo acabou ao mesmo tempo do filme do André. Nos encontramos no corredor. Nos olhamos em silêncio. Não foi preciso falar nada. Velho, na reta final da vida, entendi a lição do jovem que começa a vida. E, feliz, percebi que o André será um homem melhor do que eu. E, tomará, com mais sorte.

 

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Memórias...(12)

 

"A Saudade é por quem vivo apaixonado desde que envelheci..."
Estou desconfiado que o futebol não vai sobreviver a este isolamento. Quem sabe a saudade, cantada como beleza por Catulo da Paixão Cearense, mantenha vivo a paixão. Acho que sobrará apenas o teatro.

Mauro Pandolfi

Não gosto de rever muitos jogos do Grêmio. Aqueles que estão marcado na alma, escapo sempre. Escapava! Tenho o vídeo, o filme e nunca tinha revisto a Batalha dos Aflitos. Temia pela emoção. Ficava com medo de o coração explodir, como quase explodiu naquele novembro de 2005. Mas, distraído, sem nenhuma série para acompanhar, descubro o jogo. Relutei, fiz um zap rápido e resolvi encarar, num ato de bravura, um dos meus 'fantasmas'. Deixei o floral de lado junto com lenço. Vou chorar! O jogo foi passando, a emoção não chegava, tranquilo, sereno demais, não aconteceu nada. Foi só um jogo. O encanto da grande vitória quebrado em múltiplos pedaços. Não fiquei frustrado e nem perplexo. Apenas, indiferente. (I)Mortal indiferença!
Só sobrou Renato em outros dois jogos que revi. Contra o Penharol, na decisão da Libertadores, um horror. Que jogo feio, sem graça, sem ritmo. A única poesia foi Renato. O balaõzinho, o chutão no alto rumo ao infinito que encontrou a cabeça do César. Magnífico, Renato! Contra o Hamburgo, uma partida mais qualificada. O Grêmio com a sua força e outra vez, Renato, Entendi toda idolatria, a minha inclusive. Lamentoi que Renato não foi o que poderia ter sido. Não sei o que atrapalhou a genialidade. O homem que preferiu ser um jovem comum e festeiro? O que preferiu ser feliz em vez de lenda (além do Grêmio!)? Não sei se Renato poderia ser um Cristiano Ronaldo. O Mário garante que sim. A vida tem as suas escolhas, seus caminhos, seu destino. Assistindo estes Grêmio todos, o melhor é o Grêmio desenhado por Roger, lapidado por Renato. Eles inventaram o futebol no Grêmio. Será que sobrou esta saudade?
Não vi nenhuma partida inteira nesta volta do futebol. Não consegui. O coração e alma rejeitaram. Dez minutos, busco um filme, uma série, qualquer coisa que me afaste do jogo. Não é o futebol que me encantou, que virou paixão, que me faz escrever e sonhar. Não lembra de vida ou festa. Me parece um escape contra a morte. É necrofutebol! Me disseram que tudo tem começo e fim nesta vida. Talvez, o fim chegou. Meu amigo vidente cego, Rai Carlos, disse uma vez que 'paixão nunca termina. Apenas se esconde!' O tempo vai me revelar. Enquanto isto, republico uma crônica apaixonada por este jogo.

O teatro de grama e paixão

Mauro Pandolfi
 
Não gosto de esporte.  Gosto de futebol. Futebol não é, mais, um esporte. É teatro de grama e paixão. A vida é representada, vivida, repartida. Tudo está lá.  O drama, a comédia, o amor, o mistério, a aventura, os enganos, os desencontros, o terror, a esperança, o sonho. Tudo contado em atos. Nem sempre bem separados. Às vezes, tudo junto. Quase nunca misturados. Atores e públicos são parceiros, ou rivais, em cena.
O primeiro ato. Vem em bandos. Trazem bandeiras, trapos, tambores e painéis com os rostos dos heróis. Os cantos são desafios bem embalados por um 'coral' afinado. De guerras ou de apoio. Dispostos a tudo. Fundamentalistas da paixão. Há o que chega sozinho. Solitário no silêncio. Aos poucos, descobre o grupo nos gritos, nas vaias, na festa. O soar do apito. Assim começa o teatro de grama e paixão.
O segundo ato. O campo, o jogo, os times.  A bola rola. Troca de passes. O jogo estudado feito um ensaio. O posicionamento lembra a marcação de uma peça. Flui em diálogos, os passes. Ou, um monólogo, o drible. O jogo vai crescendo em intensidade. Os murmúrios da plateia exige uma outra postura. A agressividade vai substituindo o riso, a diversão. Fim do segundo ato.
O terceiro ato. A pressão da vitória, o grito pelo gol, o desespero pelos erros de passes geram um drama que vai crescendo com o passar do tempo. Os olhares são de aflição. O torcedor tem o medo da derrota, do fracasso que é o seu parceiro diário. O jogo tem um segredo, um enigma. Decifra-me ou te devoro? Os enganos e os desencontros surgem na tentativa de descobrir a saída. A bola vai alta, longe, dispersa. Até que alguém descubra a magia. Decifre e crie a alegria do teatro. A plateia explode em êxtase no gol. Fim do terceiro ato.
Epílogo. O trilhar do apito. O suor, as lágrimas, os risos, os abraços, a festa, a derrota. O jogo não termina aí. O teatro de grama e paixão continua. Às vezes, como farsa. Outras, como epopeia.  Um jogo de futebol tem a duração da eternidade.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Memórias...(11)

 

"Félix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gérson: Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino".
A mais bela poesia do futebol. Épica, dialética, romântica. Sonora, rítmica, inesquecível. O verso 'Pelé' é mais que perfeito.


Mauro Pandolfi

Queria escrever um texto sobre os 50 anos do tri de 70. Falar daquele time maravilhoso, ousado, de seus deuses da chuva, da revolução feita por Zagallo. Mário Jorge Lobo Zagallo nunca entendeu o que fez. Após a Copa, em seus clubes e mesmo na seleção até Copa de 74, mostrou que tudo foi um acaso, a sorte, que segundo ele, sempre o acompanhou. A transgressão tática de 70 foi um 'equívoco' em sua jornada. Zagalo sempre foi reacionário, tanto no futebol, como em vários setores da vida. Esta seleção, de tempos em tempos, me visita. É uma das lembranças mais fortes da minha infância. Queria escrever sobre ela. Sobre a magia, a ilusão, o fascínio que os nomes me provocam. Ainda sei o nome completo de todos os campeões. A escalação é a melhor poesia de futebol que conheço.
Não consegui criar um texto sobre o futebol daquele esquadrão. Passei segunda e terça pensando, abrindo baú da memória, e vi apenas um guri que gostava de correr para sentir o vento balançar os cabelos longos. Saudades! De tudo, principalmente, dos cabelos.
No quarto, isolado, embalado por Roy Orbison, vou revivendo 1970. Não chegou a ser 'um buraco de minhoca'. Foi somente lembranças. Como gostava de olhar o Vermelhão de Copacabana. O primeiro olhar do dia. Ao chegar na cozinha, a 'Alma Cabocla", da Clube, terminava o despertar. Queria sair rápido de casa. Fugir da música caipira, dos avisos, chegar no Flodoardo Cabral e ainda bater uma bolinha no campinho de terra. As aulas, com a querida Leda, tinham o seu encanto. Quase fui um príncipe numa peça de teatro. Perdi o personagem para o Paulo Roberto. Talvez por ele ser melhor aluno, melhor ator, ser mais comportado. Mais bonito, não era! Fui ser o 'abacate'. Infelizmente, ou seria felizmente?, a peça não foi realizada. Acho que a Leda ficou doente. Gostava daquela turminha. Ainda lembro de muitos. Todos ficaram na poeira da saudade. Depois de 70, encontrei alguns nas escolas, nos bailinhos,.no futebol. Desde que saí de Lages tornaram-se imagens, que às vezes, duvido que existiram.. Quem mais queria rever, nunca mais vi. Nádia! Nome mágico. Loirinha linda, cheia de sardas, meiga, de um sorriso doce, uma paixão escondida em algum canto da memória . Nunca disse que gostava dela. Amor e paixão confessei poucas vezes.
Foi o futebol que me levou à leitura. A Leda falou ao meu pai da minha dificuldade na leitura. Ele garantiu que iria resolver. Fiquei eufórico! Mais gibis, pensei. Um diua o pai entrou em casa com um monte de jornais e disse: divirta-se! Logo percebi que era divertido saber sobre as coisas, o mundo e o futebol. Até hoje leio jornais. Fui até jornalista por algum tempo. No curso de jornalismo fiz grandes, eternos, mágicos amigos. Isto é para uma outra sessão de terapia.
1970 foi uma transição de amigos. Os da primeira infância se mudaram. Precisei encontrar outros. O Flodoardo foi fundamental. Descobri que o seu Jeremias, dono do armazém onde a mãe comprou a primeira meia de futebol. Era branca, vermelha e preta até a primeira lavagem, tinha um filho chamado Tadeu. Antônio Tadeu que todos conheciam como Bolacha. Antigo parceiro de mascote do Internacional. Virou amizade, um time de futebol, uma parceria, uma história que indicava ser longa ou eterna e que relembro num texto antigo do Crônicas.
Fim de sessão!

Meninos de Kichute

Mauro Pandolfi

"O tempo não para. Só a saudade é que faz o tempo parar..." 

                                                                   Mário Quintana.


O passado é teimoso. Nunca passa. Sempre esquece que passou. Olhe aí! Preste atenção, feche os olhos, relaxe e, surpresa, o passado está presente. Numa foto, numa lembrança, numa cena, num olhar. Voltei aos quatorze anos, estes dias, ao assistir o ótimo Meninos de Kichute. É como se fosse o filme da minha adolescência.

O time da rua, a escola, os amigos e a viagem de mudança para nunca mais voltar. 1974, aqui vou eu! Vou botar o meu bloco na rua, ler Charlie Brown e jogar como Carlos Babington (um dez daqueles que detesto hoje em dia). Meu amigo Bolacha preferia Cruyff.

Copacabana nunca me enganou. O lugar mais próximo do paraíso que conheci. Lá morei onze anos, fiz amigos, curti as primeiras namoradinhas e as festinhas embaladas por Roberto Carlos, Beatles e um grupo estranho de gente, e nome, esquisito: Secos e Molhados. Enfrentei muitas filas para assistir Mazzaropi e o Gordo e o Magro no Tamoio. E uma paixão nunca confessada: adorava os filmes do Trinity. Bons tempos aqueles, hein?

A bola é a vida deste blog. O encanto de Copacabana era o Vermelhão. O antigo areião que transformou-se no campo do Internacional. Depois, como o Colorado passou a jogar no Municipal, o Vermelhão foi abandonado ao vento. Virou campo de ninguém, de todos. O nosso Maracanã.

Como era bom jogar lá. Não era só um menino com sonho. Era um jogador. Afinal, tamanho oficial, traves e arquibancadas. Algumas vezes corri de braços abertos, balbuciando algo em busca do aplauso imaginário. Também, ouvi broncas, reclamações por um gol perdido. Não era a torcida. Eram os parceiros de time. "Pqp! Não dá para perder um gol destes, Maurinho!". Abel era o meu crítico mais feroz.

Oi, girando! Oi, girando! O campo ficou redondo para a gang de Johan Cruyff. Todos em todos os lugares. Espaço e tempo em um outro conceito. Bolacha, que era o principal líder do time, ficou encantado com a Holanda. Passou a Copa toda falando da Laranja Mecânica. No dia do jogo contra o Brasil, a sala da casa da dona Lucinda, mãe do Bolacha, ficou lotada. Divididos entre a paixão do Bolacha pela Holanda e o 'nosso' patriotismo. 'Ame-o ou deixe-o" dizia o adesivo colado na caderneta escolar. Por instantes, preferirmos o 'deixe-o'. Uma grande escolha.

Ah, gira, girou! Nunca tinha visto um time como aquele. Entendi o encantamento do Bolacha. Neeskens, Resembrink, Johnny Rep e seus amigos rodavam num carrossel mágico, igual aos dos parques que invadiam Lages de tempos em tempos. A vitória laranja virou uma festa. Gritos, pulos que irritaram seu Jeremias, pai do Bolacha. "Piás de merda! Cadê o patriotismo?", reclamou. No Boldo, uma espécie de Pacaembu, imitamos a Laranja Mecânica. Treinamos as movimentações, as trocas de posições, o passe rápido, a velocidade e a obsessão pelo gol. Fui Cruijff durante uns meses. A minha camisa era a 14. Aos poucos, a Copa foi se tornando saudades. Saudades que tenho até hoje.

O dia chegou. Julho de 1975. Um domingo. Passei com a turma da rua Irma Laurinda. Fui ao cinema, no bailinho do Juvenil, no bolão do Princesa. Terminamos a noite no bar do seu Chico, que ficava perto de nossas casas. Às onze da noite dei um abraço forte, fraternal, final nos amigos. Acompanhei todos indo embora. É a última imagem que tenho deles. O tio Danilo nos levou à rodoviária. Lages foi ficando para trás, longe. Mas, sempre volta em sonhos e lembranças. Pena que aquele tempo ficou naquele tempo.