quarta-feira, 11 de julho de 2018

O anjo caído

 

'O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente'..
Desconfio que Neymar é um leitor voraz de Fernando Pessoa.

Mauro Pandolfi

Ainda Neymar. Gosto de gente que desafina o coro dos contentes. Respeito os perdedores que provocam irritação dos bem pensantes, que despertam amor e ódio, que são 'culpados' pelas derrotas, pelos fracassos. Gente que nunca chegará onde pretende, que serão pouco mais do que o comum. Neymar é um deles. Ele é o mais instigante personagem do futebol mundial. É a encarnação do 'mal', do pérfido, do boçal. O craque que rompeu com a ética do jogo limpo, com simulações de faltas, de dores, com reclamações sem nexo, com rebeldia sem causa. Um ator de segunda linha. A chacota nas redes sociais. Crianças, adultos, comediantes, aspirantes a comediantes riram, brincaram com as 'roladas' pelo chão após as faltas. Neymar virou piada! Não ligo para isto. Não tenho nenhum sentimento sobre isto. Não me preocupo com sua carreira, com o aspecto psicológico, com sua riqueza, com seus gastos, suas atitudes. Ele tem um bom aparato de profissionais que pensam a sua vida e carreira.  Preocupo-me é com meus filhos. Tenho que estar atento as suas vidas, as escolhas e os caminhos. As decisões serão sempre deles. Com Neymar quero apenas o futebol.
Continuo achando genial e genioso. Não há misericórdia com o seu fracasso na Copa. Fracasso? Não chega a tanto. Na disputa com Messi e Cristiano Ronaldo, Neymar foi melhor. Jogou mais, chegou mais longe e perdeu como eles. Cristiano Ronaldo é o bom moço deste tempo (já foi 'Neymar' em outros tempos) e Messi é o 'infeliz' que escolheu ser argentino ao invés de espanhol. Ambos estão perdoados. Afinal, seus times eram ruins. Eram 'exércitos' de um homem só. Perdão é uma palavra que não cabe em Neymar. A derrota pode provocar transformações ou destruir completamente um homem. Neymar vai escolher o seu caminho.
Neymar é o 'anjo caído' do universo religioso que o Brasil se enredou. O craque que expulsou o país do paraíso da vitória. O profeta que não levou à terra prometida. O heroi sem caráter, o Macunaíma, o Sassá Mutema mentiroso, o vilão preferido dos jornalistas e agregados, dos fanáticos das redes sociais, dos fundamentalistas que aparecem de quatro em quatro anos.  Faltou pouco, quase nada, para virar um Barbosa. Ainda bem que vivemos um outro período, mais civilizatório, mais humano, que torna vergonhoso uma campanha como a que Barbosa sofreu. Neymar foi só mais um que perdeu num time compartimentado, previsível, com uma frágil estratégia, sem inteligência no jogo, organização trivial, um reflexo de espelho do futebol jogado por aqui. Uma seleção que repete eternamente o mesmo futebol desde 1974, com exceção de 1982, com derrotas e vitórias (1994 e 2002), sem a 'magia, a fantasia' de sua lenda, sem renovação, obsoleto e a sempre presente relação de compadrio tão ao gosto do Brasil.
Mbappé atropelou todos os candidatos a melhor do mundo. Hábil, forte, demolidor, o atacante francês de 19 anos é o novo símbolo do futebol. Neymar terá que mudar para alcançar Mbappé. Falo do futebol, da postura, do entendimento do jogo. Tem que ser protagonista, deixar de ser coadjuvante. Desde o Santos, ele é o centro do time. Porém, o pensar não passa por ele. Foi Ganso, foi Iniesta, Luan na seleção olímpica e não rendeu no PSG o que esperava, nem na seleção foi o diferencial. Falta poder mental a Neymar. A convicção de que é grande. A certeza que Romário e Ronaldo tinham que eram geniais. O olhar de vencedor, de fúria, de querer ser gigante, imenso. Também, mudar o jeito de jogar. Fugir do canto, de esperar a bola. Migrar, flutuar, ocupar espaços, se movimentar, começar e terminar a jogada. Se fizer isto, será um duro adversário de Mbappé. Caso contrário, será um outro Robinho. Com mais grife, é verdade!

sábado, 7 de julho de 2018

A Copa, a vida, ainda não terminou!


'Misturo poesia com cachaça e acabo discutindo futebol...'
Vinicius de Moraes entendia da vida, de amores, de paixão. Ou seja, de futebol. O jogo que ganha vigor numa mesa de bar ou num debate esportivo na tv.

Mauro Pandolfi

A vida passa, vou envelhecendo, o tempo fica mais exíguo e continuo me enredando em enganos. Na vida e no futebol. Desconfiado do time de Tite, me encantei com o segundo tempo contra o México. Insinuante jogo! Rápido, envolvente, moderno. Quase suspirei de paixão. Acostumado com Tite e com meus equívocos, fiquei em silêncio, em dúvida com que vi, reticente. Ainda bem que não me empolguei. Aquele segundo tempo foi um acidente, como dizem, um ponto fora da curva. Repetia as eliminatórias. Mas, a seleção na Copa é o que foi contra a Bélgica: a frágil organização desmontada por um time móvel, arisco, rápido, a ausência de armadores, de um inexistente jogo coletivo de ataque, de saída de bola, de inteligência e que sobreviveu de individualidades. Uma seleção, um jeito de jogar, que se repete há várias copas. Tite se perdeu 'na coerência', nas 'convicçõ, na demora para entender a mudança do 'ciclo' do futebol e na falta de opções. Sem lucidez 'organizacional', o time mostrou somente um lance pensado, desenhado na prancheta: a bola de Philippe Coutinho para um meia entrar por entre as linhas. Deu certo duas vezes, com Paulinho e com Renato Augusto. Muito pouco, quase nada, para quem sonhava com o título.
O fim de um ciclo de futebol dentro da Copa. O belo jogo entre Espanha e Portugal foi o espetáculo derradeiro de um jeito Guardiola de jogar. A segunda rodada expôs a nova maneira tática do futebol. O desprezo pela posse de bola, a objetividade para o gol, as defesas sólidas depois do resultado alcançado. Quem entendeu as mudanças foi Roberto Martinez, da Bélgica. A partida contra o Japão foi fundamental na observação. Mudou a Bélgica. Contra o Brasil modificou a ação de seus três principais jogadores. Inverteu jogadas, transformou Fellaini num marcador implacável. Quando Tite percebeu, já estava 2 a 0. No segundo tempo, Martinez consolidou a nova maneira de jogar. Atrás da linha da bola, seguro, saídas, cada vez mais raras, de contra-ataque, deu a bola ao Brasil e confiou em Courtois. Deu certo! Bélgica e França será o jogo que definirá os novos rumos do futebol. Força, rapidez, objetividade, movimentação e muita defesa. O jogo de Pep Guardiola já virou saudade. Que pena!
É hora da análise ou das 'caça às bruxas'. do Brasil. De encontrar vilões, os responsáveis por mais um fracasso. O nome preferido não é do treinador. Que parece será um 'sobrevivente'. É um bom sinal? Demonstra maturidade ou falta de opção? Tanto faz. Porém, Tite tem que entender os seus equívocos, Nem sempre os 'amigos' são as melhores opções para buscar a vitória. Tem de buscar o novo ou insistirá com os 'velhos'? É mais um dilema brasileiro. O que adiantou levar Cássio, Geromel e Taison? Nunca foram opções. Não teria sido melhor levar jovens, com Arthur, Vinícius Jr, Rodrygo, Éverton, Paquetá ou Luan? Teriam a experiência de viver uma grande competição, a pressão imensa da Copa. Renovar com Tite é preservar ideias, conceitos, atitudes. Ou, a troca é necessária para mudar tudo outra vez, na velha solução de clubes brasileiros? A decisão é da cbf, a entidade que deveria ser extinta. Isto é uma outra conversa.
Quem será 'caçado'? Os jogadores. Alguns deram adeus à seleção, pela idade ou pelo 'fracasso'. Fernandinho é um candidato a vilão ao lado de Gabriel Jesus ('como pode um centroavante que não faz gol?', berram os especialistas) e Alyson, o goleiro que não resistiu ao nervosismo e a pressão. Mas, nenhum terá a cobrança como Neymar. Não será devorado inteiro. Será em partes, mínimas partes, para doer mais, machucar mais, tripudiar mais. Ele sabe como são tratados os que perdem neste país. Neymar já conhece esta 'fogueira'. Já foi incinerado outras vezes. Neymar terá uma história parecida com a de Messi - um gênio sem títulos mundias -.ou a reverterá como Pelé, que de acabado em 1966 foi genial em 1970? O tempo, as copas, a vida dirá.
Estranho fenômeno é Neymar. Genial e genioso. Mais odiado do que amado. Virou a 'Geni' mundial. Há lucidez nas críticas, há inveja, rancor, também. Ator, simulador, piscineiro, imaturo, boçal, mimado, playboy, arrogante, soberbo, ostentador, festeiro, sem responsabilidade, sem comprometimento, individualista. Foram algumas das definições que li, ouvi, sobre Neymar. Quase todas injustas e cruéis. Estou impressionado, não sei se a idade que me faz observar melhor, com a imensa pressão de uma Copa do Mundo. Nem Tite resistiu. Neymar também sucumbiu. Não sei se suas atitudes são de imaturidade ou tentativa de suportar a pressão? Não sou psicólogo, como a maioria dos jornalistas esportivos e congêneres, comentaristas de rede sociais, para esta avaliação. Não lembro de um jogador tão odiado como Neymar. Raro leitor de auto ajuda - o futebol é a minha auto ajuda -, arrisco uma frase óbvia, táo óbvia, que pode ser dito por picareta qualquer, inclusive eu: o ódio, também, pode ser uma forma de amor. Um amor envergonhado, dissimulado, medroso, cheio de preconceito, um amor vadio..

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Os duelistas, final?


"Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida"
Assim como sinto saudades de Bob Marley, logo, logo, sentirei de Messi, Cristiano Ronaldo, Iniesta...


Mauro Pandolfi

Terminou? O mais fascinante duelo do moderno futebol chegou ao fim. Sem vencedores. Todos nós perdemos. Os que amam o futebol, os que necessitam de futebol, os que respiram futebol. A ultima imagem de Cristiano Ronaldo é o desespero da derrota. A pressão, o xingamento, a fúria contra o árbitro. O rosto triscado, marcado pela angústia de ver o fim se aproximando. A última imagem de Lionel Messi é o olhar vazio, perdido, de quem não entende o fracasso. Parado, inerte, era abraçado pelos amigos e pelos franceses sem reação. Os segundos mais intensos e longos de sua vida. Cristiano Ronaldo e Messi nunca se enfrentaram em uma Copa. Nunca trocaram um cumprimento ou participaram de um sorteio. O futebol é a melhor alegoria da vida. Nada é definitivo. Nem a morte! O duelo nunca terminará. Será disputado até o fim dos tempos ou até a memória lembrar. Sempre terá um vencedor. Cada amante do jogo da bola escolhe o seu.
Cristiano Ronaldo não conseguiu voar. Ficou retido em uma marcação segura, eficiente, concreta, enjaulado. Seus 'voos' foram curtos, sem profundidade. Não levou perigo nenhuma vez. Os dribles não apareceram e nem a cobrança de falta foi perfeita. O futebol de acertos de Cristiano Ronaldo esbarrou nos erros da equipe, no adversário - o perigoso Uruguai -, no tempo e na derrota. Lionel Messi já entrou perdido. As asas pesadas não levantaram voo. O olhar desnorteado, desolado, a apatia nos movimentos, o isolamento no campo. Lionel foi um pálido Messi. Ainda assim deu duas assistências de gols. Dois 'equívocos' da Argentina e que evitou uma humilhante derrota. Tristes adeus!
Sábado, 30 de junho, 2018. Vai entrar para a história. A última Copa da dupla que tornou imenso o futebol. Dois símbolos da modernidade, de um jogo globalizado, mágico. Messi e Cristiano Ronaldo serão imortais assim como uma outra dupla, de um outro tempo, tornou o futebol poesia feita com os pés: Pelé e Garrincha. Ainda há os que lembram deste duelo localizado aqui, que o mundo sabia somente depois, sem a instantaneidade tecnológica de hoje. Pelé ainda é lembrado, reverenciado, citado como o 'Primeiro e Único' Rei do futebol. De tempos em tempos, sua imagem aparece. Mané Garrincha é somente um nome que vive na memória dos grandes amantes do futebol. Esquecido, à margem como sempre viveu nos campos e na vida, foi ele que inventou as 'asas na chuteiras' - bela expressão de Chiko Kuneski -, imortalizou o drible como se declamasse um poema. O duelo se perdeu na eternidade.
O futebol tem o seu tempo assim como a vida. É o fim de um ciclo. Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta vão dizer adeus. Termina também o jeito Pep Guardiola de jogar. Começa um outro. Os treinadores aprenderam a neutralizar, barrar o rápido jogo alemão e o tocado espanhol. O que oferecem de novo? Até agora na Copa não apareceu.. O destaque entre Uruguai e França foi Cavani. Quem brilhou no jogo da Argentina e França foi Mbappé. Neymar foi o determinante na vitória do Brasil contra o México. Cavani, Mbappé e Neymar jogam no PSG. Será que o novo futebol surgirá na França? E, Neymar estava tão errado ao buscar o PSG? O tempo dirá! O futebol continuará lúdico, poético, vivo, mágico, a grande invenção do homem.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

O que eu espero do Brasil!

 

"Viva o Brasil! Onde o ano inteiro é primeiro de abril"
O 'poemeu efemérico' de Millor Fernandes refere-se ao país. Acho inclui o futebol nele.

Mauro Pandolfi

Ando desconfiado do Brasil. Não é o 'país do futuro' do pesadelo de Stefan Zweig. Este eu tenho todas as certezas dos equívocos que cometi na minha vida acreditando em sonhos, esperanças e utopias. Refiro-me a seleção de Tite. Um time que prometia pelas eliminatórias ser ousado, criativo, perto do eterno desejo do jogo bonito. Mas, não é! É previsível, próximo do burocrático. É organizado como quase todas as seleções da Copa. Sólido na defesa, inexistente na armação, voluntarioso no ataque. Uma equipe que lembra muito a de seleção de 2010. Até nos problemas físicos são iguais. Ainda bem que Tite não é Dunga. É um ótimo treinador e educado. Também, não há Felipe Melo. Casemiro parece ser um jogador equilibrado, sereno e um excelente volante ao contrário do celerado jogador do Palmeiras. Ou, a derrota aflora os instintos selvagens?
O futebol brasileiro é uma fantasia. Sinônimo de ilusionismo, de habilidade, não gosto do conceito, de arte. Desde 1938, com Lêonidas da Silva, espera-se que a beleza desfile de amarelo, tão elegante, tão vaidosa, geniosa, sestrosa. A história é diferente. Porém, como no filme 'O homem que matou o fascínora', um jornalista disse que 'quando a lenda é melhor que a verdade, publica-se a lenda', a lenda foi publicada, repercutida, consolidada.  De 1970 para cá, apenas 1982 tentou materializar a 'lenda'. O jogo envolvente, bonito, rápido, brilhante, perdeu. No entanto, ninguém esquece este time. Em 1994, a retranca, a organização burocrática, com dois armadores (Zinho e Mazinho) pouco mais que limitados, venceu, virou tetra. Mas, parece ser lembrado apenas como obrigação de conhecer os campeões. E um mantra foi criado: 'é preferível jogar feito e ganhar do que jogar bonito e perder'. Nunca mais jogamos bonito. Perdemos muitas vezes.
Será que exagero? Estou iludido pela lenda? Desejo mais do podem oferecer? Ou sou um sonhador como era o Maurinho? Ou, como Eduardo Galeano, suspiro por um jogo bonito, envolvente, sedutor? A seleção de Tite me desanima. Não sou um 'pacheco', nem nacionalista, adoro futebol bem jogado e numa Copa do Mundo me encanto por quem desafina o coro dos contentes, por quem flui o jogo, por quem ataca com elegância, por quem se movimenta organizado e belo como um balé, por quem transpira futebol. Queria tanto vestir uma camisa amarela, sair por aí, comemorando a bela vitória, gritar 'Brasilll!!!' Mas, o time de Tite não me provoca isto. É apenas uma equipe correta, pragmática, com boas chances de ser Hexa. Não entrará para as memórias de quem sobrevive, ame, venera o futebol.
Onde foi parar o futebol envolvente das Eliminatórias? A 'pior geração de todos os tempos' se reinventou. Velocidade, movimentação, o prazer de ficar com a bola, a ousadia. Foi melhor em 2016, diminuiu o ritmo em 2017 e desintegrou em 2018. Ainda mantém a solidez defensiva. Com a ausência de Daniel Alves perdeu a armação e a imaginação pelo lado direito. O outro armador era Marcelo. Renato Augusto formava o triângulo que ditava o ritmo. Neymar e Gabriel Jesus percorriam todo o ataque. E, Paulinho ia de área a área. Que belo time, hein Tite?
Veio a Copa, Tite errou nas convocações, sentiu a pressão, perdeu algumas convicções e O Brasil passou correndo riscos. É do jogo, correr riscos. Parece que Tite involuiu como treinador. O time é ortodoxo, compartimentado, cada um cuida do seu quadrado.  Istoi explica a falta de gols de Gabriel Jesus. Está preso com um centroavante, perdeu a naturalidade sem a movimentação, a troca de funções. A verticalidade Paulinho desapareceu numa mudança organizacional da equipe. Quem apareceu foi a horizontalidade de Wilian. Ele não tem com quem dialogar. Está sozinho. Fagner é um lateral correto, assim com Filipe Luís. Jogam em linha reta, sempre reta, nunca em diagonal quando atacam. Preferem defender. Casemiro virou um volantão. É necessário para proteger dois zagueiros - que fazem boa copa - que pareciam tão frágeis de lentos que são. Não há virtudes neste time? Há e muitas. Vamos a elas...
Philipe Coutinho é um dínamo ofensivo. Falta pouco para ser um maestro. Centro do time, pilar técnico, hábil chutador. Poderia se movimentar mais. Quanto mais falam de Neymar, quanto mais criticam o seu comportamento, quanto mais reclamam de suas reclamações, menos joga. Deixem o 'menino' em paz! Está contido e preso no lado esquerdo. Genial e genioso, Neymar é jogador de campo todo, não pode ficar ''enjaulado' num canto. Liberem a movimentação, deixe o solto, o time será outro. Será mortal!
Vem o México. A correria de Chicharito e seus amigos 'ligeirinhos' não temem o Brasil. Eles já despacharam a Alemanha. Não é jogo fácil. O México gostou de ganhar do Brasil nos últimos anos, inclusive uma medalha de ouro nas Olimpíadas de Londres. Espero que o Brasil se classifique. Quero ver o encontro com a Bélgica. Será o confronto do futebol que me encanta contra o país que me ensinou amar o futebol. Do Brasil pragmático, herdeiro de Zagalo, Parreira, Lazaroni, Felipão, Dunga, contra o estilo, a beleza, o ataque, a modernidade de Hazard, De Bruyne. Ninguém se parece tanto como Brasil de 82  de Telê Santana como esta Bélgica de Lukaku. Talvez, a Croácia de Luca Modric.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O maestro


 

"A primeira função do maestro é indicar a pulsação da música e a mais importante das funções que é fazer música com os seus músicos".
A definição do maestro Sérgio Bernal é a mais perfeita definição de Luca Modric. Ele rege o seu time.

Mauro Pandolfi


Quando vejo Luca Modric jogar lembro dos velhos comentaristas de rádio que sempre chamavam o craque do time de maestro. Modric rege o time. Controla os movimentos e as ações. Ora, acelera. Também, cadencia. Ele é a lucidez e a inspiração. Flutua em um espaço percebido só por ele. Tem o tempo exato da jogada. Não há excesso em seu jogo. Pode ser o passe preciso ou o chute certeiro. Tem sido assim nesta Copa. Modric é a alma de sua equipe. Não espera a bola chegar até ele como o velho camisa dez. Ele procura, encontra, cria e finaliza o lance. É o 'guerreiro' que provoca a luta dos companheiros. A Croácia é a melhor seleção da Copa. Tipico time moderno. Organizado, rápido, boa marcação, um ataque demolidor, prático. Tem tudo para chegar na final. Basta não tremer.
Neymar tem o drible seco em velocidade. Messi é o poeta do futebol. Cada lance é um verso que deve ser repetido pela beleza. Cristiano Ronaldo é a tradução perfeita de um artilheiro. De Bruyne parece muito com Modric. E, qual é a essência de Modric? A inteligência, o jogo, o passe feito uma crônica! O cérebro de Modric tem a forma de bola ou há ramificações em seus pés! Lúcido, criativo, dínamo da equipe. Parece ser tão diferente, inalcansável. O corpo pequeno percorre todo o campo. Está sempre livre para receber a bola, dar passe, correr para receber de novo, fazer o drible, dançar com o adversário e transformar, num chute certeiro, a jogada em gol. O segundo gol contra a Argentina foi assim.
Luca Modric, 33 anos, baixinho - é maior que Messi -, é o mais completo jogador de meio-campo neste momento. Contra o Grêmio, na final do Mundial, controlou o jogo, determinou o ritmo e confirmou que de coadjuvante não tem nada. Cristiano Ronaldo é a estrela. Kroos, o pulmão e o Sérigo Ramos... deixa prá lá! O jornalista português Freitas Lobo já definiu Modric assim: "Sabe dar cada toque, cada passo, cada passe e sabe como se deve pisar num relvado e tratar uma bola. Com sabedoria tática e carícia técnica".
A vida foi díficil para Luca Modric. Aliás, há tantas histórias belíssimas de superação, de resistência nesta Copa. Vale a pena descobrir. Teve que abandonar, aos seis anos, sua casa, sua terra, foi refugiado e perdeu o avó em consequência da guerra. O futebol o salvou. Saiu do Dínamo de Zagreb para o Tottenham e daí para o Real Madrid. Já foi chamado de Cruyff dos Balcãs. Nada mais do que perfeito. O campo é redondo para Modric. Ele gosta da bola, do movimento, do gol, do passe. A explicação para seu jogo é intensa e singela: 'quem sobrevive numa Liga na Bósnia, pode ser jogador em qualquer parte'. Tão verdadeiro, tão real, Luca Modric é o meu craque nesta Copa. Só perde o título, se Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo, De Bruyne desfilarem com a taça, com a artilharia ou transformarem seus times em esquadrão, o que Modric faz com a Croácia.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O gol da Copa!

 

"O gol não é uma simples palavra; é um grito sem fim de amor e dor.  Goooolll!"
Os panamenhos mostraram que Armando Nogueira esqueceu da paixão. Um gol é maior que a vitória quando é paixão"

Mauro Pandolfi

Já escolhi o gol da Copa. Não é o gol estético, preciso de Cristiano Ronaldo. Nem o da inteligência apurada de Modric. Muito menos o balé bem ensaiado da Bélgica finalizado por Lukaku. Nem pensei no chute oblíquo de Philippe Coutinho.  Não cogitei a fúria de Kroos, craque de um time que nunca desiste. Todos golaços que serão lembrados quando contarem a história desta Copa. O gol  escolhido é o que reverencia o espírito do jogo. O que transforma a derrota em nada. O gol do prazer em ver o jogo, em comemorar uma façanha.  O meu gol é de Felipe Baloy. O Panamá foi goleado, triturado, desclassificado por uma Inglaterra poderosa comandada por  um artilheiro fantástico: Harry Kane. Mas, para aqueles torcedores de vermelho o resultado é um detalhe insignificante, menor, inexistente. Eles vibraram com gol feito os vencedores da partida. Deram a lição que a Copa do Mundo não é uma guerra simulada. É uma festa onde o que vale é a cor da camisa, não a da pele; que o canto é de alegria, não de desafio; que o olhar ríspido é o da luta intensa em busca da vitória, não de ódio. Poxa! Eu que não sonho, perdi a esperança e não tenho utopia, me perdi no devaneio de um mundo melhor é possível. Pena que um jogo dure apenas 90 minutos, o que para o mundo é nada.
O tempo passava devagar, bem preguiçoso. A goleada estava consolidada, arrebatadora, definida. A Inglaterra sem pressa já poupava seus jogadores. Seus torcedores entediados esperavam o final do jogo. Os do Panamá estavam tristes, desiludidos, silenciosos. Mas, um lance mudou o espírito. Nada que ameaçasse a vitória britânica. A bola cruzou a área, atravessou uma barreira humana. Atrás dela, um corpo desliza ao encontro da bola. O toque de Felipe Baloy não virou um gol qualquer. Não mudou o resultado, não classificou o Panamá. Virou festa. Uma festa que lembrava título. O gol de povo, de uma nação, de um sonho, de uma esperança. A presença na Copa já era uma utopia. O treinador Gomez ria feliz. A torcida pulava, cantava, vibrava juntos com os jogadores. Baloy misturou-se a eles. O abraços dos amigos, dos parentes virou a grande imagem de sua carreira. E, o futebol mostrou o seu melhor lado 'auto-ajuda': 'o sucesso tem o tamanho do nosso desejo. Não do desejo dos outros'.
Felipe Baloy é um quase anônimo jogador de futebol. Zagueiro técnico e rápido, não deixou saudades nos gremistas. Seu bom jogo não resistiu a mediocridade daquele time que foi rebaixado. Virou até piada. Injusta piada! Depois do Atlético Paranaense o perdi de vista. Reencontrei no álbum de figurinhas da Copa. Quase não o reconheci. Veterano, careca, com barba. Está marcado lá: Felipe Baloy, 37 anos. O gol o deixará eterno, pelo menos para os panamenhos, ou para os gremistas que reverenciam até quem os fez sofrer.
Um homem comum jogando com as estrelas. É a imagem que tenho de Baloy. Não vi nenhum candidato a mito ir abraçar os torcedores. Ele não representava ninguém. Baloy é um torcedor. Fico imaginando o futuro, lá por 2042, a cena é uma cidade do Panamá. O pequeno menino entra correndo em casa chamando pelo vovô: 'Vai começar a Copa, vovô! Me conta uma história de futebol?'. O homem abraça o netinho, coloca em seu colo e pergunta: qual delas? O garoto sorri e diz: a que você virou herói? Não percebe as lágrimas e começa: 'Foi num domingo, lá por 2018...' Este é o destino de alguém que deixa uma marca na vida. Não precisa grandes feitos, vitória imensas. Basta a paixão!