terça-feira, 12 de junho de 2018

...A primeira!



"Tudo é inverossímil enquanto não acontece pela primeira vez. Quem há de acreditar em coisas que ainda estão por vir?"
Charles Bukowski é o poeta que entende a alma de um jogador. Não importa se é de poquer ou de futebol. O primeiro título é indecifrável, mágico, quase inverídico. O espetacular Hazard acredita que a Bélgica pode buscar o impossível.

Mauro Pandolfi

Quem vai ganhar a Copa? Rai Carlos, meu amigo vidente cego, não quis confirmar. Foi enigmático na resposta. "Está entre quem luta pela primeira vez vencer e quem tem a receita perfeita para perder!" Não precisa ser especialista em charada para decifrar a frase de Rai. Bélgica e Argentina?, perguntei. 'Você que está dizendo. Não sou eu! Mas, pense, reflita, análise, que entenderá o que eu disse". Bebeu calmamente o gim, deu um abraço e foi embora. Copa do Mundo é um diamante raro no mundo do futebol. É o ápice do esporte. Jogar já seria o suficiente. É o máximo para o Panamá e o Irã. Pouco importa para o Brasil e Alemanha apenas participar. Só a vitória torna o evento glorioso, inesquecível, para sempre.
1958. O Brasil levou 20 anos para ser campeão. Lêonidas da Silva assombrou o futebol em 1938. Mesmo jogando com a chuteira rasgada, o 'Diamante Negro' foi o craque da Copa. O já fantástico Brasil ficou em terceiro. A guerra impediu os mundiais de 42 e 46. Em 1950, as 'toruradas de Madri' invadiram o Maracanã. Zizinho era um mestre na arte de jogar. Obdúlio Varela conduziu um improvável Uruguai ao título. Pelé, o menino Édson, cumpriu a promessa que fez a o pai Dondinho. O resto da história todos sabem.
A França levou décadas para entrar na galeria dos campeões. Nem em 1958, o timaço de Just Fontaine, nem o quarteto de dez de Paltini, Giresse, Genghini e Tigana conquistou o título em 1982 e 1986. Faltou pouco, quase nada. A honra coube a França multirracial comandada por Zinedine Zidane em 1998. A Espanha esperou um pouco mais que os franceses. Sempre candidata. Para ganhar a Copa juntou a melhor geração de sua história. O extraordinário Iniesta foi o condutor da vitória. Já a Holanda desperdiçou seus vários talentos. Nem Cruiff, nem Van Basten, nem Berkamp, nem Robben levaram o título para casa. E, agora, os holandeses vão ver a Copa de casa. Como é cruel o futebol!
Chegou a vez da Bélgica? A melhor geração em uma Copa. Uma espinha dorsal magnífica, de estrelas de primeira grandeza. Começa em Courtois, passa por Kompany, chega em Hazard, brilha em De Bruyne e se transforma em gol com Lukaku. E, se a coisa não funciona, há sempre Fellaini, uma espécie de Jael. 'Os deuses do futebol' adoram estes 'craques'. A Bélgica é uma síntese da mistura racial que forma a atual Europa. Há os filhos de imigrantes, de estrangeiros, os belgas, todos formando um esquadrão espetacular, o time da 'moda', o favorito de quem ama o jogo, dos especialistas, dos curiosos, como eu. Cuidado com a Bélgica, Tite!
César Luís Menotti não era um técnico comum. É um homem culto, leitor de Borges, fã de Piazolla, de posições políticas firmes. Porém, cometeu o mesmo equívoco que qualquer Lazaroni ou Parreira cometem. Deixar um garoto de fora. E, não um menino qualquer. Era Diego Armando Maradona. No entanto, Menoti ganhou a Copa. 1978 é um dos mundiais mais complexos, duvidosos, conturbados da história. Maradona carregou a Argentina em 1986 e o impediram de vencer em 1990 e 1994. Lionel Messi tenta mais uma vez entrar no coração dos argentinos. Busca a consagração. Só a Copa dará o verdadeiro valor que Messi tem. Tomara que os 'deuses do futebol' abandonem a crueldade com os gênios.
Um time desorganizado, afoito, perdido, com estrelas decadentes mais famosas do que talentosas, confuso, brigado com a imprensa, um treinador - Sampaoli - acusado de assédio, brigas internas, convocações duvidosas, sem confiança dos torcedores, no grupo mais difícil da Copa. Eis a receita do fracasso, da eliminação da primeira fase. O mesmo cenário da Itália de 1982 e da França de 1998. Será que a história se repete como farsa ou como glória? Ah, a Argentina tem Lionel Messi. Ele é o dono do jogo. Será que o sorriso de Rai Carlos quando citou o 'time que tem a receita para perder' é um sinal de vitória?

sábado, 9 de junho de 2018

A última...

 

"Quantas chances desperdicei, quando o que eu mais queria era provar para todo o mundo que eu não precisava provar nada para ninguém"
O belo verso de Renato Russo parece escrito para Lionel Messi. O seu jogo não precisa de uma Copa do Mundo. A taça é apenas um troféu, nada mais.

Mauro Pandolfi

O olhar de Lionel Messi me impressiona. Parece perdido, alheio. Olha para um horizonte distante procurando uma saída ou solução. Um olhar que se modifica numa cobrança de falta. Ali, é centrado, feito mira, compenetrado. Nada o distrai. Messi é o craque com olhares mais intrigantes que vi. Aéreo feito Garrincha. De águia, como Pelé. Melancólico, como Diego Maradona. Vi este olhar, outra vez, numa foto esta semana durante um treino da Argentina. Jorge Sampaoli conversava com os jogadores. Seus gestos indicavam uma jogada, um posicionamento ou um lance. Todos prestavam atenção ao 'chefe'. Olhares fixos. Todos, menos um! Lionel Messi. Não prestava atenção. Olhava o nada. Sabe o que precisa fazer para levar a Argentina ao título. Tudo! A Argentina é ele e mais nada. A Copa da Rússia é a última chance para erguer a taça, dar volta olímpica e ser reconhecido como o maior de todos. Ou, no mínimo, do mesmo tamanho de Pelé e Maradona.
Não vou torcer para a Argentina. Vou torcer para Messi. Ele merece o título. Ninguém joga tão bem o futebol como ele. Tem a magia, a poesia, o encantamento de um menino com a bola. É um prazer vê-lo brincar a bola. E, eu que detesto a expressão 'futebol arte', uso para definí-lo. Lionel Messi é um artista. Um Picasso em seu gols plásticos que deveriam ser 'pendurados' nas paredes de um museu. Seus dribles tem o compasso, a elegância, a virulência de um samba de Paulinho da Viola. Ou, como é argentino, a cadência de um tango moderno de Astor Piazolla. Messi é o melhor herdeiro de Pelé. Tão completo como o Rei. Tão majestoso. Ou, como diria o velho compositor baiano, 'a sua melhor tradução'. Messi merece ser campeão do Mundo.
Como Messi entrará na história? Feito Pelé e Maradona? Mitos e sinônimos de futebol? Como um Romário e Garrincha, homens capazes de ganhar um título quase solitariamente? Ou, como Cruyff, Puskas, Zico, Platini? 'Derrotados'! Porém, mais vencedores que os medíocres que carregam nos seus currículos um título mundial. Seus os 'deuses do futebol' tiverem compaixão, Lionel Messi será coroado o gênio maior da bola. Afinal, ganhar com aquele time ruim da Argentina ao seu redor é obra de um milagre. E, que  aconteça o milagre!

quinta-feira, 7 de junho de 2018

As minhas Copas

 

"...Percebam que a alma não tem cor. Ela é colorida. Ela é multicolor. Azul, amarelo, verde, verdinho, marrom..."
Assim como a 'alma' de Karnak, a bola na Copa do Mundo não se apaixona pela cor da camisa. Se apaixona pelo encantamento que a camisa produz.

Mauro Pandolfi

Estava ansioso com a Copa. No meu álbum faltavam a maioria das figurinhas. Era uma escolha que precisa fazer com o pouco dinheiro que tinha: Figurinhas ou Placar? Sempre preferi a Placar. Comprei todas naquele 1974. Sabia tudo sobre as seleções da Copa. Conhecia Lato, queria ver Cruyff e não entendia a ausência de um garoto chamado Zico. Nem os jogos com os amigos de time da rua, nem os deveres de aula, os estudos, nem cuidar do Márcio, nada me afastava da tevê na hora dos jogos.  A mãe já tinha entendido e não pedia para ir ao armazém. O futebol era mais importante. Descobri a beleza do jogo. A cor da camisa não dizia nada. Vi a laranja ser mais empolgante, mágica que o amarelo pálido do Brasil. Perdi o 'nacionalismo, o patriotismo' ali. A Holanda parecia a gente jogando. Todos ao mesmo tempo de uma vez só. O gol era a nossa obsessão, vira em três e termina em seis. Como pensar em defesa? Fomos Holanda contra o Brasil na casa do Bolacha.. Pulamos, vibramos e irritamos o seu Jeremias, pai do Bolacha. 'Piás de merda! Torcendo contra o país!', bradava raivoso.  Ninguém ligou. Durante algum tempo fomos holandeses. Repetimos os movimentos. Éramos Rep, Krol, Resembrinck, Neskens, Cruyff em nossos devaneios, nas brincadeiras, nas risadas. Não sei se os meus velhos amigos de Copacabana lembram disto? Nem sei onde estão? Às vezes, fico em dúvida se tudo não foi um sonho meu?
Estava ansioso com a Copa. 82 ainda marcava a alma. Seria a primeira Copa como jornalista. Não fui ao México. Fiquei na redação do Diário Catarinense. Escrevi muitas matérias. De economia ao futebol. Perdi uma aposta para o tempo. Achava que uma seleção africana seria campeão do mundo em três ou quatro copas. Enganei-me! Por algum motivos os africanos não deram o passo seguinte. Sempre ficam pelo caminho. O bom jogo da fase de grupo vai se diluindo até se desintegrar nas quartas. Fui o 'setorista' da Argentina. Acompanhei o dia-a-dia dos amigos de Maradona. Com o grande Pedro Hasse desenhei a página da finalíssima. Me senti um editor. México, 86, seria a primeira Copa de muitas. Enganei-me, mais uma vez! Foi a única. A vida é uma estrada, com atalhos, surpresas. Numa destas curvas, larguei a profissão. Fui fazer outras coisas e não deixei vestígios no jornalismo. Só um sentimento, às vezes, me pega de surpresa: o que teria acontecido se não tivesse entrado naquela curva?
Tantas copas passaram. A última que me marcou foi a de 98, na França. Não foram os jogos, nem Zidane, nem o incrível  'fracasso' do jornalismo - não existe jornalismo quando o assunto é a seleção brasileira. Há torcida! - que não sabe até hoje o que aconteceu com Ronaldo, nem um time da África. Foi assistir os jogos com o André no colo. Recém nascido, ele é de maio, dormia atravessado no meu peito. Sentado no sofá, bem largado, estirado, aconchegado, coração com coração, assistia, quase em silêncio, para não acordá-lo. Foi um dos momentos mais felizes da vida. Revivo em meus sonhos, nas lembranças, na saudade, nas fotos. O meu craque daquela copa foi o André!
O tempo traz as copas e a vida vai voando. A ligação que tenho com elas são os álbuns de figurinhas e nada mais. André e Pedro colecionam desde de 2002. Até madruguei para ver alguns jogos daquele Mundial. André e Pedro não gostam de futebol. André, ainda, rende-se a Copa. Assiste, torce. Pedro ignora. Prefere jogar em seu notebook. Num sábado destes entramos numa banca de revistas em busca de figurinhas. Enquanto compravam, aproveitei um banquinho e olhei as revistas expostas. Nenhuma de futebol. Olhei, mexi, vasculhei as de ...culinária! Molhos de massas, saladas, tortas, carnes, risotos. Perplexo, pensei olhando para dentro, para o vivido e o que ainda vem, refleti: o que a vida fez comigo ou o que eu fiz com a minha vida?

terça-feira, 5 de junho de 2018

Derrota

 

"Só três pessoas calaram o Maracanã com um gesto: Frank Sinatra, o Papa e eu!"
Ghigia não só calou como 'inventou' o moderno futebol brasileiro. Ao ver o pai Dondinho chorando, ganhar o Mundial virou obsessão, desejo e promessa de um menino chamado Édson.

Mauro Pandolfi

Eu sou um perdedor.  Nem sempre é ruim. Tanto faz na vida  ou no futebol. Às vezes, a derrota é fundamental para abrir a mente, abandonar os conceitos, rejeitar os preconceitos, eliminar a certeza, destruir a coerência, descobrir a 'magia'. Perder te tira da zona do conforto. Faz encarar o labirinto de maneira lúcida. Requer saídas, soluções, pensares. Bom, é para quem não se conforma com a derrota!. Quem se conforma, paciência! Grandes seleções do futebol foram derrotadas. Brasil inventou um futebol para fugir de 50. Holanda ainda procura superar 74. A Hungria, parece que desisitu do futebol, nunca mais conseguiu ser o que prometeu em 54.
'Anatomia de uma derrota', o livro de Paulo Perdigão, mudou alguns conceitos que tinha sobre futebol, a sua história e seus mitos. O livro disseca tudo sobre a 'grande tragédia' - o termo usado como se fosse um teatro. É teatro! O teatro de grama e paixão! ´- o infortúnio, o complexo absoluto de inferioridade. Fracassamos diante de nós. Nada mais falso do que isto. O Brasil perdeu a Copa e partiu em busca da modernidade, do futuro que prometia grandioso. A derrota salvou o futebol brasileiro do amadorismo. Há uma reestruturação profunda. O húngaro Bela Gutman é contratado pelo São Paulo para fazer uma 'revolução'. E, fez!. O anacrônico WM é substituido por uma nova estratégia de ataque e defesa (o 4-2-4), de pensar o jogo, de obsessão pela vitória. Seu auxiliar Vicente Feola assume a seleção brasileira. Ele teve a ousadia que mais nenhum técnico teve neste país: levar um menino de 17 anos para a Copa. Pelé já era o 'Rei Etíope' na definição de Nélson Rodrigues em 'Sombra das chuteiras imortais'. O resto da história todos sabem.
Mas, se o Brasil tivesse ganho a Copa de 50? Será que o menino Édson faria a promessa ao pai Dondinho? Deixaria Bauru para ir ao Santos? O futebol ainda seria o romântico WM? Teria ganho o tri (58, 60, 70? São perguntas que nunca terão respostas. Assim como a Copa, a vida não tem returno. Passa rápida ou lenta, às vezes, voa, mas é única. As derrotas são corrigidas por quem não tem medo de ousar, de arriscar, de perder outras vezes. Está é uma lição que o futebol me deu. Lição que às vezes, feito aluno relapso, deixo de fazer.
2014 não é 1950. O Brasil já tinha perdido o romantismo. Um país mais árido, ríspido, desconfiado. A visão do 'futuro promissor' já tinha sumido do horizonte. As grandes manifestações de 2013 não fizeram 'a primavera'. Tudo continuou igual, cada vez pior. O futebol já não era a paixão nacional. O time de Felipão era pálido, sem alma, sem paixão. 0 7 a 1 não foi uma 'tragédia' como 50. Não teve a dor da massa no Maracanã. Segundo Carlos Heitor Cony ouviu dezenas de pessoas na saída do Maracanã em 50.  'Cada um tinha a sua visão do que acabará de acontecer. Nenhuma era igual a outra. Todas diferentes. Como acreditar que isto tudo aconteceu?', refletiu no prefácio do livro de Paulo Perdigão. Não tornou-se drama e nem angústia. Virou chacota, piada, memes, gozação, zoeira. Não teve Barbosa - o que é um significativo avanço - e nem violência. Não provocou nenhuma revolução no futebol. Tudo continouu igual, cada ver pior. Foi somente uma derrota, uma goleada retumbante, que de tempos em tempos, acontece no futebol. Apenas, humilhação! Gabriel Jesus pintou a sua rua, em 2014, de verde e amarelo. Será que prometeu  o título de 2018 para a sua mãe?

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Notas sobre a cegueira


"A única coisa que importa é o triunfo do agora. É a isto que eu chamo a cegueira da razão"
Li em José Saramago esta frase. Mas, só entendi o significado conversando com meu amigo Rai Carlos, o vidente cego.

Mauro Pandolfi

Há tempos que não via Rai Carlos. Fui ao boteco do Alemão, seu 'escritório' de todo final de tarde, para uma conversa sobre a vida, os amores, as paixões, os dramas, ou seja, futebol. Cercado de amigos, o copo de gim na mesa, ele centraliza o papo. "Vocês, e o Tite, não enxergam nada além do lance. Não percebem a alma, a energia, a força vital de um craque. Vocês só olham, e o pior, por cima, superficialmente. Maicon e Lucas Paquetá nunca deveriam ficar de fora. Eles inventam o jogo, fazem o time jogar, fluir, são os que chamam hoje de ritmista. Quem vai dar ritmo a este time? Fernandinho, Renato Augusto? Com a ausência de Daniel Alves, só Marcelo tem este dom. Se for marcado, a seleção desaba, some, perde. Escutei no rádio que Tite convocou o Fred e desistiu do Luan devido aos treinos. Alguém precisa dizer a ele a frase do grande Didi: 'treino é treino, jogo é jogo'. Então, chamou um leão de treino! Tite usou a cegueira da razão. Não viu ninguém depois das eliminatórias. Escolheu os mesmos. Usou a estupidez da coerência. Um dia, quem sabe após a copa, entenderá que a coerência não é estática, parada, definitiva. Sempre muda, sempre avança, progride. Como diz aquele macaco, o Simão, quem fica parado é poste!". Terminou de falar, bebeu o gim e me encarou.
"Olha só quem não vejo há tempos!  Mauro Pandolfi!  Tu deves estar frustrado pelas ausências de Luan e Arthur? É mais um cego que não vê Maicon!" O abraço e o beijo fraternal vem em seguida. 'São jogadores diferenciados, dão um dinamismo ao Grêmio que não vejo em nenhum outro time daqui. Tu não defendes a convocação deles?' , indaguei. A gargalhada famosa do bairro Nossa Senhora do Rosário explode no bar. "Então, acha que prefiro Fred e Taison? Tento escapar do Grêmio, da paixão, fugir da lógica do jogo do Renato. Tite tem outra lógica, outro padrão. Ele consolidou, não vai quebrar nem na hora do sufoco. Maicon ou Paquetá não fogem tanto dele', explicou.
Fiquei desoncertado com a explicação. Lembrei da observação do Matheus que chamou os gremistas de 'cegados por Luan', por verem um jogador que 'só o gremista vê'. Ainda confuso, perguntei: 'A páixão é cega, Rai?'. Não riu, pediu outro Gim, armou os braços na mesa e filosofou. "Só a estupidez é cega. A paixão abre a mente, expande o córtex, libera os hormônios, faz você acreditar em algo que só você vê. O Luan tem um jogo que é melhor visto pelos gremistas, que são apaixonados por ele, que acompanham todos os passos no campo, percebem os seus olhares para os companheiros, os passes, a movimentação é mais intensa a partir do seu olhar. Todo apaixonado, todo torcedor é assim. O desejo, o craque são mais do que são na verdade. Não por serem menos. Mas, por acrescentarmos mais virtude, mais encantamento, mais brilho. Luan é ótimo. Foi bom ele não ser convocado. Seria reserva, não entraria, que fique jogando no Grêmio. Lá ele é o maestro".
Gosto de Adenor Bachi. Recuperou a imagem da seleção, criou um time bom de se ver, que gosta da bola.  'Tu não gosta do Tite, Rai?'. O rosto triscou, pediu mais um gim, riu e diisse:"Não é uma questão de gostar, admirar, elogiar. Tite não é Pep Guardiola. Não viu Maicon, nem Paquetá e muito menos, Arthur, que será o substituto de Iniesta. Tite é um italiano. É um Capello, um Anceloti ou Conte. Está no seu dna. Seu time joga bem, é prático, dogmático, e por mais contraditório, namora com o acaso. Às vezes, envolvente. Nunca sedutor. Eu gosto do imprevisível, nunca do acaso. Tite usou o vácuo da falta de gente decente no poder deste país. Encantou as pessoas com a ética, o caráter. Porém, acho muito vaidoso, tem uma soberba disfarçada de humildade, de gente comum. Tenho medo disto".
Antes de ir embora, Rai complementou. "Tite deve saber que só há duas possibilidades na Copa. Ou a glória ou a desgraça. Quem o elogia hoje, os jornalistas que mudam de opinião a cada rodada, cada derrota ou vitória, serão os seus algozes ou seus laudatórios. Aqui, o futebol para a imprensa é um ensaio sobre a cegueira. Não há passado recente e nem futuro, só o mitificado. Importa apenas o triunfo do agora. A imprensa esportiva nada vê, nada enxerga, ergue, mítifica, endeusa quem vence. Destrói, esconde, anula quem perde".
Perto da porta, depois do abraço e do beijo fraterno, da despedida, tento uma previsão. "Esquece, Mauro! Me aposentei. Estava errando mais do que acertando. Mas, cuidado com a Argentina. Os deuses do futebol devem algo para Messi. A conta pode ser paga no Mundial. Ainda mais que Sampaoli vai para o suicídio ofensivo. Não esqueçam dos meninos ingleses e nem dos negros maravilhosos da França. Mas, deve dar o de sempre. Sinto muito!" Já de saída gritou: 'Vou torcer para uma zebra colossal. Meu time é o Panamá de Baloy!" Um pouco longe, já dobrando a esquina, escutei e reconheci a linda música que Rai assobiava. Era de Lupi.

terça-feira, 15 de maio de 2018

E, o Giuliano?


"O tempo dirá quem é melhor: Taison ou Messi?"
Taison tem a última chance de provar que Wianey Carlet não era um colorado delirante, e sim, um sábio do futebol e que não é 'ovelhinha' de Tite.

Mauro Pandolfi

Faltou alguém. Sempre falta. Dirceu Lopes, Ademir da Guia, Roberto Dias, Falcão, Neto, Zico, Romárioe Neymar já assistiram a Copa no sofá da sala. Fontana, Elzo, Zé Carlos, Batista, Felipe Melo,Carbone e Grafite estiveram lá. Alguns, beijaram a taça, desfilaram no caminhão de bombeiros, foram homenageados e, alguns, definitivamente, esquecidos. Tite seguiu a história. Preferiu os conhecidos, os que ajudaram a ganhar a vaga. Os treinadores são mais parecidos do que supõe a vã filosofia de botequim. Tite não é tão diferente de Dunga ou Felipão. Ele também gosta dos amigos por perto, de seus 'craques' de confiança. Felipão apostou nas 'pernas alegres' de Bernard. Dunga confiou na 'elegância discreta' de Felipe Melo. Tite acredita em Wianey Carlet. Escolher Taison ao invés de Luan ou Vinícius Jr é desafiar o talento, ignorar os novos ou desafiar os deuses da bola. Eles, os deuses, costumam ser cruéis.
Tite já foi unanimidade. Um homem correto, ético, de caráter. Teve um período que muita gente o queria como presidente. Adenor Bacchi, o Tite, é pragmático, previsível, perigosamente coerente. Reinventou a seleção. Recuperou o prestígio, a fama e a tornou a camisa amarela temida outra vez.  Armou um time forte, 'consistente' (o titês definitivo sobre a equipe), vigoroso na defesa, rápido no ataque, recomposição precisa nas eliminatórias. Um jogo que não repetiu nos amistosos este ano.  Tite aposta em único estilo, sistema ou forma de jogo. Se precisar de algo diferente, quem mudará o ritmo ou buscará a vitória? Taison? A surpresa da lista é a ausência de Giuliano. O que fez para ser esquecido? Futebol é um jogo de olhares e escolhas. Os meus são diferentes. Mas, quem sou eu para protestar?
Faltou ousadia na lista. Surpreender os outros. Foram os de sempre. Os gaúchos chamam de 'ovelhinhas'. O resto do Brasil de 'panelinha'. Não confio na zaga do PSG e nem em Allyson. Sempre falham em jogos decisivos. Dos laterais, gosto apenas de Marcelo. Fágner é a repetição de Zé Carlos. Casemiro e Coutinho são ótimos meias. Desconfio de Paulinho e Wiliam.  São inconstantes demais. Fred - quem garantiu a convocação foi o interesse de Pep Guardiola -, Fernandinho e Renato Augusto são um exagero como já foram Felipe Melo, Elzo ou Batista. O ataque é o melhor setor da lista. A exceção é Taison. Inexplicável convocação. 'Recompõe bem, joga a Champions, tem experiência", justificou Tite. Mas, nos últimos seis meses, marcou um gol. A esperança é ele virar um Josimar. Tite ignorou Luan. Não respeitou' a história, a experiência, as conquistas' do melhor jogador da América e do ouro olímpico em 2016. Se perder a Copa, Tite ficará marcado por não levar Arthur, o mais cerebral dos meias brasileiros. O craque que o Barcelona escolheu para substituir Iniesta. Tite preferiu Fernandinho, Fred, Renato Augusto.
Luan, Arthur, Vinícius Jr, Paquetá, Paulinho, Rodrygo vão embora! Busquem um time na Europa. Se não for num gigante, vão para o Shaktar Donest. Aqui, não adianta brilhar, se destacar, ganhar títulos, serem reconhecidos. O 7 a 1 está marcado na nossa pele. Jogamos um mau futebol, inferior aos grandes centros. Somos periferia. Entre os novos craques daqui e os medianos europeus, Tite vai preferir a 'história, a experiência, a consistência' da grife européia. Que sorte teve um certo Pelé. Só em 1958, com um técnico mais intuitivo, sem aplicativos, sem algorítmos, para apostar num menino de 17 anos. Às vezes, eu que adoro o futebol moderno de estratégias táticas e do passe, tenho vontade de querer a poesia do jogo, do drible, do menino que inventa lances inesquecíveis. Vou ao youtube reencontrá-lo!