sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O brasileiro Sócrates. Memórias...

 
"Arte, no futebol, nunca foi adjetivo"
Sócrates foi único. Talento no caminhar, no passar, no toque sutil de calcanhar, na hora do gol, no braço erguido de um pensador atrevido e único. Este tempo seria menos sombrio com Sócrates. A sua lucidez faz falta.

Mauro Antônio Pandolfi

Tem dias que sinto saudades. Às vezes, da vida, de algum momento. Noutras, de um amor perdido, de uma paixão bem vivida. Muitas, de amigos imprescindíveis, eternos, isolados em distanciamento social. Hoje senti saudades de Sócrates. Escutei Juca Kfouri falando dele, da gentileza e do craque. Casagrande declarando a paixão por ele, o amor pelo ídolo, pelo homem. O futebol é movido por duplas desde Pelé e Coutinho. Ou, até antes, no magistal River Plate de Labruna e Di Stefano. Casão e o Magrão foi um encontro de almas, de pensares, de jogo. A serenidade e a rebeldia. A ousadia e a maturidade. O arrojo e a lucidez. Complementares! Jovem, ainda sonhador, virei corinthiano por instantes, pela Democracia Corinthiana, por um sonho de um país, livre, leve, justo. Tudo foi um engano. A Democracia Corinthiana assustou o mundo reacionário da bola, sumiu, virou história. E, o país? Será mesmo um país? Ou, só um hospício controlado por um 'líder' insano, hostil, manipulando uma horda de devotos alucinados?
Saudades de Socrates! Mais do que suas palavras, seu jogo. Do passe preciso. Do meia que controlava o espaço e o tempo. Tudo era medido. Regido por um gênio. Gostava de suas passadas largas, de sua lentidão enganosa, do raciocínio rápido. Sócrates faria hoje 67 anos. Partiu tão cedo, foi tão apressado. É um dos meus ídolos. Um dos poucos que me tirava de um jogo do Grêmio para vê-lo. O último a me fazer torcer pela seleção brasileira. Jamais terei outra camisa amarela. Para lembrar de Socrates republico um texto deste crônicas.


Sócrates!



"Se as pessoas não tiverem o poder de dizer as coisas,eu vou dizer por elas. Quando era jogador, minhas pernas ampliavam a minha voz".
Sócrates era o jogador que pensava. O jogo e a vida. Genial, artístico, político. Um homem que faz falta em qualquer tempo.

Mauro Pandolfi


Ando com saudade de Sócrates. Fucei no you tube e achei alguns lances que alegraram a minha alma. Gols e passes. Vi um jogo completo e acompanhei a sua movimentação em campo. Não sei se o Sócrates grego era físico além de filósofo. O Brasileiro parecia um físico jogando. A movimentação, o olhar, o andar não eram acidentais, triviais, ao esmo. Eram pensados. Noção perfeita entre tempo e espaço. Certamente Stephen Hawking o conhecia. Desconfio que algumas teorias sobre gravidade e tempo foram baseadas na dinâmica de Sócrates, na sutileza e elegância de seus deslocamentos. Não foi só o futebol que me deixou com saudades dele. Ao ver Ronaldinho Gaúcho fazendo campanha para Bolsonaro lembrei do Magrão. Socrates se manifestou contra a ditadura. Ronaldinho faz apologia ao defensor da ditadura. Como pode alguém que vestiu a camisa do Barcelona apoiar um fascista? Certamente, nas horas de folga, o 'gaúcho' preferia seus pagodes a um bom livro sobre a história do Barcelona, da Catalunha contra o fascismo franquista.
Sócrates foi o meu ídolo de juventude. Tinha um poster dele no quarto. Durante algum tempo sublimei a paixão gremista pelo Corinthians. Tempo da Democracia Corinthiana. Metido a rebelde, eu gostava de quem desafinava o coro dos contentes, que desafiava a ordem. Sócrates era o meu preferido. Amava o seu jogo. A cabeça erguida, a falsa lentidão e a técnica apurada. Meu lance preferido era o calcanhar. A sutileza e magia num átimo de tempo. Tão rápido, tão desconcertante, tão artístico. Admirava o seu pensar. Não era um jogador comum. Tinha algo para dizer, propor, sugerir. Irritou o conservadorismo deste país. Velhos jornalistas - e nem  tão velhos assim -, amantes da opressão, das 'boquinhas', não o toleravam.  Eram obrigados a engolir pelo talento. Mas, sempre tinha um mas...
'Cervejeiro, revolucionário, contestador, rebelde, jogador tem que jogar bola, não falar de política'. Ouvi muito isto. Desliguei rádio, tevê, joguei fora jornais, não suportava a estupidez conservadora da imprensa esportiva. Nunca fiz uma entrevista com Sócrates. Com Paulinho Scarduelli gravei uma conversa com o psiquiatra Flávio Gikovate, fazia parte da diretoria do Corinthians no tempo da Democracia, sobre futebol, política, sexualidade, vida e, principalmente, Sócrates. Anos depois, entrevistei Raí, que fazia a estréia na Seleção Brasileira. Duas ou três perguntas sobre ele. Os outros 20 minutos foram sobre Sócrates. Não resisti a idolatria.
A vida foi cruel com Sócrates. Já tinha sido com Garrincha. O álcool foi um marcador feroz com os dois. Foi íntegro até nas últimas horas de vida. Recusou o privilégio de ídolo para um transplante. 'Só que é o seguinte, eu tenho de estar na lista. Eu não furo fila, não. E eu não estou em nenhuma lista", disse. No dia quatro de dezembro de 2011, Sócrates morreu. Um triste domingo. Ele sempre foi um exemplo para mim. Enquanto que Ronaldinho e seu irmão Assis foram denunciados por mau uso de verba pública em um 'suposto' projeto social em Porto Alegre. É! O futebol dá para comparar. Já o caráter, não!
  

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Outras memórias: Reinaldo!


"Eu quero um gol de meia-bicicleta de Reinaldo para tatuar na pele da lua e tomar o lugar de São Jorge com seu cavalo, para que os namorados e os ex-namorados, os amantes e os ex-amantes, de todas as idades, digam uns aos outros, apontando para a lua:.

Olhe só o que pode um homem, mesmo quando está caído".

Roberto Drumonnd foi o cronista que melhor decifrou a genialidade de Reinaldo. Drummond é o apaixonado que torcia contra o vento que balançava a camisa do Galo estendida no varal.


Mauro Antônio Pandolfi


Lembrei de Reinaldo hoje de manhã. De seus gols mágicos, do punho erguido da rebeldia, de sua inteligência apurada. Nunca vi um centroavante como ele. Romário tinha a capacidade de finalizar de Reinaldo. Careca, a imensa habilidade. Ronaldo, o controle do espaço. Reinaldo era todos. Foi intenso, tão imenso, durou tão pouco. Muito pouco. Quase nada. Apenas os atleticanos, os mineiros, os apaixonados pela arte do gol bem elaborado, esteticamente perfeito, reverenciam. Não chegou no topo do mundo. Os joelhos destruídos impediram que a glória e o talento o tornasse um Messi ou Cristiano Ronaldo. Mas, ele era, no mínimo, no mesmo nível. Quem sabe, superior. Delírio de fã? Pode ser. No entanto, Reinaldo era extraordinário.

Do nada, bem aleatório, uma página do feicebuque mostrou lances, dribles, gols de Reinaldo. É o dia de seu aniversário. 64 anos. Bah! Meus ídolos já estão velhos, como eu. Onde foi parar o tempo que imitava, sem sucesso, Reinaldo? Queria encontrá-lo! Não tinha a intenção de republicar um texto. Entretanto, a bela saudade, o encantamento que tinha com Reinaldo, mudou a minha opinião. Republico com alma lavada e enxaguada de emoção.



O Rei

 

Mauro Pandolfi


Era um menino com cara de anjo, um moleque de cabelos enrolados, feliz com a bola nos pés. Brincava com ela. Seus dribles eram versos livres, soltos. E, os gols? Obras de arte! Foi um rei tão mágico, tão elegante, tão contestador. Um rei rebelde, como são rebeldes todos os guris que nasceram para jogar bola. Um rei de um povo apaixonado, que gritava em coro o seu nome. Rei de um tempo distante, perdido no passado, encontrado nas memórias de quem viu jogar, nos arquivos do you tube. José Reinaldo de Lima está de aniversário neste 11 de janeiro (59 anos). Estupendo jogador que disputava o 'trono' com Falcão e Zico. Um guardanapo era um latifúndio para ele. Hábil e cerebral. "Ei, ei ,ei! Reinaldo é nosso Rei!". Os gritos da torcida do Galo ainda ecoam quando o Mineirão fica em silêncio.

O punho cerrado da revolta. O braço erguido da contestação. A doce corrida pelo gol. Reinaldo era um inconformista. Rebelde de gestos e lances. Um atrevido! Tinha prazer em incomodar. O garoto sem meniscos, sem medo, com talento. Abusado, desafiou a ditadura militar, pediu eleições diretas, livres e anistia. Tinha um jeito anárquico de ser. Leitor de Proudhon e Freud criticou o conservadorismo comportamental da vida brasileira, da família, da imprensa. Um libertário! Reinaldo era doce e melancólico. Tinha cara de anjo. No futebol, terminou como um anjo caído

Aos 13 anos foi tirado de um treino após uma sequência de dribles em zagueiro titular do Atlético. Medo da violência. Violência que o abateu aos 15 (operou um joelho), aos 16 (cirurgia em outro joelho), sempre bateram nele. Reinaldo não resistiu aos pontapés, as dores insuportáveis nos joelhos. Jogou em alto nível até os 27 anos. Depois, perambulou mais sete anos por aí. Era só uma lembrança do Rei.

Tornou-se político nos anos 80. Um parlamentar comum, sem expressão. Tentou ser técnico. Não conseguiu. Sumiu. Parecia um exílio. Até ser preso, acusado de tráfico.  Foi driblado pela vida. Não sei onde anda Reinaldo. O que faz? Quem é hoje? No dia que escolhem o melhor do mundo, eu lembro dele. Estou triste. Era um jogador para o planeta, para sempre, eterno. Não foi! Guardo na memória o mais fantástico centroavante que vi jogar.



 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Universo em desencanto. O adeus?

 

"O homem é um vago bicho sem destino que nasceu em cima desta terra, sem saber porquê e nem para quê".
Foi com Tim Maia que me iludi com o Racionalismo. E, foi o mesmo Tim quem abriu os meus olhos sobre o Racionalismo e o desencanto do universo. Mas, há pensares deste Universo que levam à reflexão, à tentativa de entender os movimentos das pessoas durante este tempo sombrio, seus atos, sua estupidez. É a vida por um fio? Breve, não haverá ninguém? Ou é só um delírio de um velho com medo de enlouquecer? Ou, pior, descobrir a lucidez?

Mauro Antônio Pandolfi

Há tempos que não penso no futuro. Nada planejo. Nem cogito. Apenas, espero. Até o passado virou um enigma. Aconteceu mesmo ou é ficção, um desejo, um sonho que o tempo ou a imaginação criou? Entendi que o passado não é definitivo, nem para sempre. Ele muda, altera, inventa, vive. Cria ilusões, revela decepções ou apenas mitiga a saudade, a utopía perdida. Vivo o presente. Que presente? O agora, o já! O hoje que é igual ao ontem e muito semelhante com o amanhã? Todo dia tem o mesmo caminho. Até as nuvens não se modificam. Sei que muda quando vejo a lua. Outro dia é quando o sol me acorda. O meio do caminho é quase sempre o mesmo. É um buraco de minhoca onde o espaço permanece igual. Sei onde estou e com quem estou. Mas, qual tempo? O que já aconteceu? O que virá? O da criação da vida ou da destruição? A biopolítica que propõe a eternidade ou a necropolítica de rudimentares fundamentalistas que usam a Bíblia como um vulgar manual de autoajuda? 2020 bagunçou as minhas, parcas, ideias. As incertezas ruiram. Nada ficou de minhas dúvidas. Como se fossem sólidas, desmancharam-se no ar. Agora, busco as certezas que já tive. Muitas no passado de um adolescente sonhador. De um jovem que flertou com utopias. Loucura ou lucidez? Em 2021 espero ter algumas respostas.
Elas começam no futebol. A paixão vai se reconstruindo aos poucos. Encontro no Maurinho o desejo, a poesia que o Vermelhão despertava. A ansiedade que durava uma semana. Às vezes, mais. Uma doce angústia. Domingo, sempre gostei dos domingos, vestia a camiseta branca, com o símbolo vermelho, atravessava a rua, já me conheciam nas entradas do estádio, descia rumo à portão de acesso ao campo, ficava perto do Ricardo e entrava feliz com time. Nenhuma foto tenho! Gostava de ouvir os fogos, os gritos da torcida. Aqueles minutos de felicidade sempre foram eternos. Muitas vezes, ficava como gândula. Outras, ia para a arquibancada ou, como dizia meu pai, 'para casa se o Inter estivesse perdendo'. Foi ali, lá por 1966, que descobri como a bola é apaixonante. Durou pouco. O Inter foi jogar no Municipal, lá no Coral. Distante demais para um garoto de seis anos. O rádio, a tevê, a descoberta da leitura, as figurinhas, os jogos na rua, no Boldo, ampliaram o universo desta paixão. Agora, este rude tempo, de canalhas no poder, de genocidas, de verme e vírus, quase provocaram o desencanto da paixão. 'Sobreviver, neste tempo, é um ato subversivo', como diz o Mário. Manter o desejo, o tesão do que te encanta, também, é resistir a destruição programada. É um ato revolucionário! E, escrever, o que é?
Muitas vezes é um peso. Ainda tenho dificuldades de me expôr. Me revelar os segredos que a alma esconde. Afinal, uso muito este crônicas como terapia. Em vários momento, sinto alívio com que escrevi, contei ou analisei. Em outros, bate uma melancolia, especialmente, quando falo do passado, do que vivi, com quem vive, com quem sonhei. Por instantes, a tristeza e saudade formam uma dupla que afeta o coração e a mente. Mas, também, é prazeroso. Encontrar um 'achado', uma frase bem feita, redonda como uma poesia de Chiko Kuneski, um pensar lúcido, faz bem para a alma. E, principalmente, se alguém lê, curte e comenta. Aí, é uma vaidade gostosa.
É a hora do adeus. De fechar um ciclo. De agradecer os leitores, os que passam, curtem, ignoram, compartilham. Não penso no futuro. Este crônicas pode chegar ao fim ou até virar um livro. Vou deixar o tempo levar. Agradeço todos. Desejo um Feliz Natal e um 2021 resistente, lúcido, saudável.
Como um regalo, uns versos de Ferreira Gullar:

"Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa com a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bichjo
estelar
que sonha
(e luta).

 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Memórias...(14)

 

 

"Nunca vi coisa igual! Nunca vi coisa igual!
O espanto foi do lendário Ruy Carlos Ostermannm, o comentarista que sempre tratou o futebol como uma epopéia poética e analisava, cada lance, cada jogada, a dinâmica do jogo, com a profundidade de um filósofo.

Mauro Pandolfi

Poesia no futebol não é apenas o drible estético. Nem o passe métrico como um soneto. A poesia vai além da beleza pela beleza, do estilo pelo estilo, do devaneio pelo fetiche da arte. A poesia transforma o grito, a indignição, a fúria, em uma narrativa épica, gigante, imensa, indescritível. Assim foi a Batalha dos Aflitos. Nem o tempo diminuiu o fascínio deste jogo. O jogo mais inesquecível para os gremistas. Há 15 anos sofri, chorei. Mas, como um certo Roberto repete sempre, 'o importante foi que emoções, eu vivi!' As cenas se repetem feito um vídeoteipe na memória.
E, como foi emocionante! Assombroso! Não foi o melhor jogo que vi do Grêmio. Muito longe disto. Nem o mais importante. Renato comandou o mais relevante de todos numa madrugada de Tóquio. Porém, é o o que mais lembro. Já contei a história, feito um velho tio, inúmeras vezes para os meus sobrinhos, para os filhos dos amigos, para os meus. Hoje, 15 anos depois, André e Pedro lembraram de cenas, de palavras, de cantos, das lágrimas, da festa, da alegria. E, eles não ligam para o futebol. No entanto, a Batalha dos Aflitos, a emoção dos pais (Elaine chegou a chorar e borrar a maquiagem para o casamento da Ellis e do Guido) e dos tios, deixou marcas no coração, na alma, na história de nossas vivências e na memória afetiva.
É, provavelmente, a última memória que publico no blog neste ano. Deixei para o fim a Batalha dos Aflitos. Uma das maneiras de perpetuar algo é sempre contá-lo. Nunca como farsa. Sempre como epopéia. Eis a epopéia maior dos gremistas. Ah, parabéns a Ellis e o Guido pelos quinze anos de casados. Escolheram a melhor data possível para celebrar e comemorar um casamento. Um dia de batalha...


Dez anos!


Mauro Pandolfi

Impossível! O substantivo masculino do imponderável se transmutou em um outro extraordinário: Inacreditável! Há dez anos, um guri de 17 anos provocou esta mudança no léxico.  Anderson andou, flutuou, driblou zagueiros, entrou na área, deslocou o goleiro e transformou um simples gol numa façanha épica, eterna, contada como fantasia em todo mundo da bola. A Batalha dos Aflitos é o momento em que os gremistas descobriram que Cândido Dias inventou em 15 de setembro de 1903 foi a alma. O futebol é o elo que une as almas negras, azuis e brancas.
71 segundos tem o tempo da magia. Do pênalti defendido por Gallato ao gol de Anderson. Do medo, desespero, desconfiança, vergonha para a alegria, o prazer, a mistificação. Sete homens e um destino. A libertação da dor gremista. A fuga da 'humilhante' segunda divisão. É a grande vitória do Grêmio. Não é a maior. É a   mais impactante. O título é irrelevante, até desnecessário. A conquista é fantástica, mítica. É a nossa glória. A imortalidade cantada no hino é materializada.  Esta Batalha é o maior drama contado no teatro de grama e paixão.
Mas, é também a marca da nossa 'tragédia'. Somos reféns do feito. Esperamos sempre que se repita. Um lance, um pensamento mágico nos libertará, outra vez. O meu amigo Rai Carlos, o vidente cego, afirma que o Grêmio voltará a ganhar títulos quando deixar de ser imortal. "O novo só vem quando o velho vai embora. Para renascer, tem de morrer. O imortal é eterno. Vive dos feitos antigos. Só com fim do Olímpico e a Batalha dos Aflitos se tornar somente história, seremos campeões", afirma. Como um feito deste não ser eterno? Impossível! Inacreditável torná-lo algo mortal!.
Era sábado. Quente, muito quente, infernal. Fim do sufoco. Liberdade! A volta! O dia do casamento da Ellis e do Guido. Era o padrinho. O terno já estava separado. O jogo corria forte. Pedro e André, pequenos, saudades daqueles dias!, assistiam comigo. A Elaine estava se arrumando. Bisbilhotava sorrateira os lances. "Quanto tá?", perguntava. Veio a confusão. Parei. Um expulso. 'Meu Deus', exclamei. O pênalti. A segunda expulsão. 'Ferrou!', falei. A terceira expulsão. "Calma, pai!", diz o André. A quarta. 'PQP!', berrei. A Elaine veio até a sala. "O que foi?", quis saber. Contei. O pênalti vai ser batido. Silêncio. O jogador corre, bate, Gallato ... defende!!!. Vibramos! Nem deu tempo de gritar. Anderson está dentro da área....é golll! Pulamos, gritamos, saltamos, nos abraçamos. As lágrimas escapam. "Vou estragar a maquiagem", choramingava a Elaine. O bom senso dela não deixou eu ir ao casamento com a camisa do Grêmio. Lá, encontro o Márcio e o Mário. Abraçados, cantamos o hino. O dia de futebol mais emocionante de nossas vidas. Nada será maior.
Dez anos! O tempo passou. Vivemos tantas coisas. André e Pedro são adolescentes. Não gostam de futebol. A Elaine continua bonita. O Mário, o Márcio e eu ainda nos encantamos com o futebol, nem tanto com o Grêmio. A bola ainda me seduz. Vibro, suspiro pela bola bem tratada, bem jogada. Um belo jogo de futebol é uma das melhores aventuras da vida. No entanto, quando escuto o nome A Batalha dos Aflitos o coração dispara, aflige, machuca. Me sinto mais torcedor, amante tricolor, um imortal. Eu sou um highlander gremista. "Até a pé nós iremos......"!

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Gaia bola

 

"A vida necessita de ilusões...então, para viver, necessitamos de arte a cada momento".
Desconfio que Friederich Nietzsche treinou algum time alemão ou escreveu algum texto sobre futebol. Entendeu, como poucos, a função da arte e do imaginário no teatro de grama e paixão.

Mauro Pandolfi

O futebol é imaginário! A realidade é uma ilusão de ótica. A poesia é mais encantadora que a técnica. É mais apaixonante! Transforma em vida aqueles gritos de festa, de desespero, de chamada para a luta. A prosa sobrepõe a tática. Quebra a estratégia de um pensar com seu jogo encandeado, organizados em parágrafos, cerebrais ou intuitivos, mais poderosos que uma solidez defensiva. O drible, aquele dado por quem tem 'asas na chuteira' - o grande achado poético de Chiko Kuneski -,  não é um jogo de corpo para enganar o adversário. É um passo de uma dança, um balé requintado, tão surpreendente, tão envolvente, como se fosse uma metáfora de uma reflexão filosófica sobre ética e moral. O passe é um discurso silencioso mais eloquente do que o mais sagaz dos políticos. Há tempos que o futebol deixou de ser uma disputa tribal. A arena lembra mais um teatro de grama e paixão, onde a vida é encenada, como um espelho. O futebol é o mais espetacular engano da  vida. Quando o futebol perde o imaginário, ele se torna o mais lúdico e triste olhar da realidade.
O futebol de agora é real! Duro, seco, previsível. Não há mais poesia e nem prosa. O teatro de grama e paixão ficou vazio. Assim, como o jogo. Não foi a pandemia que destruiu a beleza da jogo. Ela, a pandemia, ressaltou o passado que desfilou dias e dias nas tevês cheia de ilusões, de farsas, de histórias, de heróis e semideuses. Foi a volta do futebol que aniquilou o imaginário. O futebol ficou mais burocrático, sem alma. Virou um evento chato, frívolo, muitas vezes, insuportável. Não há o grito que inventa vitórias e impede derrotas. Não há mais o canto que transforma o homem comum num 'superhomem' para nos redimir de nossos fracassos. Estamos vendo 'o crepúsculo dos deuses', onde Leonel Messi perdeu a divindade, assim com Pep Guardiola e Jurgen Klopp. Os grandes times pré pandemia se desmoronam jogo a jogo, tornando-se saudades. A solidez desmanchou no ar. Só Cristiano Ronaldo sobrevive. Mas, sempre duvidei que fosse humano.
Gosto de escalações. São poesias declamadas. A última que me doía tanto recitar era: Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Mari e Filipe Luís; Arão, Gérson, Arrascaeta e Everton Ribeiro; Gabigol e Brino Henrique. Obra de Jesus, o mágico e sedutor. Parecia eterno, para sempre. É para sempre! No imaginário, na paixão de um torcedor. O tempo moveu a ilusão para a realidade. Jesus, depois do terceiro mês, partiu. O encanto foi sumindo, desaparecendo, surge por instantes, só por instantes. assim é o futebol! É efêmero e perene, na doce contradição do viver. Um flamenguista, assim como um gremista saudoso do Grêmio 2017 - já foram os santistas os botafoguense, os vascaínos, os colorados, todos os torcedores que amaram um supertime, esperam sempre o retorno da extrema felicidade vivida. O futebol é imaginário como memória. Só como história! Iguais aquelas contadas nas rodas dos bares, num almoço de domingo, num reencontro de velhos amigos. Era uma vez...
Nem todos os jogos tem noventa minutos. Às vezes, pouco mais de vinte ou dez. Vou desistindo quando a bola não é poética. Quando os passes não tem nexo. Chutados, largados, perdidos. Só Grêmio me mantém até o fim da partida. É o suspiro da paixão. Mas, não sofro mais. Nem grito gol com a fúria saindo das entranhas. Vejo por esperança, por desejo, por um drible de Pepê, por um gesto elegante de Jean Pierre, por reconectar com o Maurinho e o Vermelhão, por, ainda, amar o futebol.


 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Diego, 60!

 

"Lá na clínica tem um cara que diz que é Napoleão e outro que pensa que é San Martin. Quando digo que sou Maradona, eles não acreditam".
Diego Armando Maradona é o mais complexo ariete da Santíssima Trindade da bola. Foi deus e humano. Brilhou na lucidez de gênio e conseguiu sair vivo da loucura. A bola o tornou imortal.
Mauro Pandolfi
Há algo de Pelé em Maradona. Nunca foi 'Rei', nem 'Príncipe' e nem teve um bando de fidalgos para cortejá-lo. Diego Maradona foi mais divino. Flertou com 'Deus'. Tratado como Deus. Um 'Deus' cheio de devotos, uma igreja para para praticar os rituais e hereges para contestar a divindade. Dizem que na cruz deste Deus está marcado, em azul e branco, o número dez. Único e envolvente, Maradona seduziu com um jogo poético e mortal, forjados em dribles e chutes impossíveis. Fez o gol mais fantástico de uma Copa do Mundo. Correu 55 metros, com a bola acarinhada no pé, em sete segundos numa velocidade média de 29 km/h. Um velocista de 100 metros chega a 35km/h. Eles correm em linha reta, ninguém para atrapalhá-los, sem uma bola no pé. O ex-zagueiro Ruggeri contou, no programa Resenha da ESPN Brasil, sobre o lance.'Parei para olhar. Ele foi correndo, a bola grudada no pé, passou por um, por outro e quando chegou próximo do goleiro, nos contou que lembrou do irmão, que havia cobrado o drible no goleiro num lance parecido. Quem vai lembrar disto num ato de segundos? Um monstro! Diego precisa ser estudado!' Isto é Maradona! O 'Deus' que se tornou homem.
Há muito de Manoel Francisco dos Santos em Diego Maradona. Não só os dribles mágicos e alegria do povo os tornam parecidos. Flertaram, conviveram com a dor, o desespero, as tragédias pessoais, os fracasso levaram ao fundo poço. Mané Garrincha sucumbiu ao álcool. Da miséria, a depressão e a morte. Diego Maradona teve mais sorte. Saiu com vida. Sua ex-esposa Cláudia Villafañe declarou certa vez: 'Diego está sendo devorado por Maradona'. A prisão, o uso intenso de cocaína, a internação no hospício. Diego sobreviveu, assim como Maradona. A maturidade o deixou mais rebelde, contestador, provocador, às vezes, estúpido, ora, irreverente, divino. Altivo, orgulhoso, declara-se 'peronista, fã de Chaves, amigo de Fidel' e detestou quando João Havelange o chamou de 'filho'. Irritado, respondeu: 'no soy hijo de puta'. Maradona sempre precisou de um tango para bailar, sorrir, chorar, viver.
Diego Armando Maradona é a lenda da minha geração. O que mais vi jogar. Como garoto, como um velho. Temos a mesma idade, quem sabe os mesmos sonhos, não os mesmos pesadelos. É o último texto sobre os três da Santíssima Trindade. É o meu agradecimento aos três homens que inventaram a vida, a alegria, o amor, a dor no teatro de grama e paixão. Republico um texto sobre Diego Maradona.
Um tango para Diego
Mauro Pandolfi
"Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao
No ves que va la luna rodando por callao
Que un corso de astronautas y niños, con un vals
Me baila alrededor. Baila! Veni! Volá!"
"A balada de um louco" de Astor Piazzolla pode ser um tango para Diego.
Diego Armando Maradona é a ponta mais aguda do tridente nascido em outubro. Há algo de Pelé, muito de Garrincha. Diego é prosa e poesia. Diego é o futebol. Foi um gênio precoce. Um adolescente atrevido. Um adulto problemático. Um velho a beira loucura. Maradona é um homem complexo. Viveu a lucidez, a glória, a fama, o fundo do poço. Foi excluído como um pária. Reintegrado como um Deus. Desafiou a ordem, rebelde que transitou a margem no futebol. Flertou com a máfia, com ditadores, com drogas e com a morte. Maradona é o melhor representante do fim do século xx. O ídolo da minha geração. Um mito. Uma lenda. Um homem. Tão humano, tão frágil, tão estúpido, tão divino.Maradona e a bola. O futebol sempre foi e será uma fantasia. Ele dá uma media volta e segue a bailar. O canto da torcida lembra uma orquestra executando um tango. Desliza no gramado para o longo caminito. Mano a mano enquadra um rival. A bola é la cumparsita. A esquadra inglesa é envolvida pelos movimentos rápidos e elegantes. Os muchachos acompanham a dança. Vê o zagueiro e arma o gancho. O ultimo movimento é um corte no goleiro. A bola na rede é o derradeiro verso do tango, berrado em plenos pulmões no estádio Azteca. Diego Armando Maradona é o tango jogando. Lírico, encantador, dramático. Aquele gol é arte. Sublime arte. Arte eternizada pelo narrador uruguaio Victor Morales. Ele cantou assim:"....Quero chorar! Deus Santo! Viva o futebol! Golaço...Diegool! ....Maradona é para chorar. Maradona numa corrida memorável. A maior jogada de todos os tempos!....Graças Deus! Pelo futebol! Por Maradona! Por estas lágrimas!..."Futebol e guerra. O simulacro perfeito. Cores, símbolos, países. O campo e a batalha. O imaginário foi tão real na copa do México em 1986. A Inglaterra humilhara a Argentina nas Malvinas. O conflito suicida armado por um ditador louco e desesperado. Dor, sangue, lágrimas, jovens mortos. O futebol como revanche. Diego Maradona como o comandante supremo. Liderou a batalha, venceu com fúria. Um gol estupendo e uma falcatrua típica latina.'La mano de Dios' é a sua obra mais famosa. O lance que faz o transitar em sagrado e o profano. Entre deus e o diabo. Entre a glória e a desgraça. Entre a vida e a morte. Maradona é o mais trágico personagem do futebol. Também, o mais genial.
Diego Armando Maradona é a ponta mais aguda do tridente nascido em outubro. Há algo de Pelé, muito de Garrincha. Diego é prosa e poesia. Diego é o futebol. Foi um gênio precoce. Um adolescente atrevido. Um adulto problemático. Um velho a beira loucura. Maradona é um homem complexo. Viveu a lucidez, a glória, a fama, o fundo do poço. Foi excluído como um pária. Reintegrado como um Deus. Desafiou a ordem, rebelde que transitou a margem no futebol. Flertou com a máfia, com ditadores, com drogas e com a morte. Maradona é o melhor representante do fim do século xx. O ídolo da minha geração. Um mito. Uma lenda. Um homem. Tão humano, tão frágil, tão estúpido, tão divino.
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