segunda-feira, 2 de julho de 2018

Os duelistas, final?


"Não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida"
Assim como sinto saudades de Bob Marley, logo, logo, sentirei de Messi, Cristiano Ronaldo, Iniesta...


Mauro Pandolfi

Terminou? O mais fascinante duelo do moderno futebol chegou ao fim. Sem vencedores. Todos nós perdemos. Os que amam o futebol, os que necessitam de futebol, os que respiram futebol. A ultima imagem de Cristiano Ronaldo é o desespero da derrota. A pressão, o xingamento, a fúria contra o árbitro. O rosto triscado, marcado pela angústia de ver o fim se aproximando. A última imagem de Lionel Messi é o olhar vazio, perdido, de quem não entende o fracasso. Parado, inerte, era abraçado pelos amigos e pelos franceses sem reação. Os segundos mais intensos e longos de sua vida. Cristiano Ronaldo e Messi nunca se enfrentaram em uma Copa. Nunca trocaram um cumprimento ou participaram de um sorteio. O futebol é a melhor alegoria da vida. Nada é definitivo. Nem a morte! O duelo nunca terminará. Será disputado até o fim dos tempos ou até a memória lembrar. Sempre terá um vencedor. Cada amante do jogo da bola escolhe o seu.
Cristiano Ronaldo não conseguiu voar. Ficou retido em uma marcação segura, eficiente, concreta, enjaulado. Seus 'voos' foram curtos, sem profundidade. Não levou perigo nenhuma vez. Os dribles não apareceram e nem a cobrança de falta foi perfeita. O futebol de acertos de Cristiano Ronaldo esbarrou nos erros da equipe, no adversário - o perigoso Uruguai -, no tempo e na derrota. Lionel Messi já entrou perdido. As asas pesadas não levantaram voo. O olhar desnorteado, desolado, a apatia nos movimentos, o isolamento no campo. Lionel foi um pálido Messi. Ainda assim deu duas assistências de gols. Dois 'equívocos' da Argentina e que evitou uma humilhante derrota. Tristes adeus!
Sábado, 30 de junho, 2018. Vai entrar para a história. A última Copa da dupla que tornou imenso o futebol. Dois símbolos da modernidade, de um jogo globalizado, mágico. Messi e Cristiano Ronaldo serão imortais assim como uma outra dupla, de um outro tempo, tornou o futebol poesia feita com os pés: Pelé e Garrincha. Ainda há os que lembram deste duelo localizado aqui, que o mundo sabia somente depois, sem a instantaneidade tecnológica de hoje. Pelé ainda é lembrado, reverenciado, citado como o 'Primeiro e Único' Rei do futebol. De tempos em tempos, sua imagem aparece. Mané Garrincha é somente um nome que vive na memória dos grandes amantes do futebol. Esquecido, à margem como sempre viveu nos campos e na vida, foi ele que inventou as 'asas na chuteiras' - bela expressão de Chiko Kuneski -, imortalizou o drible como se declamasse um poema. O duelo se perdeu na eternidade.
O futebol tem o seu tempo assim como a vida. É o fim de um ciclo. Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta vão dizer adeus. Termina também o jeito Pep Guardiola de jogar. Começa um outro. Os treinadores aprenderam a neutralizar, barrar o rápido jogo alemão e o tocado espanhol. O que oferecem de novo? Até agora na Copa não apareceu.. O destaque entre Uruguai e França foi Cavani. Quem brilhou no jogo da Argentina e França foi Mbappé. Neymar foi o determinante na vitória do Brasil contra o México. Cavani, Mbappé e Neymar jogam no PSG. Será que o novo futebol surgirá na França? E, Neymar estava tão errado ao buscar o PSG? O tempo dirá! O futebol continuará lúdico, poético, vivo, mágico, a grande invenção do homem.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

O que eu espero do Brasil!

 

"Viva o Brasil! Onde o ano inteiro é primeiro de abril"
O 'poemeu efemérico' de Millor Fernandes refere-se ao país. Acho inclui o futebol nele.

Mauro Pandolfi

Ando desconfiado do Brasil. Não é o 'país do futuro' do pesadelo de Stefan Zweig. Este eu tenho todas as certezas dos equívocos que cometi na minha vida acreditando em sonhos, esperanças e utopias. Refiro-me a seleção de Tite. Um time que prometia pelas eliminatórias ser ousado, criativo, perto do eterno desejo do jogo bonito. Mas, não é! É previsível, próximo do burocrático. É organizado como quase todas as seleções da Copa. Sólido na defesa, inexistente na armação, voluntarioso no ataque. Uma equipe que lembra muito a de seleção de 2010. Até nos problemas físicos são iguais. Ainda bem que Tite não é Dunga. É um ótimo treinador e educado. Também, não há Felipe Melo. Casemiro parece ser um jogador equilibrado, sereno e um excelente volante ao contrário do celerado jogador do Palmeiras. Ou, a derrota aflora os instintos selvagens?
O futebol brasileiro é uma fantasia. Sinônimo de ilusionismo, de habilidade, não gosto do conceito, de arte. Desde 1938, com Lêonidas da Silva, espera-se que a beleza desfile de amarelo, tão elegante, tão vaidosa, geniosa, sestrosa. A história é diferente. Porém, como no filme 'O homem que matou o fascínora', um jornalista disse que 'quando a lenda é melhor que a verdade, publica-se a lenda', a lenda foi publicada, repercutida, consolidada.  De 1970 para cá, apenas 1982 tentou materializar a 'lenda'. O jogo envolvente, bonito, rápido, brilhante, perdeu. No entanto, ninguém esquece este time. Em 1994, a retranca, a organização burocrática, com dois armadores (Zinho e Mazinho) pouco mais que limitados, venceu, virou tetra. Mas, parece ser lembrado apenas como obrigação de conhecer os campeões. E um mantra foi criado: 'é preferível jogar feito e ganhar do que jogar bonito e perder'. Nunca mais jogamos bonito. Perdemos muitas vezes.
Será que exagero? Estou iludido pela lenda? Desejo mais do podem oferecer? Ou sou um sonhador como era o Maurinho? Ou, como Eduardo Galeano, suspiro por um jogo bonito, envolvente, sedutor? A seleção de Tite me desanima. Não sou um 'pacheco', nem nacionalista, adoro futebol bem jogado e numa Copa do Mundo me encanto por quem desafina o coro dos contentes, por quem flui o jogo, por quem ataca com elegância, por quem se movimenta organizado e belo como um balé, por quem transpira futebol. Queria tanto vestir uma camisa amarela, sair por aí, comemorando a bela vitória, gritar 'Brasilll!!!' Mas, o time de Tite não me provoca isto. É apenas uma equipe correta, pragmática, com boas chances de ser Hexa. Não entrará para as memórias de quem sobrevive, ame, venera o futebol.
Onde foi parar o futebol envolvente das Eliminatórias? A 'pior geração de todos os tempos' se reinventou. Velocidade, movimentação, o prazer de ficar com a bola, a ousadia. Foi melhor em 2016, diminuiu o ritmo em 2017 e desintegrou em 2018. Ainda mantém a solidez defensiva. Com a ausência de Daniel Alves perdeu a armação e a imaginação pelo lado direito. O outro armador era Marcelo. Renato Augusto formava o triângulo que ditava o ritmo. Neymar e Gabriel Jesus percorriam todo o ataque. E, Paulinho ia de área a área. Que belo time, hein Tite?
Veio a Copa, Tite errou nas convocações, sentiu a pressão, perdeu algumas convicções e O Brasil passou correndo riscos. É do jogo, correr riscos. Parece que Tite involuiu como treinador. O time é ortodoxo, compartimentado, cada um cuida do seu quadrado.  Istoi explica a falta de gols de Gabriel Jesus. Está preso com um centroavante, perdeu a naturalidade sem a movimentação, a troca de funções. A verticalidade Paulinho desapareceu numa mudança organizacional da equipe. Quem apareceu foi a horizontalidade de Wilian. Ele não tem com quem dialogar. Está sozinho. Fagner é um lateral correto, assim com Filipe Luís. Jogam em linha reta, sempre reta, nunca em diagonal quando atacam. Preferem defender. Casemiro virou um volantão. É necessário para proteger dois zagueiros - que fazem boa copa - que pareciam tão frágeis de lentos que são. Não há virtudes neste time? Há e muitas. Vamos a elas...
Philipe Coutinho é um dínamo ofensivo. Falta pouco para ser um maestro. Centro do time, pilar técnico, hábil chutador. Poderia se movimentar mais. Quanto mais falam de Neymar, quanto mais criticam o seu comportamento, quanto mais reclamam de suas reclamações, menos joga. Deixem o 'menino' em paz! Está contido e preso no lado esquerdo. Genial e genioso, Neymar é jogador de campo todo, não pode ficar ''enjaulado' num canto. Liberem a movimentação, deixe o solto, o time será outro. Será mortal!
Vem o México. A correria de Chicharito e seus amigos 'ligeirinhos' não temem o Brasil. Eles já despacharam a Alemanha. Não é jogo fácil. O México gostou de ganhar do Brasil nos últimos anos, inclusive uma medalha de ouro nas Olimpíadas de Londres. Espero que o Brasil se classifique. Quero ver o encontro com a Bélgica. Será o confronto do futebol que me encanta contra o país que me ensinou amar o futebol. Do Brasil pragmático, herdeiro de Zagalo, Parreira, Lazaroni, Felipão, Dunga, contra o estilo, a beleza, o ataque, a modernidade de Hazard, De Bruyne. Ninguém se parece tanto como Brasil de 82  de Telê Santana como esta Bélgica de Lukaku. Talvez, a Croácia de Luca Modric.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

O maestro


 

"A primeira função do maestro é indicar a pulsação da música e a mais importante das funções que é fazer música com os seus músicos".
A definição do maestro Sérgio Bernal é a mais perfeita definição de Luca Modric. Ele rege o seu time.

Mauro Pandolfi


Quando vejo Luca Modric jogar lembro dos velhos comentaristas de rádio que sempre chamavam o craque do time de maestro. Modric rege o time. Controla os movimentos e as ações. Ora, acelera. Também, cadencia. Ele é a lucidez e a inspiração. Flutua em um espaço percebido só por ele. Tem o tempo exato da jogada. Não há excesso em seu jogo. Pode ser o passe preciso ou o chute certeiro. Tem sido assim nesta Copa. Modric é a alma de sua equipe. Não espera a bola chegar até ele como o velho camisa dez. Ele procura, encontra, cria e finaliza o lance. É o 'guerreiro' que provoca a luta dos companheiros. A Croácia é a melhor seleção da Copa. Tipico time moderno. Organizado, rápido, boa marcação, um ataque demolidor, prático. Tem tudo para chegar na final. Basta não tremer.
Neymar tem o drible seco em velocidade. Messi é o poeta do futebol. Cada lance é um verso que deve ser repetido pela beleza. Cristiano Ronaldo é a tradução perfeita de um artilheiro. De Bruyne parece muito com Modric. E, qual é a essência de Modric? A inteligência, o jogo, o passe feito uma crônica! O cérebro de Modric tem a forma de bola ou há ramificações em seus pés! Lúcido, criativo, dínamo da equipe. Parece ser tão diferente, inalcansável. O corpo pequeno percorre todo o campo. Está sempre livre para receber a bola, dar passe, correr para receber de novo, fazer o drible, dançar com o adversário e transformar, num chute certeiro, a jogada em gol. O segundo gol contra a Argentina foi assim.
Luca Modric, 33 anos, baixinho - é maior que Messi -, é o mais completo jogador de meio-campo neste momento. Contra o Grêmio, na final do Mundial, controlou o jogo, determinou o ritmo e confirmou que de coadjuvante não tem nada. Cristiano Ronaldo é a estrela. Kroos, o pulmão e o Sérigo Ramos... deixa prá lá! O jornalista português Freitas Lobo já definiu Modric assim: "Sabe dar cada toque, cada passo, cada passe e sabe como se deve pisar num relvado e tratar uma bola. Com sabedoria tática e carícia técnica".
A vida foi díficil para Luca Modric. Aliás, há tantas histórias belíssimas de superação, de resistência nesta Copa. Vale a pena descobrir. Teve que abandonar, aos seis anos, sua casa, sua terra, foi refugiado e perdeu o avó em consequência da guerra. O futebol o salvou. Saiu do Dínamo de Zagreb para o Tottenham e daí para o Real Madrid. Já foi chamado de Cruyff dos Balcãs. Nada mais do que perfeito. O campo é redondo para Modric. Ele gosta da bola, do movimento, do gol, do passe. A explicação para seu jogo é intensa e singela: 'quem sobrevive numa Liga na Bósnia, pode ser jogador em qualquer parte'. Tão verdadeiro, tão real, Luca Modric é o meu craque nesta Copa. Só perde o título, se Neymar, Messi, Cristiano Ronaldo, De Bruyne desfilarem com a taça, com a artilharia ou transformarem seus times em esquadrão, o que Modric faz com a Croácia.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O gol da Copa!

 

"O gol não é uma simples palavra; é um grito sem fim de amor e dor.  Goooolll!"
Os panamenhos mostraram que Armando Nogueira esqueceu da paixão. Um gol é maior que a vitória quando é paixão"

Mauro Pandolfi

Já escolhi o gol da Copa. Não é o gol estético, preciso de Cristiano Ronaldo. Nem o da inteligência apurada de Modric. Muito menos o balé bem ensaiado da Bélgica finalizado por Lukaku. Nem pensei no chute oblíquo de Philippe Coutinho.  Não cogitei a fúria de Kroos, craque de um time que nunca desiste. Todos golaços que serão lembrados quando contarem a história desta Copa. O gol  escolhido é o que reverencia o espírito do jogo. O que transforma a derrota em nada. O gol do prazer em ver o jogo, em comemorar uma façanha.  O meu gol é de Felipe Baloy. O Panamá foi goleado, triturado, desclassificado por uma Inglaterra poderosa comandada por  um artilheiro fantástico: Harry Kane. Mas, para aqueles torcedores de vermelho o resultado é um detalhe insignificante, menor, inexistente. Eles vibraram com gol feito os vencedores da partida. Deram a lição que a Copa do Mundo não é uma guerra simulada. É uma festa onde o que vale é a cor da camisa, não a da pele; que o canto é de alegria, não de desafio; que o olhar ríspido é o da luta intensa em busca da vitória, não de ódio. Poxa! Eu que não sonho, perdi a esperança e não tenho utopia, me perdi no devaneio de um mundo melhor é possível. Pena que um jogo dure apenas 90 minutos, o que para o mundo é nada.
O tempo passava devagar, bem preguiçoso. A goleada estava consolidada, arrebatadora, definida. A Inglaterra sem pressa já poupava seus jogadores. Seus torcedores entediados esperavam o final do jogo. Os do Panamá estavam tristes, desiludidos, silenciosos. Mas, um lance mudou o espírito. Nada que ameaçasse a vitória britânica. A bola cruzou a área, atravessou uma barreira humana. Atrás dela, um corpo desliza ao encontro da bola. O toque de Felipe Baloy não virou um gol qualquer. Não mudou o resultado, não classificou o Panamá. Virou festa. Uma festa que lembrava título. O gol de povo, de uma nação, de um sonho, de uma esperança. A presença na Copa já era uma utopia. O treinador Gomez ria feliz. A torcida pulava, cantava, vibrava juntos com os jogadores. Baloy misturou-se a eles. O abraços dos amigos, dos parentes virou a grande imagem de sua carreira. E, o futebol mostrou o seu melhor lado 'auto-ajuda': 'o sucesso tem o tamanho do nosso desejo. Não do desejo dos outros'.
Felipe Baloy é um quase anônimo jogador de futebol. Zagueiro técnico e rápido, não deixou saudades nos gremistas. Seu bom jogo não resistiu a mediocridade daquele time que foi rebaixado. Virou até piada. Injusta piada! Depois do Atlético Paranaense o perdi de vista. Reencontrei no álbum de figurinhas da Copa. Quase não o reconheci. Veterano, careca, com barba. Está marcado lá: Felipe Baloy, 37 anos. O gol o deixará eterno, pelo menos para os panamenhos, ou para os gremistas que reverenciam até quem os fez sofrer.
Um homem comum jogando com as estrelas. É a imagem que tenho de Baloy. Não vi nenhum candidato a mito ir abraçar os torcedores. Ele não representava ninguém. Baloy é um torcedor. Fico imaginando o futuro, lá por 2042, a cena é uma cidade do Panamá. O pequeno menino entra correndo em casa chamando pelo vovô: 'Vai começar a Copa, vovô! Me conta uma história de futebol?'. O homem abraça o netinho, coloca em seu colo e pergunta: qual delas? O garoto sorri e diz: a que você virou herói? Não percebe as lágrimas e começa: 'Foi num domingo, lá por 2018...' Este é o destino de alguém que deixa uma marca na vida. Não precisa grandes feitos, vitória imensas. Basta a paixão!

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Nem Sansão, nem Dalila

 

"..Cabelo pode ser cortado. Cabelo pode ser comprido. Cabelo pode ser trançado. Cabelo pode ser tingido.
Aparado ou escovado. Descolorido, descabelado. Cabelo pode ser bonito. Cruzado, seco ou molhado..."
Arnaldo Antunes jamais imaginou que cabelo fosse fetiche de jornalista esportivo. Neymar, Ronaldo, Cristiano Ronaldo, Fernando Redondo, Paulo César Lima e Afonsinho quase tiveram as 'madeixas' escalpeladas por moralistas e conservadores furiosos.

Mauro Pandolfi

"Vaidoso, egocêntrico, arrogante, diva. Esquece do jogo e olha o telão do estádio para ver como está o cabelo. Pinta as unhas do pé, cuida do corpo ao invés de treinar. Metrossexual!" Está crítica poderia ser para Neymar. Mas, o adjetivo 'metrossexual' - já em desuso - idêntifica o alvo. O exemplo de dedicação, de profissionalismo, de seriedade, Cristiano Ronaldo, já foi execrado assim. E, não faz muito tempo. A maior parte 'conceitual' das críticas acima sobre o craque português é do jornal alemão 'Blind', durante a Eurocopa de 2016. O restante está espalhado pela internet. O jornalismo esportivo quase nada difere do de fofocas. Os dois principais portais do país dividiram o noticiário da seleção brasileira em dois assuntos: a lesão de Neymar, que abandonou o treino, e o novo corte de cabelo do camisa dez. Às vezes, acho que o de fofoca é mais sério que o esportivo.
Não há meio termo com Neymar. Neste tempo de saudosos de uma ditadura é uma relação bem anos de chumbo: 'ame-o ou deixo-o'! Sou fã de Neymar. Considero o mais fantástico craque pós o tri de 70. Mas, não ignoro quando joga mal, quando está alheio ao jogo, quando é um mero cavador de faltas ou um firuleiro irritante. Não ligo, não me interesso, com a sua vida fora de campo. Acho divertido a sua ousadia 'pop', com os cabelos coloridos, descoloridos, cortados rentes ou  como uma espécie da 'calopsita'. As chuteiras coloridas, performáticas, bonitas, parecem - na bela imagem de Chiko Kuneski - terem asas.. Faz parte do show! Não são mais simples 'boleiros', são estrelas do 'maior espetáculo da terra'. Mais divertido é a fúria moralista contra o 'mau comportamento, a falta de profissionalismo, os exageros das festas, a extravagância financeira, a arrogância do jovem, a imaturidade, pedem até gerenciador de carreiras'. Lembram as 'velhas fofoqueiras', que ficavam nas janelas espiando os moradores, nas antigas novelas de tevê. Ignoram tudo numa grande vitória. Basta um mau resultado, o 'bafafá' está feito.
Neymar foi comum contra a Suiça. Banal feito um Taison. Não liderou a seleção, nada criou, nem chutou a gol. Sofreu e cavou faltas. Nada mais que isto. O futebol do Brasil se desintegrou, liquefez. Nada lembrou a solidez das eliminatórios. O jogo vibrante, insinuante, rápido, compacto ficou na lembrança. Tornou-se um time dependente de Neymar. Ele não é só centro. É a equipe! Tudo deve passar por Neymar. Carimba as jogadas, os passes, os movimentos. O Brasil  virou Portugal, que sonha com Cristiano Ronaldo; uma Argentina, que desespera-se com Messi. A 'esperança', o desejo, que tenha sido a tensão da estreia, a ansiedade de um treinador que parecia perplexo, o medo da lesão em Neymar, o fantasma do 7 a 1. Como diziam os velhos poetas:' quem viver, verá!'
Mo Salah inesxistiu. Neymar, também. A Copa é uma competição para os 'inteiros'. A intensidade do jogo pede um corpo mais que perfeito, na sua total amplitude. Não há sucesso para quem vem de lesão (seis jogadores - Fágner, Filipe Luís, Renato Augusto, Fred, Douglas Costa e Neymar vem de lesão ou estão lesionados. Seis num universo de 23, sendo três goleiros). Com cuidado extremo, evitando choques, disputas, chutes a gols, o hexa vai sendo adiado, ficando no imaginário. Aí, não adianta brincar de Sansão ou Dalila. Cabelo, cabeleira, careca, descabelado, cabeludo não inventa o título, nem dá volta olímpica e nem tira foto com a taça.

domingo, 17 de junho de 2018

Os duelistas


"As pessoas não se precisam, elas se completam... não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida".
A poética de Mário Quintana é um belo retrato de minha frustração com os mitos modernos do futebol. Lionel Messi e Cristiano Ronaldo nunca jogaram juntos, nunca trocaram um passe, nunca se abraçaram depois de um gol. Vivem a vida em um duelo de poesia, como se fossem metades de uma bola.

Mauro Pandolfi

Pênalti! Onze metros para o fuzilamento. A bola, o gol, o goleiro, o matador. A rede da trave não é de proteção. É do balanço que encanta as almas dos amantes do jogo. Os lances são idênticos,  quase iguais. Olhares diferem os duelistas.  A certeza e o medo. Há  tempos que Cristiano Ronaldo e Lionel Messi travam um duelo de genialidade, eficiência, imortalidade. Desta vez, Cristiano Ronaldo venceu. Marcou três gols em De Gea, para alguns o melhor do mundo. Messi perdeu para um goleiro que dirige filmes. Olhando a batida, a defesa, fico em dúvida:  mesmo mostrado ao vivo para o  mundo, suspeito de uma montagem do diretor! Não estou convencido do erro de Messi. Em tempos de teoria de conspiração, contribuo com esta.
Cristiano Ronaldo tem a leveza de um pássaro. Flutua, voa, sem pressão. Todos querem ver o seu jogo. Ele flui em campo. Anda pelos lados, pelo centro, toca a bola com a certeza do passe, do gol. O futebol  em Cristiano Ronaldo é um jogo de acertos. E, como acerta. É trivial marcar de  pênalti. Incomum é o erro de De Gea no segundo gol. Genial foi a cobrança da falta. Do olhar de águia, do suspiro mágico, precisão, da bola em curva, da rede balançando, do rosto feliz. O tempo aprimorou Cristiano Ronaldo. A intensidade do jogo substitída pela inteligência. Ele não é só o maior finalizado da história. A Copa pode transformar Cristiano Ronaldo no maior de todos os tempos. Ou, no mínimo, o herdeiro legítimo de Pelé. 
Lionel Messi também lembra um pássaro.  Mas, não tem leveza no vôo.  Suas asas carregam um país, uma obsessão, uma injusta comparação. O defeito de Messi é sua genialidade. Acreditam que a sua presença é o sufciente  para vitória. Não importa o time, a organização, os parceiros. Basta Messi. Há quatro copas que é assim. Há quatro copas que a Argentina fracassa. É também o fracasso de Messi. O ferrolho islandês, este moderno sistema defensivo de fechar a área, roubar todo espaço, a retranca retrô, anula o movimento ofensivo de toques curtos, rápidos, bonitos. Sampaoli tirou Messi de perto gol. Aos invés de jogar atrás da última linha, o o colocou na frente da segunda. Sampaoli não errou. Era a única chance de talento, vivacidade, imaginação, lances ofensivos de seu time. A vitória esteve nos seus pés. As faltas foram parar longe, sem perigo. O pênalti já estava perdido no seu olhar. Não havia confiança. Havia o medo. O futebol em Messi é um jogo de acertos e erros. Contra a Islândia, errou.
Cristiano Ronaldo foi estupendo. Lionel Messi foi comum. Portugal e Argentina tiveram o mesmo resultado. Um empate heróico e um empate devastador. Todos esperam Portugal nas oitavas. Muitos desconfiam da Argentina na próxima fase. Cristiano Ronaldo já fez o suficiente nesta Copa para ganhar mais uma vez o prêmio de melhor do mundo. Quase ninguém acredita em Portugal. O título será uma surpresa maior que a Eurocopa. Uma façanha que nem o gigante Eusébio conseguiu. De Lionel Messi espera-se apenas o título. Pode vencer os 'os outros duelos' contra Cristiano Ronaldo. Pode fazer muitos gols. Transformar a 'água em vinho', subverter a lógica do fracasso, inventar um finalista. Se não for campeão, será um símbolo da derrota. Para os argentinos sempre menor que Maradona, Kempes...