quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O justo julgamento

Chiko Kuneski

Faz tempo procuro uma metáfora para a decisão por pênaltis num jogo de futebol. Talvez seja julgamento. Um julgamento sem jure, sem árbitros. Um ato único onde promotor e defensor se confrontam na mesma defesa. Da euforia.

É um ritual que julga sem provas. Apenas se atenta às destrezas. Do promotor que vai impor sua tese à bola, tentando que ela convença a rede. Do outro lado, o defensor, que conversa com a bola ao pé do ouvido, procurando demover seu ímpeto, impiedoso, de convencer a rede com as astúcias do promotor.

Um jogo de astúcias que começa no lento caminhar do cobrador, o promotor, e da paciência do goleiro, o defensor. Um, caminha pensando como vai convencer a bola a seu favor, passo por passo, do meio do campo até o púlpito da cobrança do pênalti. O outro, apenas observa a caminhada e tenta entender quais argumentos serão usados para convencer a bola. Ele, às vezes, até conversa com as traves. Mas elas não julgam.

No movimento dos corpos. Nos olhos nos olhos. Nas faces. Cobrador, promotor, e goleiro, defensor, se estudam. Não falam. Não precisam convencer jurados. A sentença será dada pela bola.


A bola é a verdadeira juíza que vai exprimir a decisão do julgamento decisivo. Somente a bola. Cabe ao promotor e ao defensor convencerem-na.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

50 tons de cinza...da bola

Mauro Pandolfi

O futebol é sexo. É prazer, orgasmo, foda. É um jogo de sedução, de enganos, de conquista. Uma guerra simulada que envolve amor e ódio. Violento feito uma relação sado masoquista, amoroso como uma novela das seis. Uma orgia de cores e nomes. Fantasia e fetiche. Em tempos de 50 tons de cinza, o futebol transpira luxúria.
1 - A pelada. Quem não gosta de uma pelada? Ela vem através de sussurro, combinada no boca a boca. É uma delícia! Estou falando do jogo, viu?
2 - No pau. Dói e muito! A gente vê estrelas. Mas, também, é prazer dependendo de quem faz. É a bola que estoura no travessão. Mágica e sublime. Ah, enganei vocês, hein?
3 - Uma teta. Uau! É um dos meu preferidos! Vistoso, bonito, prazeroso. É só um jogo fácil!
4 - Vai pra cima. Arrisque! Não tenha medo! Vá com tudo! O que pode ocorrer de ruim? Uma bola nas costas! Poxa!
5-  Bola nas costas. Todos ao ataque. Defesa desprotegida. Aí, vem ela, a bola, traiçoeira. Igual a vida.
6 - Pimba na gorduchinha. Só um chute, bem dado, na bola. Mas, há as gordelícias que são uma loucura!
7 - Ripa na chulipa. É um estímulo, um incentivo. Em alguns casos, é um disquinho azul, vital, viril.
8 - Cama de gato. O jogador fica firme, sustenta o adversário no corpo, depois relaxa, derrubando. É muito parecido com um jogo a dois.
9 - Garantir o bicho. Segurar um resultado favorável. Ir só na segurança, na amiga de sempre.
10 - Comer um peru. Uma falha grotesca do goleiro. Opa! Não seja gulosa!
11 - Entrar na banheira. É o outro nome do Impedimento. É mais gostoso quando se entra com alguém. Oba!
12 - Dar um chapéu. O famoso balãozinho. Bem melhor do que enganar o outro, não acha?
13 - Drible da vaca. A bola vai para um lado, você corre pelo outro. É como escapar da megera.
14 - Homem a homem. Marcação individual. Cada um com o seu. Não tenho preconceito. Como cantava Tim Maia, 'vale tudo'.
15 - Um chocolate. Vitória fácil igual ao início de namoro. Flores, chocolate e ...beleza!
16 - Molhar a camisa. Jogador com muita entrega. Mas, é divino quando ela está de camisa branca, molhada, sem nada por baixo. Adoro!
17 - Abrir o bico. Cansar. Não são todos que aguentam a segunda, a terceira. A quarta? Tás brincando!
18 - Entrar duro. Ir forte na bola. Qual é a graça se não está duro?
19 - Ao apagar das luzes. Os últimos instantes do jogo. É o olhar, o beijo, o suspiro. Como é bom!
20 - Véu da noiva. É a rede que se enrola com a bola no gol, igual ao véu nas mãos na noite de núpcias. O fetiche do jogo!
21 -  Corpo mole. Esconde-se da partida. Não quer nada com nada. Dor de cabeça? Como assim?
22 - Jogo aberto. Lá e cá. O ataque vence a defesa. É partir para o gol, abraço, beijo... uma festa.
23 - Jogo fechado. Nem lá e nem cá. A defesa vence o ataque. "Gostaste dos brincos, dos sapatos, do jantar? Não!" Não há lance que fure a retranca.
24 - Cai-cai. Jogador fiteiro, malandro, enganador. E, como tem gente que cai na conversa!
25 - Nas nuvens. Chute no alto, perto do céu. Extasiado, mirando as estrelas ... é muito bom! 
26 - Dar a rosca. A  bola gira em direção contrária. Uma decisão individual! 
27 - Sair do jejum. Vencer depois de muito tempo. É hoje!!!
28 - Tabu. Time que nunca perde para outro time. Sair com aquela deusa? Só quando o Grêmio for campeão! Isto é tabu! Porém, o impossível não existe.
29 - De bandeja. Entregar de graça. É comigo? Não acredito? Valeu!
30 - Chapuletada. Porrada bem dada. Um tapinha não dói?
31 - Choradeira. Reclamação depois de um jogo. Poxa! Deixa, vai, só um pouquinho?
32 - Apelar para o chuveirinho. Bola na área em busca de um grandalhão. No chuveiro o 'gol com a mão' também é gostoso.
33 - Linha burra. Provocar o impedimento avançando a linha de defesa. Não dá? Que dias são estes?
34 - Três dentro, três fora.  Brincadeira de bola.Três gols e o goleiro permanece. Três bolas para fora, muda-se o goleiro. Três dentro, três fora? Já fui bom nisso!
35 - Último homem. O derradeiro defensor. Do jeito que vão as coisas, o último homem será disputado a tapas.
36 - De virada é mais gostoso. Reverter o placar. Olha só! Vira um pouquinho só... assim! Não falei que era bom?
37 - Tapete. Onde tudo acontece. A bola rola macia, a mão escorrega, o drible insinuante, o olhar penetrante, o chute, o beijo, o abraço, o amasso...o gol! Mágico!
38 - Bobinho. Brincar com a bola. Uma roda e um no meio tentando pegar a bola. Cuidado, rapaz! Esta moça, a Anastasia, não é mole, vai te fazer de bobo!
39 - Mão mole. Goleiro que não segura a bola. Rápida, insinuante, ligeira, sabe o caminho certo. Opa! Tira daí!
40 - Grosso. Rude com a bola. Livra-se dela aos chutões. Tem quem gosta. No futebol e no amor.
41 - No meio das pernas. O drible mais bonito do futebol. Na vida...? Nem vou comentar!
42 - Rachão. Jogo recreativo um dia antes da partida. Muito divertido! Ei, que tal, um rachão agora?
43 - Gol contra. Fazer contra o time. Em Portugal chama-se autogol. Na adolescência aprendi com outro nome. Pu....! Não pode escrever. O blog é familiar.
44 -Firuleiro. Faz gracinhas com bola. Encanta a torcida. Na hora agá, some, desaparece. Tem muito por aí.
45 - Jogo embolado. Jogo confuso, enrolado. Casar? Só estamos noivos há dez anos! Não precisa ter pressa!
46 - Onde dorme a coruja. Chute preciso, no ângulo. Estava inspirado, peguei de jeito! Aquele toque sutil, suave, de leve, deixou-a doida. Espetáculo!
47 - Sacudir o filó. O gol, a rede que balança. Amor? Faz tempo que não balançamos a rede, hein?
48 - Última volta do ponteiro. O último minuto, a esperança derradeira. Rápido! Meu marido vai chegar em um minuto. Rápido!
49 - Matador. O centroavante que não perdoa, marca! Tem prazer na dor alheia. É um Christian Grey do futebol.

50 - 0x0. Uma partida sem gols e igual ao filme '50 tons de cinza': broxante!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O futebol é um paradoxo numérico

Chiko Kuneski

O futebol é um jogo de números. Mas números inexatos. Deve ser disputado com 11 contra 11, mas até oito a regra aceita. No começo eram três árbitros, chegou-se a cinco, voltou-se para três. O campo, que sempre tem que ser retangular, pode variar de 120 a 90 metros de comprimento, por largura de 90 até a metade de 45 metros. Em partidas internacionais, essas medidas mudam para 110/100 metros de comprimento e 75/64 metros de largura.

O que não pode ser alterado é a espessura das linhas que demarcam a área de jogo, que devem ter 12 centímetros de largura. É bem nesse ponto que os números fazem do futebol o mais apaixonante dos esportes. Os centímetros.

Um único centímetro faz a diferença crucial nos gigantescos metros quadrados da área de jogo. Paradoxo? É! O paradoxo dos números do futebol.

O melhor e mais apaixonante desse  paradoxo é que ele precisa ser mensurado pelo olho humano. Cabe aos árbitros arbitrar os centímetros, mesmo quando a bola, que os baliza, está erguida e acima das marcas da cal, ou, às vezes, sem essa baliza.

São os centímetros que transformam o futebol em um esporte mágico e apaixonante. Que decidem lances. Que ganham e perdem jogos. Que mudam histórias.

Um único centímetro anula ou valida um gol. Seja pelo impedimento do atacante, seja pelo movimento do defensor. Seja pela crucial e marcante posição da bola na linha de fundo dentro dos 7,32 por 2,44 metros das traves que são o maior espaço de conquista dos jogadores e dos torcedores.


É gol!!! Por centímetro a mais para uns; ou não foi gol, por centímetro a menos para outros. A magia do futebol está no seu mágico paradoxo numérico.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Vidente!

Mauro Pandolfi

O futuro é o meu tempo preferido. Gosto de pensar como será, como serei e o que farei. Quando trabalhava como repórter fui em busca do futuro algumas vezes. Conversei com mãe de santo, com um francês pirado - dono de um gato doido, que me seguiu com os olhos o tempo todo - que sonhava  com o futuro e um cego chamado Ray Carlos. Ele previa através da luz. Não me pergunte como, nunca entendi o processo. Ficamos amigos.

Semana passada, depois de muito tempo, fui visitá-lo.  Saber sobre a vida e o Grêmio. O Grêmio está preso pelos astros e estrelas. Foi o que descobri. Ray sempre diz que o futuro está desenhado, pontilhado. Podemos ligar os pontos ou alterá-lo, depende de nós.

A placa continua lá: "Ray Carlos, vidente. Só futuro! O passado já foi!"  Numa rua estreita, escondida no Bairro Nossa Senhora do Rosário, em São José, numa casa de madeira, encontro-o cantando Stevie Wonder. "Olha só, quem eu vejo! Faz tempo, Mauro! Já sei o que tu queres! Não estás no jornal, os meninos e a patroa vão bem, os negócios estão complicados, mas dentro da normalidade anormal do país. É sobre o nosso Grêmio, não é? Estás desesperado e com medo de um outro rebaixamento?", explode a gargalhada que acorda o papagaio Pablito. "Tá velho e gagá. Só fala bobagem!". Acertou, afirmei.

'Então, vamos lá. Vocês não enxergam nada. Olham por cima, superficial. Não tem a essência, a profundidade do ver. Eu não olho. Nunca olhei o mar. Eu enxergo o mar, a beleza e a virulência. Em futebol, então... vocês mal olham um impedimento ou um gol bonito. Não sabem da alma do jogador. Eu enxergo o sentido da bola e do gol. E o Grêmio está preso em uma alma que não existe mais e teima em existir", disse ele.

Que alma é essa? perguntei. "Não sabes, meu caro Mauro. É o teu orgulho, o nosso orgulho, eu também sou gremista. É a imortalidade que sobreviveu aos Aflitos. Aflitos, Mauro? É o nosso carma, a nossa desgraça, a inveja que se tornou praga. A palavra virou um adjetivo do gremista. Vivemos aflitos, com medo!".

A tarde vai terminando. Ray esclarece a conversa. "Precisamos renascer. Mas, para renascer tem de morrer. O Imortal nunca morre, então não renasce. Vai repetindo sempre a mesma vida, eternamente. Os erros são os mesmos, os acertos, também.  Sei que o Grêmio tem orgulho da imortalidade.  É dolorido para mim. Não conheci o Olímpico, nunca estive lá. Tem a nossa história.

Mas, tudo passa pela demolição. É a morte simbólica do imortal. Estaremos livres para recomeçar na Arena. E, é recomeço, mesmo. De baixo, do menor. Precisamos de um gauchão sofrido, cheio de bravura e feito, desculpe-me Mauro, o chavão, com lágrimas, suor e sangue. Daí, as outras conquista virão. O sol azul de hoje, não mente, não engana. "O futuro vem aí", comenta, emendando o hino de Lupi.

Hora de ir embora. Antes de sair falo de Felipão, de Barcos, Marcelo Moreno, Fábio Koff e tantos outros. Ray ri. "Não precisa ser vidente. É preciso mudar, reinventar a alma. Estamos presos ao passado, aos heróis de ontem. Procuramos como magia o já vivido, o que gerou vitórias, títulos. No entanto, a vida gira, roda e, também, avisa que o novo deve vir. Então, é hora de apostar no novo, no não conhecido. Esquecer as estrelas decadentes.

Precisamos estrelas cadentes, produzidas em casas ou nas pequenas casas. Há tanta gente pronta para brilhar. É só ver. Mas, os cartolas só olham. Miram nomes e cartazes. “Querem só a fama. É uma pena!", afirma. Dou um beijo na testa, agradeço a conversa e vou embora. "Os meninos, Mauro! Usem os nossos meninos. Os piás, como tu fala. 2015 será uma bom ano para o nosso tricolor. Acredite, Mauro! Tenha fé!"


Eu tenho!?

Crônica da morte anunciada

Chiko Kuneski

Que o futebol brasileiro enfrenta uma das suas piores crises não é segredo para qualquer torcedor. É uma crônica de uma morte anunciada. A pá de cal veio na Copa do Mundo de 2014 com a fatídica e histórica derrota para a Alemanha por 7 a um. O time germânico humilhou futebolisticamente a Seleção Nacional vestindo o terceiro uniforme, inspirado na camisa rubro negra do Flamengo. O que todos dizem ser o maior time nacional.

Daí vem a jocosidade. Aquele jogo foi talvez o começo da morte anunciada dos “times nacionais”.

Cartolas, jornalistas, emissoras detentoras dos direitos de transmissão das partidas de futebol apregoam há anos o fim dos campeonatos estaduais e regionais. Usam como desculpa a falência das competições, que fortalecem os times locais e mais próximos das suas torcidas, também locais. Não é uma questão financeira de renda nos estádios. O ponto fundamental é o crescimento dos times estaduais.

A organização local dos clubes fortaleceu os primeiros times do coração de qualquer torcedor, substituídos por times nacionais na falta de seus escudos nas competições como o Brasileirão e Copa do Brasil. Os torcedores que apenas tinham o segundo time para torcerem nas competições brasileiras passaram a ver o time do coração, a primeira paixão, o escolhido, disputando com a segunda opção.

Esse fortalecimento dos times locais e, da consequente identidade maior com os clubes de sua cidade, colocou os times nacionais como segunda opção de fato para os torcedores. Somente na ausência do time do coração, torcem por o de longe, da televisão.

O cada vez mais forte ataque dos cartolas, jornalistas e programas esportivos aos campeonatos estaduais é por já terem entendido a possível “morte anunciada”, mas dos times nacionais.


domingo, 15 de fevereiro de 2015

O pau ordinário

Chiko Kuneski

O futebol, como toda organização social, tem seus tabus e suas intocabilidades.  Mesmo com o tempo alguns conceitos não mudam. Conceitos e palavras emblemáticas. Pau é uma delas. A expressão está presente o tempo todo no futebol, até mesmo no futebol feminino. Não existe futebol sem pau.

O pau do futebol vem das antigas traves, ou balizas (goal em inglês, língua mátria do esporte), que eram quadradas e de madeira. É dessa analogia o “bateu no pau”, ainda em uso. Mesmo com a circulização das traves, o pau continua na boca dos locutores esportivos, comentaristas e torcedores.  E na mão dos bandeirinhas e das bandeirinhas (é um substantivo de dois gêneros, como presidente).

A atualidade fez com que as mulheres também gostem e saibam futebol. Mas houve uma época que futebol era “coisa de macho”, até no seu entendimento. E ai vem o tabu do pau. Sem se interessarem, sem participar e sem serem protagonistas do esporte, as mulheres tinham muitas dúvidas sobre expressões corriqueiras do esporte e, principalmente, sobre o “segundo pau”.

As casadas, na sua maioria, por não entenderem a necessidade de se ter um segundo. Outras porque talvez nem o primeiro ainda conhecessem. E para piorar as coisas: porque os homens falavam tanto de ter dois paus no futebol?

O entendimento feminino sobre as regras do esporte, em parte resolveu isso, mas ainda existe quem não entenda a ordem dos paus. Quem determina a posição?

O pau (substantivo masculino) da trave recebe os ordinais pela posição da bola (substantivo feminino). O mais próximo a bola é o primeiro pau; e o mais distante o segundo pau. O campo retangular, as duas traves, a troca de lado dos times nos dois tempos de jogo não têm qualquer importância.


Por proximidade, ou afinidade, a bola escolhe a ordem do pau. Ás vezes até “beijando” o pau do meio.