terça-feira, 12 de novembro de 2019
As ilusões perdidas
"Ainda pior do que a desilusão de um não ou a incerteza de um talvez, é a desilusão de um quase".
Esta frase caiu no 'meu colo' - recebi no facebook - que é um retrato mais do que perfeito do meu momento de futebol, dos jogos, do Grêmio, das utopias, da vida, é da catarinense Sarah Westphal, autora da crônica 'Quase', que já foi atribuída a Luís Fernando Veríssimo.
Mauro Pandolfi.
As minhas ilusões, com a vida e o sonho, já estão perdidas desde os meus trinta e poucos anos. De tempos em tempos, me vejo tendo esperanças. Que logo passam. Dias atrás, relendo Eduardo Galeano, em seu belo livro de futebol - Aos sol e à sombra - resgatei pedaços de uma utopia que já tinha terminado na derrota contra o Real Madrid, na final do Mundial, em 2017. Ganhar era a utópico. Vivi este desejo, este sonho, esta fantasia, este delírio, exatamente igual ao jovem que sonhava com o socialismo autêntico ou um anarquismo libertário que demolia, sem deixar vestígios, a ganância gulosa do capitalismo. Errei! Já tinha entendido que utopia é só uma utopia. Existe no imaginário. Somente no imaginário. O problema é que, às vezes, tento trazer para o real. E, aí...Equívocos, enganos, derrotas são os meus conselheiros. Acredito piamente nisto. Afinal, a minha vida é um resultado de equívocos, enganos e derrotas. E gosto de todos eles. Perder em muitas situações é melhor do que ganhar. A alma fica leve, a espinha permanece reta, o coração, sereno. idêntica a grande música de Walter Franco.
Tem momentos que viajo no tempo. Boas saudades, tristes lembranças, recordações afetivas. Domingo foi uma delas. O futebol, o Grêmio me fez viajar. Num período que escutava os jogos na eletrola da sala. Volume baixo para não atrapalhar ninguém. Tem um jogo de 1974 que me visita às vezes. Um empate de 3 a 3 com o Encantado. Primeira rodada do gauchão. Já sabia que o título seria uma fantasia. Escutei todos jogos naquele ano. O sofrimento, as derrotas, me forjaram mais gremista, mais apaixonado, mais retraído. Sempre achei que um dia seria diferente. Foi a minha utopia de futebol. E, como foi diferente. O planeta, quando ainda era uma bola, teve as três cores do amor.
Este é um tempo de vitórias. Do melhor Grêmio que vi jogar. Do time que me fazia - e faz - ficar na frente de uma tevê, como se estivesse num culto. E, é um culto! Fiquei mal acostumado com o bom jogo, fluente, envolvente, cheio de arte. Uma má partida, uma péssima performance, descuido, desleixo, soberba me irrita, me entristece, estraga o meu dia. Sou dependende da beleza, da estética, da arte do futebol. O Flamengo me encanta, me emociona. E, o Grêmio. ficou no quase em todas as competições. Exatamente igual a minha vida. Tropecei sempre no quase. Cheguei perto de tudo. Mas, fiquei no quase.
Sábado as memórias tiveram um outro olhar. Caminhando e escutando a canção voltei aos anos 70. A libertação de Lula lembrou-me de Brizola voltando do exílio. Uma espécie de esperança batendo outra vez. Não sou lulista algum tempo. Perdi o meu encantamento com ele. Porém, a história, Glenn Greenwald, a Vaza jato, mostraram que o julgamento foi uma farsa, um jogo sujo. O juiz nunca foi juiz. Nem vingador foi. Somente um cabo eleitoral, um marcador canalha que tirou do 'jogo' o craque adversário facilitando este tempo sombrio. Não sei se recuperarei a esperança (olha ela aí!) em Lula. Prefiro alguém diferente, ousado, com um olhar mais de futuro do que passado. No domingo, a quartelada boliviana. Milicos, fundamentalistas religiosos tomaram o poder. O passado é teimoso nestes lados. Sempre assombra América Latina. As veias abertas que nunca se fecham. Mais uma vez fico no quase. No quase sonho de um lugar mais justo, solidário, fraterno. Esbarro nas fardas, na Bíblia, nos neoliberais sádicos e gananciosos. O medo já é, outra vez, o meu parceiro.
Se o passado assusta, o futuro é mais perigoso. No Roda Viva, Yuval Noah Harari disseca este tempo que propõe controle, ditaduras digitais, um pesadelo misturado ao sonho esquisito, o poder divino em mãos humanas. Tudo será mais fácil, preciso. Só que a perfeição é mais que uma arma quente, é sinistra, devastadora, cruel. Para Yuval só uma grande rede de cooperação global evita a tragédia. E, possível esta rede ser efetivada? "Impossível!", responde. Yuval sabe, como eu descobri durante a vida, que as ilusões estão perdidas. Ou, quase!
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
Crônica do adeus
"Sabe, eu acho que não sei fechar ciclos, colocar pontos finais. Comigo são sempre vírgulas, aspas, reticências..."
Sou
meio Caio Fernando Abreu. Sei que tudo acaba, muda, transforma, mas
resta um tênue fio de esperança que seja só um engano, um tempo dado e
convivo suavemente com o devaneio da perfeição. E, suspiro para que o
ciclo do Grêmio continue, sobreviva, se transforme...
Mauro Pandolfi
Saudades!
Foi uma quinta de saudades. E, de melancolia, também. Fugi do futebol
do dia,a dia, dos programas esportivos encantados com a magia do
Flamengo, dos sites e blogs que suspiram por bola. Na solidão do quarto
busquei memórias, histórias, lembranças, gravações e you tube atrás da
minha paixão gremista. Precisava mantê-la viva. Inabalável! Temi que o
magistral show rubronegro sufocasse o amor gremista. Já que a poesia do
futebol alimenta a alma, afaga o coração, me deixa feliz. Senti a dor.
Curti a dor. Entendi a dor de quem leva cinco a zero no lombo. Dolorido
demais! Certezas são destruídas, dúvidas viram certezas, mesmo as
coisas em construção, tornam-se ruínas, nada sobra, tudo desaba. Fiquei
com medo de perder a paixão. De ficar sem rumo, perdido neste tempo
sombrio, onde o Grêmio é a minha melhor identidade, meu momento de
prazer, de vida meu porto seguro que mantém a sanidade.
A
bola rolou mágica. Começa em Galhardo (quem diria que já fez um lance
deste), chega em Giuliano, passa por Douglas, vai até Luan, que encontra
Douglas que sai para comemorar o golaço contra o Atlético Mineiro.
Vibrei em silêncio. Um gol tatuado exatamente como o de Luan contra o
Cruzeiro. Bola de pé em pé, suave e poética, redonda e sublime, até Luan
encobrir o goleiro. Fantástico! O grito saiu quase mudo. Tantos lances,
tanta magia, um Grêmio que nunca tinha vivenciado, curtido, amado. O
drible de Luan, num mísero espaço, contra o Lanus, na final da
Libertadores, foi outro que vi. Madrugada adentro busco o Grenal dos
cinco a zero. Pulei, acordei todo mundo em casa, me desculpei. Precisava
desta festa para sobreviver o resto da semana até a próxima vitória. A
lágrima que caiu foi solidária com os colorados que sofreram aquele dia.
Não há nada mais dolorido do que uma goleada (estou falando de futebol,
esta coisa sem importância que flerta com a alma). Ela é a destruição
da paixão. Torna a paixão algo menor, trivial, fútil, irrelevante,
mesquinha, traiçoeira.
Não sei o que fará o Grêmio.
Rever os conceitos, métodos, certezas é o mínimo que espero. Que Renato
permaneça. No entanto, que seja mais treinador, menos estátua, esqueça a
sua mitologia, seus feitos de craque, use a sutil arrogância em
aprendizado, em conhecimento, reconheça o valor do outro e se reinvente.
Ele e o time. Que Renato lembre dos meninos e esqueça de seus bruxos.
Que busque jovens com vontade de jogar no lugar de medalhões decadentes e
entediados. Que Renato, mantenha o amor ao jogo, ao prazer de ter a
bola, que não sacrifique mais a beleza do toque, do passe, da volúpia do
gol, pela incerteza da defesa. Seja o Renato de Tóquio ou de Buenos
Aires, o que diz que o 'Grêmio tem o melhor futebol do Brasil' - que
torne este pensar em realidade. Enfim, que o Grêmio continue sendo o
melhor Grêmio que vi jogar. É pedir muito? Não sei! Mas, é o que manterá
inabalável a paixão. E, finalmente, que ninguém chame o Celso!
Quarta
de tristeza. Esperei a ligação que não veio. Nem os flamenguistas do
bairro estavam na rua na madrugada. Até o boteco do Alemão estava
fechado. Nem sinal de Rai Carlos - o vidente cego - que enxerga como
poucos a minha alma. Não falei com ninguém após o jogo. Fiquei em
silêncio. Perplexo! Demorei a dormir. O jogo continuava na mente. Sempre
aparecia um gol do Flamengo. Mais silêncio sem o rádio. Que falta me
faz Rai Carlos e sua imensa sabedoria sobre a derrota, o fracasso, o
desespero e como sobreviver forte, audaz e apaixonado. Imaginei o seu
desencanto em Belo Jardim. A solidão sem os gremistas ao lado. Sem o
boteco do Alemão. Solidão igual a minha. Vou ligar para ele no domingo.
Até lá, vou curtido a solidão e a dor curtindo 'a vela aberta se
afastando pelo mar..' de Walter Franco, que partiu deixando mais triste,
cinza, melancólica a manhã de quinta.
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Heitor!
"Posso ser um novo Di Stéfano, mas não posso ser um novo Pelé. Ele é o único que ultrapassa os limites da lógica..."
Ah, como será fantástico se Heitor for um poeta bola. Não precisa ser um Pelé, Diego, Cruyff, o autor da frase, ou Mané. Ser um Renato Portalluppi é um sonho. Me contento com Luan, Éverton, Arthur, Maicon, Jean Pyerre, Matheus Henrique...
Mauro Pandolfi
No mês da bola, dos melhores poetas do futebol, chegou Heitor. Menino grande, bonito, filho da Mayara (não consegui convencê-la a trocar o nome para Geromel) e do Gláucio, meu sobrinho, é um sopro de vitalidade, luz, felicidade na família, nestes tempos sombrios. Heitor? Que Heitor jogou bola? Heitor, Heitor, Heitor!!! Procurei nos meus alfarrábios, no google, um Heitor no futebol. Tenho na lembrança um lateral de chute forte que jogou no Flamengo e Ponte Preta. Surgiu, jogou, sumiu, nem vestígios deixou. Achei um velho palestrino, um filho de espanhol, Etorre Marcelino Domingues, chamado pelos torcedores de Heitor. Ele foi goleador do Palestra, parceiro de Frienderich na Seleção, e ao se aposentar, tornou-se árbitro. Mais ninguém! Só se usou algum apelido ou uma identidade secreta. Não sei o motivo da Mayara escolher Heitor.Poderia ser Manoel, Diego, Édson. É o mês deles. Da poesia em jogo. Da arte do drible. Da invenção do passe. Da fantasia que ilumina a vida.
Édson, Manoel e Diego é o trio que o futebol se explica, apaixona, encanta, dilacera, torna-se religião, literatura, arte. Pelé, Garrincha e Maradona. Sete dias em que a estrela brilhante no céu era uma bola. Pelé é do dia 23; Garrincha, de 28 e Maradona, dia 30. A Santíssima Trindade! Os três poderiam ter nascido bola. Deram vida a bola. Tornaram a bola o Santo Graal dos tempos modernos.
Pelé! O nome que não precisa de adjetivo. É um adjetivo! Basta citar...Pelé! Você já sabe do que se refere. Ele não inventou o futebol. Nem a bola. Mas, virou símbolo, referência, sinônimo. Pelé é um nobre. Um rei coroado algumas vezes. A primeira, aos 18 anos, em 1958. E foi logo chamado de Rei Pelé! Ele é um mito! Mitologia não se explica. É, e pronto! Édson Arantes do Nascimento nunca conseguiu ser um cidadão comum. Pelé nunca deixou. Pelé jogava feito prosa. Do passe medido, da tabela, do gol, do pulo com o punho cerrado, socando o ar. É a melhor frase do futebol!
Vi um só jogo de Mané Garrincha. O último! O da despedida com a camisa da seleção contra o time de estrangeiros que jogavam no Brasil. Foi em 73. Verdes anos, pouca coisa para contar, muitas para sonhar. Lembro do lance. Garrincha parado. Corpo arqueado, nada que lembrasse um atleta. A bola presa no seu pé. Negaceou. Foi e voltou. O uruguaio Bunuel foi. Na volta, virou mais um João. A bola passou entre as pernas. As 150 mil pessoas vibraram com o drible derradeiro de Garrincha com a camisa da seleção. Aliás, com Pelé e Garrincha em campo, o Brasil nunca perdeu. Garrincha é um poeta. O homem que sucumbiu as tentações, ao amor e a paixão. Garrincha é o maior fantasma do futebol. Esta sempre presente num campo. Está no desejo do torcedor, na saudade de um velho amante da bola, num drible, num passe cruzado, num corte, no chute certeiro...na ausência da alegria. Todo jogo burocrático, sem graça, sem alma é uma outra morte do Mané.
Diego Armando Maradona! Eu não era mais um garoto. Já tinha escapado no exército, de Brasília. em 79. Vi pela primeira vez um jogo de Maradona num amistoso contra Alemanha. Não lembro resultado, nem vou pesquisar no google. Há um lance que de tempos em tempos relembro. Em todos os jogos que joguei tentei repetir. Belo demais! Alguns fiascos. Quando deu certo, virou gol. O lance é magia pura. Bola lançada pela direita. Longa, quase escapando. Maradona domina. Cercado, da dois passos em direção à linha de fundo. E, de letra, com o pé esquerdo, passando por trás do direito, cruzou. Os alemães ficaram atônitos e Ramón Diaz perdeu o gol. Nunca mais perdi Maradona de vista. Acompanhei a sua carreira, a glória, a tragédia pessoal, os equívocos, os acertos, a canonização, a humanização. Maradona tem algo de Pelé e muito de Mané. Que falta faz, este Diego!
O dia da poesia, 31, fecha o mês dos ilusionistas da bola que poderia ser definido assim: "Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma" (pequeno verso de Carlos Drummond de Andrade também de outubro, uma espécie de Pelé, ou seria Mané, ou quem sabe Maradona, entre os poetas?). Vou dar uma bola para Heitor. Nunca uma camiseta. Ele vai escolher o time. Vou contar sobre os seus parceiros de mês, o trio que embala a minha paixão, brincar com ele, me divertir numa rua, praia, despertar a alma do futebol nele e quem, bem velhinho, vibrar com seus gols.
Seja bem vindo, Heitor!
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
O gol...ou quase?
"Tá
no filó!! Tem peixe na rede...!!! É, é, é, é...!!! Urra, urra, urra!!!
Queee lannncee!!! Bagunçou a roseira!!! Tá lá!!! Sacudindo, sacudindo...!!!
Balançou o véu da noiva!!! É fogo, é gol...!!!E que gooolll!!! Gol, gol,
gol, gol!!!"
O narrador é o poeta do futebol.
Frases, cantos, citações, fazem parte de minha memória, do menino ao
velho, ainda me encanto como o grito de gol.
Mauro Pandolfi
A
baliza do futebol mede de um poste até o outro 7,32 metros. A altura é
de 2,44 metros. A circunferência da bola tem entre 68 e 70 centímetros. O
peso (que não faz parte desta história) fica entre 410 e 450 gramas. Se
soubesse matemática, cálculo de área, saberia dizer quantas bolas cabem
no quadrado mágico. As meninas do Flamengo, no campeonato carioca,
tripudiaram do pobre Greminho - olha!, os deuses do futebol, olha!... - e colocaram 56 bolas no barbante. Será que
56 bolas, lado a lado, uma em cima da outra, cabem na baliza? Como não
sei fazer o cálculo, às vezes, fico encantado com uma só bola balançado o
'véu da noiva'. Nada supera o gol. Nem drible, muito menos a linha de
passe. Quem sabe, a defesa do goleiro. Aquela impossível, que fica
permanente na memória do futebol. O gol é a poesia, o momento idílico do
artilheiro e do narrador. É a voz que torna eterno o gol. E, o que é o
gol?
O gol é
um latifúndio. Tem a imensidão da desgraça e a fúria da esperança. É o
ponto de encontro do riso e da dor. Vitória e derrota são o mesmo lado
da moeda, gêmeos no desespero. É o lugar onde a humanidade tropeça. O
herói é desconstruído. O comum é tornado deus. O erro e o acerto andam
de mãos dadas feito namorados. No erro, o ídolo é imolado, decapitado,
consumido em partes, devagar. O perna de pau é devorado por inteiro, num
ódio bíblico. Mitificam-se no acerto. O gol é a tragédia do futebol.
Maldito.
Perambula pelo espaço exíguo como se tivesse perdido no infinito. Vive
intensamente a emoção da glória e do fracasso. O goleiro não é um
jogador de futebol. Nem detalhe tático, nem profissão. É um angustiado
personagem de um teatro de grama e paixão. Solitário ator que tenta
impedir o desejo do jogo. A alegria do gol é o riso da morte de um
goleiro.
Alguns dos gols mais bonitos são os que não
foram gols. Os que são quase. O gol que Pelé não fez lá do meio -campo é
mais bonito, emblemático, do que todos que foram feitos lá do
meio-campo. Cada torcedor, cada amante, cada poeta, tem o seu quase gol.
Aquele que mudaria tudo, que seria uma outra história. É só memorável
por não ter sido gol. Por tornar-se lenda, onde o impossível é sempre
possível. Bastava ter acontecido.
O mais triste, e o mais psicólogico, gol do futebol é do pênalti. Onde o
medo reforça o drama.. Estáticos. Olhares trincados. Músculos
retesados. Tensão. Há algo cínico no pênalti. Onze passos de uma
execução. Pelotão de fuzilamento. A rede não é de proteção. Ele corre.
Ele curva-se. Ele bate. Ele voa. A bola, traiçoeira, escapa, tocando nos
dedos e aninha-se na rede. Ele pula, soca o ar! Ele estatelado, soca o
chão. O gritos se confundem! De alegria e fúria. A cena pode ser
outra. Mas, só é encantada quando o goleiro é do nosso time.
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Yesterday
"De repente
Eu não sou metade do homem que costumava ser
Existe uma sombra pairando sobre mim
Oh, o ontem veio de repente..."
Talvez
tenha sido esta canção dos Beatles que me ensinou que o passado é
sempre melhor, que nunca passa, que depuramos, idealizamos, que o
inventamos e o eternizamos em nossa memória. E, é somente um engano.
Mauro Pandolfi
O
cinema é a melhor forma de escapismo que conheço. Melhor que o futebol.
O imaginário é mais amplo, poético, o jogo de luzes e a música produzem
víscerais ou singelas fábulas. 'Yesterday" é uma destas quimeras, meio
distópica, meio nostálgica, adorável, de um mundo que se apagou. O
personagem, um músico frustrado, toca Beatles em um bar. Todos param,
escutam com uma emoção intensa como se ela fosse inédita. Ele descobre
que ninguém conhecia Yesterday e nunca tinham ouvido falar de Beatles.
Esta bela comédia romântica me gera um desespero de acordar um dia e
notar que o Grêmio é uma fantasia minha. Só minha. De mais ninguém. Só eu
desejo 'ir até a pé', que somente eu conheço Osvaldo Rolla, Renato,
Everaldo, Carlos Miguel, Luís de Carvalho, Eurico Lara. Que vivi um
coliseu chamado Olímpico e a história do maior zagueiro de todos os
tempos, Aírton Pavilhão, é um delírio meu. Ele chapelou Pelé com um
toque de charles, uma espécie de bailado. O voo libertador de André
Catimba nunca existiu e que a Batalha dos Aflitos é uma ficção
impossível. Nem no playstation se vence com sete. Imagine num campo
real. Seria a mais encantadora de minhas histórias antes de ser
internado por loucura ou perturbação da ordem.
Estou sozinho
numa praça. Isolado num canto. Os pombos como testemunhas. 'Vou contar
sobre o mais fantástico clube de futebol que já existiu do mundo', aviso
aos transeuntes. Raros os que param. Poucos os que escutam. Quase todos
riem. Sinto-me o lunático de histórias que pregam o fim do mundo. Nunca
o fanático religioso que deseja a conversão de quem escuta. 'E, tudo
começou com uma bola. O símbolo é uma bola. Foi Cândido Dias quem
trouxe... E, o primeiro feito foi o indiscutível 10 a 0 no Grenal",
explico. Este é um dia para rever em uma máquina do tempo.
A
tarde apenas começava. Era o momento de desfazer enganos, equívocos.
Somos 'pretos, azuis e brancos' desde Adão Lima, o primeiro negro a
jogar em 1926, até Tesourinha, quem definitivamente tornou o Grêmio de
todos. Cantar o belo hino de Lupicínio Rodrigues. Ele 'desafiou' uma greve de trens
para ver o Grêmio. Descobriu que para estar com o Grêmio, onde o Grêmio
estiver, para o que der e vier, se for preciso, até a pé nós iremos.
Como esquecer de Bombardão, o negro pobre, cuja a gargalhada explodia o
Olímpico. E, de Gilberto Gil ao explicar ao repórter a sua paixão:
'Grêmio pelo azul do céu, o branco da paz e o negro de minha cor'. Não
pode faltar o Grêmio no mundo.
Encarei como missão lembrar o
mundo do Grêmio. Falar de Foguinho, de Eurico Lara, de Luís de Carvalho,
do campeão Farroupilha de 1935 - título que será comemorado por 100
anos. Dos doze campeonatos em treze anos. Da máquina, quase perfeita de
Osvaldo Rolla, do genial Gessy, de Marino e seus quatro gols num Grenal,
do pavilhão Aírton, do tanque Juarez, do bugre xucro Alcindo, dos
pequeninos João Severiano e Babá. Faltará espaço para tantos nomes e
cores. Como não lembrar de André que nos libertou do jugo vermelho. Sem
esquecer de Luís Carlos, Loivo, Ancheta que resistiram aos anos de
chumbo colorado. De Tarciso, tão rápido feito uma flecha negra, do
cerebral Tadeu Ricci, da garra de Oberdan e do gol de Iúra, aos 14
segundos, quase enganou Einstein em tempo e espaço. O Grêmio é imenso. A
paixão é quase do mesmo tamanho.
Rememorar o definitivo time dos
anos 90. De Danrlei, Arce e Arilson. Da bola voadora a procura da cabeça
de Jardel. Equipe vísceral que moldou o futebol brasileiro. Mas, é
Renato o grande ícone deste clube feito da bola. O balão mágico que achou César e depois, como fantasia, entortou alemães numa
madrugada. E, feito ilusão, montou o melhor Grêmio que vi. A arte e o
prazer em brincar com a bola. O que se reinventa após as derrotas.
Perplexo
ainda com a história do filme, sou interrompido por um garoto de
cabelos loiros e longos, lembrando um outro guri, de outro tempo. Ele
usa
uma camisa de três cores em linhas verticais. Conheces o Grêmio?
Espantado, respondeu. 'Quem não conhece o time que rima bola e
paixão. Que teve Renato, De León, Luan, onde impossível e o
inacreditável não existem? É o clube que levo na alma'. ...Yesterday é
só
cinema. Ufa!!!
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
O divino
embate terreno
Chiko
Kuneski
Os deuses
do futebol são brincalhões e gostam de se deleitar com o terreno do campo de
futebol. Não interferem o tempo todo, mas o suficiente para surpreender sempre
os apaixonados por futebol. Agem sorrateiros. Inesperados. Rápidos como pontas
velocistas ou dribles de chuteiras aladas. Os deuses dão asas à magia do
futebol.
Gostam de
brincar com as emoções. Reservam resultados impossíveis em jogos banais. Tudo
para ver a perplexidade estampada na cara dos humanos torcedores. Por isso são
deuses. Acima do previsto, criam o imponderável. Isso alimenta a magia do
futebol. O torna tão apaixonante, emocionante, fantástico.
Na
principal disputa do continente não poderia ser diferente. Os deuses do futebol
mexeram suas cordas das marionetes dos clubes para possibilitar uma disputa
única. Um jogo divino em campo terreno. Abriram a caixa de pandora dos seus
sonhos parar materializar a contenda mística.
Uma
semifinal de Libertadores da América num embate entre Jesus e deus. Um Jesus
eternizado como premonição do hino na disputa com tricolor. Um deus venerado no
Olímpico. Os deuses do futebol teceram um cataclismo de gigantes para a terra
tremer.
Nesse
jogo os justos deuses não devem interferir.
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