quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Os mafiosos do circo

Chiko Kuneski

Recente escrevi sobre a ilusão da bola. (Clique para ler) Sua trajetória enganadora. Suas nuances que justificam o erro do mais sagaz olhar humano. Até a bola, ilusória, criada por minha imaginação futebolística, me iludiu. Mesmo a magia da bola de futebol mostrou-se dominada pelo olhar oblíquo dos árbitros. Para eles, não há bolas. Existem bolões.

Nem mesmo meu olhar pueril consegue mais ver os descalabros arbitrais como um ardil da bola. Ardis se mostram os Homens. Os que seguram as flâmulas quadradas. Os que intimidam técnicos, num homem a homem a linha do campo. Os que apitam.

Bandeiram. Intimidam. Apitam para si. Para seus resultados. A bola não mais os traem malabaristicamente. Roubam até isso da bola. Da bola, do jogador, do técnico, do torcedor. No Brasil os árbitros de futebol tornam-se ministros de governo. Desgovernam. Mudam regras e resultados.

A bola, no seu mais puro ilusionismo, ainda precisa da genialidade, da criatividade, da magia do jogador. No passe, no toque, no drible. O logro arbitral depende exclusivamente da vontade, ou, necessidade de errar. Da má fé.

Como já se comprovou na Itália, a corrupção de governos não joga distante da corrupção das arbitragens. Olha-se o mapa. Detecta-se como furtar. Cria-se os mecanismos. Depois basta a pessoa certa no lugar certo. Rouba-se.

Não é mais a bola que ilude, ludicamente, o olhar despreparado dos árbitros. É o olhar ganancioso e corrupto deles que está nos enganando. Como acontece com o governo, estamos sendo roubados no futebol. Nós, torcedores, independente dos times. A bola é mera ilusionista. Os juízes são mafiosos donos do circo.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A ilusão da bola

Chiko Kuneski

Se puder comprar o olho humano a algo vivo seria com uma bola de futebol. Mas o olho é mais rápido, mais sagaz, mais intenso. Dos cinco sentidos é o que chega antes. Que decodifica emoções. É esférico como a bola. Rola como a bola. Muda de direção como a bola. Às vezes, pela bola.

São esses olhares que seguem a bola num jogo de futebol, tentando decodificar seus mágicos movimentos, suas trajetórias, seus logros no conceito espacial. Mas cada olhar da mesma bola é uma visão diferente dela. O jogador tem o olhar dominante. O técnico o olhar perspicaz. O torcedor o olhar encantado. Os juízes o olhar aflito.

A velocidade da bola é maior que o flash do olhar arbitral. A bola é uma ilusionista de juízes e auxiliares (eu ainda prefiro bandeirinhas) que brinca de enganar o mais fixo e atento olhar dos “homens de preto”. A bola é como o mágico do circo que mostra escondendo; esconde mostrando. Ludibria com inventivos percursos não planejados, rotações inusitadas, translações desconcertantes, até para o veloz olhar humano.

Como diz o poeta: a bola “tem o dom de iludir”. Matreira, parece divertir-se com as ilusões ópticas que cria. Excita, ínsita, instiga a busca do olhar que desvende a magia pelo puro prazer de saber-se admirada. É uma criança brincalhona que traquina com a seriedade dos árbitros.


Esses ficam atônitos, enganados, perdidos num espaço lúdico demais para o olhar ranzinzo e tão atemporal como as pesadas armações dos óculos dos míopes. Cada vez mais a bola os ilude, mas, turrões, insistem em não ver que precisam começar a usar outras lentes. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Aprendiz de feiticeiro


Mauro Pandolfi

Um time de futebol em campo. Reparem em suas linhas. Percebam a movimentação. Há algo de arte neste conjunto. Tudo planejado. Retas e curvas. Um arquiteto desenhou isto. Há marcação no espaço. A movimentação é coordenada. Um lado vai. O outro, fica. Há diálogos, luzes e poesia. Cenas de um diretor de cinema. Acompanha de perto. Em cima. Orienta, gesticula. Um professor. O suor, o grito, o desespero. O olhar atônito, perplexo. O elogio e o xingamento. Um sargento sem farda. Todos em um só. O treinador de futebol é um artífice. Um artesão de ideias, movimentos, deslocamentos e invenção. O futebol é um jogo solitário, desenvolvido pelo coletivo. Há tempos que deixou de ser onze contra onze. É agora um duelo. De estilos, pensares, jeitos. O futebol é uma disputa entre treinadores. Um contra um.
O treinador é o personagem que desperta  a minha atenção durante o jogo. Largo a partida, deixo fluir, e encaro o técnico. Presto atenção em seus gestos, atitudes e ações. Como reagir ao cerco imposto pelo adversário? Como conseguiu encaixotar o o oponente? Encanta-me a habilidade do técnico de aproveitar melhor o talento de seus craques. Também, fico surpreso com a capacidade de anular o talento de seus craques. Tão poderoso que torna o jogador um submisso. Nem o craque o contesta. Sempre escuto as entrevistas após os jogos. Ouço as explicações, as desculpas, as justificativas, os pensares. São sempre vencedores.
Magos, mágico, aprendizes de feiticeiros. Como disse Oto Glória, lenda do futebol são "bestas e bestiais. Depende do jogo".  Chamados de técnico e treinador. Há diferença ou é semântica? Para Eduardo Galeano, o sábio uruguaio do futebol, há e bem definida. "Treinador é o que deixa o jogo fluir, pensa o jogar. Técnico é o que trabalha o jogo, determina o jogo". Quem vocês preferem?
A mão no queixo. Um pensador. Analisa o movimento, a atuação, o cerco e a saída. Pep Guardiola é quem melhor materializa o pensar do jogo. Seu time flui, flutua, ataca, defende com uma estética irresistível. Habilidade, força, técnica, poder mental e muita beleza. Guardiola é quem melhor decifra a emoção do futebol atualmente. Tão moderno que resgata o antigo. Não como saudade. Sim, como uma nova arma. Seus 'pontas' tem só a habilidade e a velocidades dos velhos ponteiros. São algo mais. Tem a fúria do ataque, a precisão dos meias e a segurança dos defensores. E, pensar que Guardiola se ofereceu para treinar o Brasil. Mas, aqui a vanguarda do atraso é insuperável.
Velhos mestres estão se aposentando. Alguns, por entender que seu tempo terminou. Outros, estão sendo tirados a força de seu conforto. Alguns resistem, adquirem um discurso moderno, atualizado, que dura dois ou três jogos e vão sobrevivendo de clube em clube, divisão em divisão até se perderem na estrada. Os mais espertos procuram lugares poucos explorados. Lá, sobrevivem como mitos. E, o novo sempre vem. Há Tite, nem tão novo, Marcelo Oliveira, Roger Machado, Milton Mendes, Eduardo Batista, Dado Cavalcanti, Mabília, Fernando Diniz, Hémerson Maria, Léo Condé, entre outros desconhecidos, pronto para serem descobertos. São histórias e conceitos diferentes. Porém, serão eternamente fabricantes de paixões e emoções. Pois, assim é o futebol.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A bola

 Mauro Pandolfi

"O que é a vida?"
                        Antônio Abujamra

Ele mira a bola. Acaricia. Olha firmemente. Lança ao alto. Sobe rápida.  Desce lenta. Domina. O sorriso é irônico.  Toca de calcanhar. Um drible mágico. Sobe lenta. Desce rápida.  Controla. Os movimentos são rítmicos. Dança e balé.  Que fascínio exerce a bola? Qual é a ilusão que desperta este brinquedo redondo? Cenas de Pelé ou de Maradona? Pode ser! Momentos de Messi ou Neymar? Quem sabe? Cenas de um gênio. E que gênio! Charles Chaplin, em O Grande Ditador, brincando com o globo. O globo que explode em suas mãos.  A bola é para a festa. Não para a guerra.
A descoberta. Uma criança feliz brinca com a bola. Sorri! Segura firme em suas pequenas mãos. Joga para o céu. Vibra com o primeiro salto. Bate palmas no segundo pulo. Chora ao ver a bola correr rápida pela calçada, indo embora. O sorriso retorna ao ter a bola em suas mãos. Vi estas cenas nos meus filhos. São todos pequeninos Carlitos.
Era um menino, era um moleque. A bola que rola macia, redonda, num campinho improvisado, como arte, como diversão, pode ser o sonho, a esperança de transformação. Vejam os mitos. Verifiquem suas origens. "Tudo o que sou devo ao futebol". A frase é de Albert Camus. Poderia ser de qualquer craque. A bola é um auxilio luxuoso. O legendário Alfredo di Stefano sabia disto. Na sua casa havia um monumento à bola: "Gracias, vieja!" .
A bola pode ser uma metáfora da vida. É necessário ter a segurança de um goleiro para não deixa-la escapar pelos dedos? É preciso a habilidade para driblar as traições, as dificuldades, as retrancas? Só uma boa tabela, com bons companheiros, fazem da vida uma festa? O tempo vai revelar ao menino os segredos da bola, o encanto da vida. Ele vai descobrir que as incertezas e as dúvidas dão calor, alegria, ilusão a existência. Fuja dos cheios de certezas, dos donos da verdade. É assim, também, no futebol.
Eu e a bola. Parceira da infância, desejo de juventude, instrumento de trabalho, objeto de prazer neste blog. No sofá da sala, a tevê é o meu estádio, a bola é a companhia de um velho inquieto e curioso, desesperado por um bom jogo. É ótimo vivenciar os versos rimados de Messi. Ele é, atualmente, o meu escritor favorito.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Os meninos do Brasileirão

 Mauro Pandolfi

Dois lances. Bola no meio. O passe para o lado esquerdo do ataque é certeiro. Corre em linha reta. Rápido. Ergue o braço, pede a bola. Recebe. Um só toque. Gol! Um lance planejado, armado numa prancheta. Aula de modernidade. A bola no lado direito. Corre para área. Recebe quase no fundo. Domina. Chama o goleiro. Um drible, uma dança. Um bolero. Dois para lá. Dois para cá. O chute seco de pé esquerdo envolve a bola na rede. Um gol que 'revisita um passado glorioso'. Dois lances de Gabriel Jesus. Um craque que desponta aos 18 anos. Há outros meninos soltos por aí. Tão mágicos como ele. O futebol brasileiro nunca morre. Se renova, reinventa-se no desespero. E, o treinador da seleção convoca Robinho.
O futebol é um jogo para meninos. Hábeis e abusados. Dos que tem certeza de tudo. Dos que não duvidam do talento. Dos imodestos. Nunca dos soberbos. Garotos que não sacrificam o drible. Guris que tem a métrica do passe. Moleques que sabem o valor da bola e do prato de comida. Meninos com consciência de homens. A maturidade é desenvolvida pelo tempo, pelo vento e pela beleza do jogo. Garotos que são só garotos. Que sempre jogarão como meninos.
Há uma plêiade de meninos no campeonato brasileiro. Leiam o guia da Placar, prestem atenção nas escalações. Há candidatos a craques em todas posições. Todos com menos de 22 anos. Em cada clube há, no mínimo, um jogador de qualidade nesta idade. Alguns, são titulares. Em outras, é só uma questão de tempo, de técnico ou de um empresário.
O rápido Allison é uma muralha no gol do Inter.  Valdívia e Dourado, também, são ótimos. Marlon é o chefe da segurança do Fluminense. Jemerson, do Galo, é um bom parceiro. Pena que o Fluminense trocou a jovialidade, inteligência de Gérson pela malemolência preguiçosa de Ronaldinho. Jorge do Flamengo já pode ser chamado de 'Seu..Jorge'. No Santos, o leitor escolhe. Há Geuvânio, Gabigol (mortal!), Alison, Leandrinho. Lucas Lima fica fora da lista, pois tem 24 anos.
Driblador e artilheiro. Clayton trouxe a medalha de prata do Pan. É especulado em vários times. É o craque do Figueira. Mas, prestem atenção em Iago. Tem a sabedoria e a qualidade dos armadores. Sempre arruma o time quando entra. A titularidade esbarra nos medalhões decadentes, como Carlos Alberto, Rafael Bastos, João Vítor e até num clone medíocre do Ronaldinho: Celsinho. Bruno Alves já é o melhor beque do time. Seguro, calmo, técnico e preciso. Zagueiraço!
O que mais me encanta é Luan. O genial armador do Grêmio. Joga de cabeça erguida. Não precisa olhar a bola. Sabe que ela está lá, obediente. Dribla em linha reta. O passe é preciso. A movimentação é coordenada com a estruturação tática do time. E, arrisca! Não tem medo do erro. Repete, tenta. Bate falta como os velhos mestres. O Grêmio ainda tem Walace. Parece um volante europeu. Um Pogba. Elegante, marcador duro, saída rápida. Um dono do meio-campo. O tricolor ainda esconde Lincoln (tem a qualidade de Lucas Lima, no mínimo!) e Balbino - um espigado volante canhoto, hábil cobrador de faltas. Estes dois, só o ano que vem mostrarão o talento.
Uma lista de jovens espalhados pelo brasileirão da série A. Atenção aos nomes: Anderson Lopes, Rômulo, Renan, Marcos Guilherme, Douglas Coutinho, Eric, Carlos, Dodô, Pedro Rocha, Junior, Hyoran, Vinicius Araújo, Mike, Renê, Diego  Macedo, Luan (zagueiro do Vasco). Muitos deles nunca serão titulares. Alguns disputarão vaga à Olimpíada. Poucos serão testados na seleção. Muitos, quase todos, serão negociados com clubes do exterior. Só saberemos a sua qualidade pela televisão, assistindo os campeonatos europeus. Serão os novos Douglas Costas e Roberto Firminos. Aí, os idiotas de microfones e tablets duvidarão do seu talento. Afinal, não jogaram nos seus times, nos estados, perto dos seus olhos embotados de preconceitos e conceitos superados. Eles são 'os tambores' da verdade.

domingo, 23 de agosto de 2015

O Brasil reencontra o tesão


Chiko Kuneski

Os otimistas acreditam que as grandes transformações vêm da crise. No futebol já tivemos inúmeros exemplos que esse credo é verdadeiro. Talvez sejamos mesmo um povo otimista que leva a máxima “ao pé da letra”. O brasileiro está reencontrando o desejo, a vontade de participar. De ser ativo.

O futebol nacional, apenas com os jogadores que atuam em nossas arenas (para ser contemporâneo), voltou a ter bons jogos, com mais dribles, toques, passes, assistências (termo também contemporâneo) e vibração. A volta do bom futebol nos faz voltar a gostar do futebol.

Torcedores indo aos estádios. Êxtases coletivos dos cidadãos comuns, sem a insanidade das torcidas organizadas, recuperando o prazer de ver futebol. De torcer. Reencontramos o tesão numa  relação que era apenas de amor, às vezes platônico.

Como no futebol, o brasileiro recriou seu desejo pela política. Esse, mais impelido por um divórcio inevitável de um casamento desgastado e construído em enganos, logros e mentiras, que faz procurar o novo desejo, a busca do algo mais, do novo tesão. O êxtase da negação do cômodo, da mesmice, para a busca de uma realização maior.

Como nas arenas, os brasileiros vão às ruas por desejo, espontaneamente. Querem voltar a ser vencedores e não eternos perdedores enganados por discursos de dirigentes corruptos e de falsos técnicos. Voltam a acreditar que as mudanças são possíveis e inevitáveis.


Os brasileiros estão reencontrando o tesão por suas eternas paixões.