terça-feira, 20 de outubro de 2015

Diálogo



Mauro Pandolfi

Ei, vamos conversar um pouco? Ou, está seguindo seu amigo Chiko?
Eu concordo com ele. Tudo vira lugar comum, ofensa, agressão e o silêncio é o melhor diálogo.
Poxa, somos amigos! Podemos discutir... sobre futebol. Que tal?
Sem ofensas, xingamentos?
Bueno, depende do que for dito.
Tá bom! É futebol, hein? Acho que deve cair...
Mudou o assunto. Isto é golpe! Não há nada contra a Dilma..
Que Dilma, cara? Estou falando do Dunga!
É gaúcho, né? Sabia..
Eu também sou gaúcho...
Dunga é colorado. Usou vermelho, mudou de figura. Gremista sem título, tucano enrustido..
Não! Seu estilo é jogo superado, tosco, defensivo demais..
Bobagem tua! O que esperar de quem vive falando em Guardiola...
Eu gosto de futebol!
Deslumbrado! Assiste na tevê a cabo, é burguês, fica falando do jogo bonito..
Não gosta de beleza?
Colonizado! Eu adoro o futebol jogado no Brasil, cinco vezes campeão do mundo, país do futebol. Aqui a gente ensina...
É o futebol da pátria educadora?
Porra, já está falando de política, outra vez?
Não é isso! E, o jogo do Neymar, hein? Quatro gols e algumas pedaladas.
Tu é reaça, mesmo! As pedaladas foram uma necessidade para os programas sociais. Mas, desde quando tu se interessa pelos pobres, né, intolerante?
Opa! Me referia aos dribles. Que paranoia é esta?
Este guri me dá nos nervos. É um mimado, metido, milionário. Um babaca.
São os tempos de hoje. Os guris são assim mesmo. Tem o Neymar, o Lulinha, o irmão dele, a mulher...
Não mete a família no meio?
Entenda uma coisa. O futebol mudou muito. O que me preocupa a roubalheira. Será que vai dar cadeia?
Porra, tu quer falar de política, coxinha? Não vai ter impeachment, quanto mais cadeia...
Tu é um idiota, né? Eu tava falando em Marin, Del Nero, Delfim. A outra quadrilha, também, poderia ver o sol nascer quadrado..
Quanto ódio no coração! De qual quadrilha, tá falando? É muito jornal nacional, analfabeto midiático. Noveleiro!
Tô quase voltando ao silêncio. Falta na seleção um centroavante habilidoso, de movimentação.
Prefiro um fincado na área.
Mandioca?
Porra! Já é provocação!

Federação Carioca manda na CBF

Chiko Kuneski

O presidente Marco Polo Del Nero retirou o aval dado pela CBF para a realização do primeiro torneio da Liga Sul-Minas-Rio, que nasce com o apoio de 15 times. Segundo o próprio Del Nero, a retirada da chancela oficial da entidade atende a pedido da Federação do Rio de Janeiro, que entrou em rota de colisão com a dupla Fla-Flu e acata todas as “ordens” do presidente do Vasco, Eurico Miranda. Por analogia pode-se dizer que Eurico manda na CBF. O futebol, mais uma vez, imita o pior da política nacional.

Del Mero faz jogo duplo. Tem um estilo de político da pior estirpe, como Dilma, loteia agrados para tentar salvar a pele, e sabe que precisa do apoio de grandes times fora de São Paulo, principalmente Flamengo, Fluminense, Atlético-MG, Internacional e Grêmio, para tentar esquiver-se de punições extra futebol. Logo depois retira o apoio à Liga conclamando o estatuto da confederação. Tenta blindar-se dos dois lados. Para a Liga alega que não pode ferir o estatuto; para a Ferj acena com o cumprimento desse para melar uma grande iniciativa dos clubes “rebeldes”.

Nesse cenário da política futebolística do país, que não é muito diferente da de Brasília, a Liga chega para ser talvez uma semente de mudança. Sem a participação da presunção dos times paulistas e dos presidentes ditadores das Federações, a nova entidade tem tudo para mudar o futebol nacional em poucos anos. Tomemos como exemplo os principais nacionais europeus. Todos organizados por ligas e rentáveis para os times.

A maior rede de televisão do país, que já detém os direitos de transmissão dos principais estaduais, do nacional e da Copa do Brasil, já negocia com os  clubes que fundaram a Liga. Seus executivos pensam no futuro, que sabem inevitável. As entidades estaduais e a CBF tendem a perder poderes, esvaziarem-se.

Talvez a Liga seja a tão sonhada redenção do futebol brasileiro que nós, todos os apaixonados pelo esporte bretão, precisemos acreditar.

Informações do jornalista Rodrigo Mattos, Folha de São Paulo. Clique

domingo, 18 de outubro de 2015

A banalização do pior

Chiko Kuneski

- O futebol é uma caixinha de surpresas!
- Logo tu? Usando essa frase batida?
- Digo mais. Cada jogo é um jogo!
- Ai pegou pesado. Mais um lugar comum.
- No futebol comum é o inusitado!
- Que foi? Engoliu um almanaque de futebol?
- Comentarista de almanaque só vomita números!
- E tu preferindo máximas.
- Verdades!
- Mas assim? Com frases feitas e cruas? Sem análise?
- A análise futebolística é dourar a pílula!
- Esperava mais de ti. Um pouco de conhecimento...
- Quem acha que muito conhece; nada sabe!
- Desisto de discutir futebol contigo.
- Até que enfim entendeste!
- Não estou entendendo nada.
- Não vale mais a pena discutir nada nesse país. Nem o futebol, nem a política, nem os conceitos. O lugar comum virou o mais comum dos lugares.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A outra partida

 

Mauro Pandolfi

É difícil atravessar a cidade com um campo de botão. Entrar no ônibus, também, foi complicado. A sorte foi um cobrador gentil, atencioso e jogador de futebol de botão. Ele permitiu a nossa entrada e saída pela porta de trás. A aventura aconteceu num sábado de 1993. Eu e o Márcio fomos até a Fedato Sports, que ficava na Jerônimo Coelho, em busca de um campo que ele tinha visto, cobiçado, desejado e sonhado. Parecia um campo de futebol como o Serra Dourada. Listrado em tons de verde claro e escuro. Cercado por um metal que lembrava a geral. Aproveitamos e compramos duas traves novas. As redes eram do tipo 'véu de noiva'. Aqueles que balançam e aninham a bola como um ato de amor. Belo estádio!.
Dois ' piás' em um sonho. O gerente da loja veio nos atender. Ele também gostava de jogar botão. Trocamos dicas, regras, macetes. Havia três tamanhos de campo. O Márcio queria o maior. "Dá para fazer lançamentos e distribuir o time", explicou. Eu preferia o menor. Márcio protestou. "Não, não, não! Campo pequeno é para retranqueiro. Nem pensar.  Te conheço", disse. Ficamos com o médio. Foi muito engraçado andar no calçadão com aquele trambolho. Cada um segurando um lado. Ás vezes, um na frente do outro. Noutras, lado a lado. As pessoas olhavam e nós ríamos. Só de lembrar, fico com vergonha que naquele dia não tive.
Campo instalado. Lustrado. Em cima da mesa da sala. "Não vão arranhar a mesa, viu?", reclamou a dona Lídia. Não ligamos, não ouvimos, o pedido da mãe.  Um em cada lado. Times escolhidos. Os goleiros eram os que vinham com o jogo. A caixinha de fósforo com peso dificultava o gol. Os botões eram antigos. Comprei em 1971. Foi uma fase de jogo de botão na rua e no colégio. Sempre cuidei deles com carinho. O Márcio os mantém até hoje. Passei várias tardes da adolescência jogando. Bons tempos, hein?
Corinthians x Cruzeiro. O jogo escolhido. Como os dois queriam o Grêmio, ele foi tirado do sorteio. Eu peguei o Timão de Sócrates e Palhinha. Os botões tinham os retratos dos jogadores. O Cruzeiro de Dirceu Lopes e Nelinho foi a escolha do Márcio. Times armados, distribuídos em campo. Confirmamos as regras do jogo. Três toques a parir do meio-campo. Chute a gol só da intermediária. Quem tinha a posse de bola, em cada toque, podia mexer em dois jogadores. Três faltas, cartão amarelo; na quarta, expulsão. A regra era clara.
O Márcio é um hábil jogador de botão. Tem lances ensaiados que detonam qualquer adversário. Falta a favor dele é um perigo. O cruzamento é meio gol. Seus botões pareciam cabeceadores fenomenais. Ele gostava de jogar com bolas longas. Bem armado taticamente. Um craque!
Eu era mais pragmático. Gostava de armar uma boa defesa. Três defensores fechavam a grande área. Dois laterais e três meias preenchiam o meio-campo. Um atacante pelo centro. Outro, aberto, entre o lateral e o zagueiro. Futebol moderno. "Retranca!", berrava o Márcio. É uma questão de olhar.
O jogo flui. Márcio procura o gol. Tenta as bolas longas. Mas, elas geralmente paravam nos meus jogadores. Aí, eu tocava sem pressa. A bola no meu campo. Analisava o posicionamento. Só aí buscava o gol. O Márcio é sanguíneo, ficava irritado com a demora e a posse de bola. 'Vem pro jogo, porra! Saí da retranca!", explodia. Eu, feito um estrategista, um Rinus Michels, especulava o jogo. Ah, cada um narrava os seus lances. Também, comentava. Era um tal de retranqueiro ou de futebol moderno. Exatamente como é hoje.
O Márcio atacou. Confiou demais na sua habilidade. Deixou um espaço no lado esquerdo. Ele errou a jogada. A bola ficou comigo. Sócrates segurava o disco. Mexi em Vaguinho. Posicionei Palhinha. A jogada deu certo. Palhinha, cara a cara com Raul, tocou no canto. "Timão! Timão!", simulei o grito da torcida. 1 a 0 bem no final do primeiro tempo.
Furioso, Márcio amassou o meu time no segundo tempo. Armou uma estratégia que encaixotou o Corinthians. Não consegui sair. Não armei nenhum contra-ataque. Estava encurralado. Mas, o gol não saía. Eu era um bom goleiro. E, tinha uma 'leiteria' danada. Bola na trave, no zagueiro. A pressão foi intensa. Numa cobrança de falta. Nelinho acertou o ângulo. Não sei como aquela bola pegou altura. Fim de jogo. Empate. O sorriso do Márcio era de uma vitória que não veio por detalhes. Trocamos abraços depois da epopeia. A mãe chegou na sala aquela hora. "Pensei que vocês estavam brigando. Eram gritos, assobios, xingamentos", disse. Explicamos, abraçados, que era apenas um jogo de futebol de botão.
Não sei onde foi parar o campo. Os botões estão guardados numa caixa. André e Pedro chegaram a brincar quando pequenos. O Márcio deu um campo e eu, os times. O tempo passou. Veio o playstation e os botões ficaram presos na memória. Será que não é hora de libertá-los?

sábado, 10 de outubro de 2015

Desnorteado

Chiko Kuneski

Ptrowesley (um desconhecido técnico, que apesar do nome era venezuelano) veio para implantar um esquema tático revolucionário e salvar o time da segundona. No primeiro dia já pôs todos no condicionamento físico na mais tenra matinal. Nenhum jogador brasileiro treina bem de manhã cedo, mas ele dizia que ia mudar isso. Levava os atletas à exaustão física até o meio do dia. A tarde era o tático técnico.

A ordem era uma: só atacar pesado pela esquerda. “Temos que derrotar a direita do adversário, é sempre o ponto mais fraco”, esbravejava cada vez que um jogador mudava o lado de campo do passe. “Nunca se ataca à esquerda inimiga, mais cedo ou mais tarde ela acaba nos surpreendendo”, dizia categórico.

O time sempre era armado com dois zagueiros esquerdos, um lateral e um ala, esquerdos, dois volantes de pé canhoto, meias armadores esquerdos e o centro avante. Esse era destro e Ptrowesley justificava: “temos que surpreender com finalizadores ao centro, salvam o time nos piores momentos”. Ninguém entendia bem o “moderno” esquema de jogo do técnico, nem os seus jogadores. Na maioria das vezes o time parecia um bando de caranguejos com as patas direitas danificadas, arrastando-se por uma só lateral.

Mesmo sem vencer, sem mudar a desconfortável posição na tabela, pior, caindo a cada rodada, sua teimosia insistia no método. “Mais cedo ou mais tarde os torcedores entenderão, o time engrena e nos recuperamos”, frisava sempre nas entrevistas. Mas a equipe não vencia uma. Quando não empatava, perdia e de goleada. Ptrowesley não vivia tal realidade. “O time está bem, é questão de tempo”, insistia.

No jogo decisivo o técnico repetiu o esquema totalmente à esquerda, justificando que era chegado o momento. Com ele o time estava bem até os cinco do primeiro tempo. Num fulminante ataque pela direita, com apenas um adversário, teve uma bola cruzada e levou o primeiro gol do lado esquerdo. Depois desse vieram mais seis. Pela direita, pela esquerda e, principalmente, pelo centro. O time 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Vida e alma