quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Crônica temporal

Chiko Kuneski

Os deuses do futebol certamente estavam irados. O acerto não deu certo. As apostas sucumbiram. Seria o jogo das Américas.  Mas faltava um semideus. Do alto. Do campo de botão celeste resolveram fazer uma mesa redonda. O retângulo é para os mortais.

- Usted tiene la espalda de uno; pero tenemos una falta de outra!

- Não é nossa culpa. Se está, está; se não está; não está! Tenho habeas corpus para estar não estando ou não estar estando. Entendeu?

- No entiendo esa afirmación!

- Entende... Você apenas quer “melar” o jogo!

- Y quiere lavarse las manos!

- Se assim você prefere, por fazer de uma ausência uma milonga americana, lave você!

- Así que, si quieren, llueve.


- Por isso gosto desse jogo. Ainda somos os deuses do futebol americano. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A bola gosta da pele

Chiko Kuneski

A bola não rola; quica. Mas o pé descalço entende o movimento. Dela, do quique, do momento. Pé do chão. Pé do chão. A bola não importa. É importada. Não é sua. É uma bola do outro, do dono da bola. Do dono  de um jogo. Do ditador das regras.

Quatro pés. Uma bola. Um só domínio. Dois meninos. De um lado o sentido da terra, barrenta, molhada e escorregadia. Do outro, da firmeza das travas. Da chuteira. Quatro pés. Duas ideias. Dois ideais.

Logo a bola mostra que não tem dono. Matreira, quica. Aproveita a lama e fica escorregadia. Sempre acha o espaço para escapar de quem pensa que é sua. Gosta de carinho. Do envolver. Da suavidade. Do movimento. Prefere o toque íntimo. O desejo por ela; não pelo mero couro grifado.

Por mais que a negociem. Vendam. Comprem. Tentem se apoderar, sua circunferência escapa dos que se acham donos. Dos que acham que mandam. Dos que pensam tê-la para ter o comando. A bola é traiçoeira demais para o subjugo, o falso agrado. A bola prefere o carinho do trato. A bola prefere pele. 

O candidato


Mauro Pandolfi

Pelé  é único? O mundo futebol não admite outro. Sempre tem um argumento para derrubar quem ameaça o trono. Garrincha era só um driblador. Jogava pelo lado, para torcida, era só a alegria do povo, afirmam. Maradona tinha talento transpirando por todo corpo. Cabeça, pés e mão.  Só tem um mundial, dizem. Messi é autor de lances impossíveis, extraordinários, mágicos. Não conseguiu uma Copa, declaram. Há tantos, de tantas vozes, cores e ilusões. Não tinham a técnica, a condição atlética, a habilidade, o talento. Agora há Neymar. Tem a mesma origem. O mesmo sorriso. E, faz gols que Pele assinaria. Será que Neymar é um candidato a Rei? As suas fotos já decorram quartos de jovens que gostam de futebol, de estrelas, e celebridades.
O drible é um fascínio para muitos que amam o futebol. Eu prefiro o passe. Chiko Kuneski trata o drible como arte. Criou uma expressão precisa do driblador: asas na chuteiras. Neymar é um atacante alado. O futebol é um jogo de olhares. No inicio do lance, Suarez e Neymar jogam com os olhos. Suarez lança no vazio. Encontra Neymar. O espaço é exíguo.  A bola vem rápida.  O pensar é mais acelerado. O toque é surpreendente. A bola sobe girando sobre seu eixo. Um parafuso. Neymar gira o corpo. A bola no alto. Um chapéu ao contrário.  Driblou e foi driblado. Um lance pensado, instintivo,  criativo. A bola desce rumo ao seu pé. Um sem pulo certeiro que termina no fundo da rede.  Um gol fantástico.  Um gol de gênio.  Um gol de Pelé, Maradona, Messi e todos os grandes. Um gol de vinheta. Um gol deste tempo líquido que será eternizado.
O mundo é dos jovens. O tempo é juveniilista. O amadurecimento é quase uma fantasia. O corpo tratado, malhado, obcecado pela eterna juventude. Como os nossos heróis são cada vez mais jovens, o comportamento do mundo  acompanha. Somos todos adolescentes. Mimados, inseguros, revoltados. Neymar  é, ou já foi, um deles. Brigou com técnicos, com companheiros, xingou e agrediu adversários. Festeiro e milionário. O Barcelona sem Messi ficou com medo. Quem assumiria o comando? Neymar se apresentou. Mudou o cabelo, treinou mais, assumiu a tarefa. Tem carregado o time. O gol é o amadurecimento de um craque. De alguém que sabe o talento que têm, o tempo da jogada, a certeza do lance. Neymar foi preciso e mágico. Neymar é o melhor jogador surgido no Brasil após o tri de 70. O mais genial. Quem diria que o 'filé de borboleta', como  chamava o obscuro Luxemburgo para não escalá-lo, tornou-se um raro exemplar de lepidóptero com belas asas azuis e grenás nas chuteiras.

domingo, 8 de novembro de 2015

Os milhões e as migalhas

Chiko Kuneski

Escrevi pela primeira vez uma crônica pelo título. Acho que estou deixando de ser jornalista para viver de economia. Ou de economias.

O locutor foi categórico: “o segundo lugar no brasileirão vale R$ 6 milhões”. E continuou... “o terceiro lugar R$ 4 milhões”. Não falou do campeão (prêmio de R$ 10 milhões).

Meus meros reais suados no dia-a-dia para comprar um ingresso e ir a campo, ou adquirir o direito de ver e ouvir tudo isso “por tubo”, são insignificantes. O torcedor nada mais importa. O jogador é para ser expor, se exportar, se importar ou se deportar. O torcedor para pagar.

Somos brasileiros, torcedores , cada um com suas cores, com suas alegrias, alegorias e suas dores, os milhões que viraram milhões.  O futebol virou negócio. Negociável. Não é mais a conquista. A medalha. A marca no peito. O qualitativo é quantitativo.


A glória da conquista está no banco. Nos bancos fora de campo. A firula é contábil. O drible jurídico. O passe pagável. Já falta “pão e circo” nas modernas arenas. Nada mais é de graça. A desgraça chegou ao seu limite: do orgulho desfeito. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A queda


"A mentira é a verdade que esqueceu de acontecer"
Uma delicadeza de Mário Quintana.

Mauro Pandolfi

A mentira não é uma farsa. É uma história bem urdida, pensada, planejada, contada.  Tão bem recitada que é uma verdade. O mentiroso acredita nela. Mentiu antes da eleição. Criou uma situação irreal para justificar o real. O grande, o maravilhoso Brasil tem um destino: a glória suprema. Mentiu ao tomar posse. Negou verdades, justificou atitudes e tergiversou a crise. Mentiu sempre!
Mentiu quando viajou. Contou bravatas fora do país. Mentiu ao negar fatos. Sonegou informações sobre o seu mentor e o antecessor. Dividiu fortunas com eles. Quebrou a ilusão da grandeza. O grande evento foi uma imensa derrota. Mentiu naquele momento!
Mente hoje. Foge com medo. Isola-se. Teme o vice. Tão ardiloso como ele. Tão repugnante. Tão devasso. O mentor é um canalha. Os filhos não o renegam. Enriqueceram de forma vil. Mas, ainda mantém, nem tão distante, uma relação com ele. São parceiros nos negócios, nas falcatruas, nas mentiras.
Nunca defendi claramente  o impeachment. Agora, defendo. Não falo em basta ou chega! Lembrou-me dos jornais em 1964. Não sou golpista e nem de direita. Defendo a lei. Defendo a justiça. Digo não para a  impunidade. Não mais favorecimento. Quero transparência, respeito a todos nós que vivemos a paixão. Não há mais lugar para você. Tenha o mínimo de respeito e dignidade. Vá embora! Deu! Não aguento mais olhar o seu rosto pútrido, de sacana, de safado.
Concordo com Alex, o craque de tantos times. Chegou a hora de tomar de assalto a cbf. É necessário resgatar a bandeira do futebol. De reinventá-lo. Desejo novas eleições na entidade. Defendo a queda de Marco Polo del Nero, este 'fugitivo' da justiça americana e protegido pela brasileira.  Que a lei alcance Ricardo Teixeira, Joana Havelange e João Havelange. Lamento que José Maria Marin fique em prisão domiciliar em Nova Iorque. Aliás, a fiança não é uma propina legalizada? Que os patrocinadores da CBF imitem os da Fifa. Saiam e tirem este abutre do lugar. E, que seja substituído por  Alex ou algum outro sonhador. Ou, quem sabe, exterminem a cbf e criem uma liga.
Este texto é uma ilusão de ótica? Pode ser! O poder, e os donos do poder, de toda as instâncias, de todos os cargos deste país, são miméticos, gêmeos no clientelismo, nos conchavos, no patrimonialismo, nas mentiras contadas como verdades.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Um tango para Diego

 Mauro Pandolfi

"Ya sé que estoy piantao, piantao, piantao
No ves que va la luna rodando por callao
Que un corso de astronautas y niños, con un vals
Me baila alrededor. Baila! Veni! Volá!"
"A balada de um louco" de Astor Piazzolla pode ser um tango para Diego.

Maradona e a bola. O futebol sempre foi e será uma fantasia. Ele dá uma media volta e segue a bailar. O canto da torcida lembra uma orquestra executando um tango. Desliza no gramado para o longo caminito. Mano a mano enquadra um rival. A bola é la cumparsita. A esquadra inglesa é envolvida pelos movimentos rápidos e elegantes. Os muchachos acompanham a dança. Vê o zagueiro e arma o gancho. O ultimo movimento é um corte no goleiro.  A bola na rede é o derradeiro verso do tango, berrado em plenos pulmões no estádio Azteca.  Diego Armando Maradona é o tango jogando. Lírico, encantador, dramático.  Aquele gol é arte. Sublime arte. Arte eternizada pelo narrador uruguaio Victor Morales. Ele cantou assim:"....Quero chorar! Deus Santo! Viva o futebol! Golaço...Diegool! ....Maradona é para chorar. Maradona numa corrida memorável. A maior jogada de todos os tempos!....Graças Deus! Pelo futebol! Por Maradona! Por estas lágrimas!..."
Futebol e guerra. O simulacro perfeito. Cores, símbolos, países. O campo e a batalha. O imaginário foi tão real na copa do México em 1986. A Inglaterra humilhara a Argentina nas Malvinas.  O conflito suicida armado por um ditador louco e desesperado. Dor, sangue, lágrimas, jovens mortos. O futebol como revanche. Diego Maradona como o comandante supremo. Liderou a batalha, venceu com fúria. Um gol estupendo e uma falcatrua típica latina.
'La mano de Dios' é a sua obra mais famosa. O lance que faz o transitar em sagrado e o profano. Entre deus e o diabo.  Entre a glória e a desgraça.  Entre a vida e a morte. Maradona é o mais trágico personagem do futebol. Também, o mais genial.
Diego Armando Maradona é a ponta mais aguda do tridente nascido em outubro. Há algo de Pelé, muito de Garrincha. Diego é prosa e poesia. Diego é o futebol. Foi um gênio precoce. Um adolescente atrevido. Um adulto problemático. Um velho a beira loucura. Maradona é um homem complexo. Viveu a lucidez, a glória, a fama, o fundo do poço.  Foi excluído como um pária.  Reintegrado como um Deus. Desafiou a ordem, rebelde que transitou a margem no futebol. Flertou com a máfia, com ditadores, com drogas e com a morte. Maradona é o melhor representante do fim do século xx. O ídolo da minha geração.  Um mito. Uma lenda. Um homem. Tão humano, tão frágil, tão estúpido, tão divino.