quarta-feira, 19 de maio de 2021

O Maquinista da poesia

 

 

"Prezado amigo Afonsinho. Eu continuo aqui mesmo. Aperfeiçoando o imperfeito. Dando um tempo, dando um jeito. Desprezando a perfeição..."
Poucos cantaram tão bem o futebol, a rebeldia, a paixão como Gilberto Gil. Dois ídolos que já foram posters no meu quarto e hoje habitam as memórias que guardo, sei de cor e amenizam o exílio forçado.

Mauro Antônio Pandolfi

Nei e Afonsinho. Aprendi este verso no jogo de botão que comprei, no Bazar Almirante Soares, em Lages lá por 1969. Era só um menino que amava o futebol, o Inter de Lages, o Grêmio e o Botafogo, exatamente nesta ordem. Junto veio o Flamengo. Uma 'dura conquista' de meses, guardando as moedas que ganhava ao ir no armazém e na padaria. Valeu a pena aqueles meses de sonhos. Meus primeiros times, oficiais, de botão. Já estava cansado das 'improvisações'. Eram tão espetaculares que vinham com a foto dos jogadores. Depois vieram outros times, outros modelos de botões, com a Placar criei novos esquadrões, bolei campeonatos, vivi uma infância que inventou a paixão pelo futebol. A lágrima que caiu no teclado é só a saudade do Maurinho. Nada mais.
Esta poesia nunca esqueci. Do verso que começa torto com Cao. Continua sem ritmo com Moreira, Chiquinho, Leonidas e Valtencir. Nei e Afonsinho é um primor. Preciso e quase perfeito. O êxtase desta poesia tem a sonoridade que poucas tem no futebol daqui: Rogério, Jairzinho, Roberto e Paulo César. Tão sublime verso que povoa os meus sonhos infantis até hoje. Quase nada lembro daquele Flamengo. Não há poesia em Doval, Bianchini, Dionísio e Rodrigues Neto. Tenho dúvida se algum rubronegro declama cheio de saudades estes versos..
Descobri quem era Afonsinho na música de Gilberto Gil. Nunca foi Pelé e nem se aproximou de Tostão. Eu tinha uma pequena foto dele na parede de meu quarto, a contracapa da Placar. Já amava os Beatles e os Rolling Stones - mas 'arrastava a asa' por Suzy Quatro -, além da Placar, lia a Pop, a revista de rock, cinema, quadrinhos, artes. Lá conheci Jards Macalé, a Mafalda e um diretor de cinema chamado Pier Paolo Pasolini, um italiano que dizia que 'futebol brasileiro era poesia, o restante era prosa'. A Pop revelou a rebedia de Afonsinho. Se recusou a cortar a barba, o cabelo, berrou por liberdade no futebol e foi proscrito dos grandes clubes. Um rebelde como aqueles que o Maurinho sempre adorou. Seja como adolescente, jovem ou velho, que tenta fugir da senilidade, seguindo ainda uma rebeldia perdida no tempo. 'Ay que endurecer, pero...'
Uma outra poesia descobri cortando as fotografias da Placar. O fantástico time do Olaria, que fez eu pintar, de azul parte dos botões brancos. É outra poesia encantada, que gosto de recitar. Pedro Paulo; Haroldo, Altivo, Miguel e Alfinete; Roberto Pinto e Afonsinho; Osni, Antoninho, Luís Carlos e Salvador (se a memória não me traiu, era assim a bela canção da Rua Bariri). Foi o 'castigo' para o idealista Afonsinho. O jovem estudante de Medicina, que lutou pelos direitos dos jogadores, nunca foi o que prometia como um craque no meio-campo. O reacionarismo do futebol brasileiro cortou os seus desejos, minando seu imenso talento criativo.
Hoje, é ainda, um subversivo, um 'rebelde'. Afonsinho é o criador de um time chamado de 'O Trem da Alegria'. Nos anos setenta e oitenta oferecia uma saída aos desempregados - como ele - do futebol. E, nestes tempos sombrios, sobrevive e ainda joga as suas peladas em algum campo dos sonhos. No canal do you tube Museu da Pelada reencontrei Afonsinho. Barba e cabelos brancos, o olhar melancólico de sempre, o doce sorriso ao explicar a sua missão como 'maquinista' do trem': "Estou em busca da poesia perdida do futebol!" O idealismo nunca morre para um sonhador. Nem a rebeldia.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

À sombra da estátua

 

 

"Às vezes, o ídolo não cai inteiro. E, às vezes, quando se quebra, a multidão o devora  aos pedaços".
Poucos entenderam a alma e a poesia do futebol como Eduardo Galeano. Como gremista sinto que devorei Renato em fatias para ser mais cruel. A crueldade foi maior comigo do que com ele.

Mauro Antônio Pandolfi

Me senti estranho. Nunca antes na história do Grêmio a demissão de um treinador abalou as minhas convicções, certezas, imaginários. Naveguei entre a tristeza da queda do ícone com racionalidade dos péssimos desempenhos do time dos últimos anos. Poesia ou realidade? Foi a dúvida que marcou meu fim de semana. O Grêmio tornou-se um pastiche dele mesmo. Pouca coisa. Quase nada. Nada lembrava o melhor Grêmio de minha vida. Renato Portaluppi foi o artífice e também o demolidor daquele time envolvente. Não soube se reinventar. Sugou a força vital daquele time até a última gota. E, terminou num arrodião de um certo Independiente Del Valle, que jogou feito aquele Grêmio de 2017. Rodou a bola, brincou com jogo, conectou tempo e espaço, exatamente como o belo Grêmio de Luan e Arthur. Por instantes, por ilusão, por desejo,  vi Arthur e Luan jogando no outro lado. Era só um engano. Meu e de Renato. Era só o fim de um tempo, ciclo, era, como quiserem chamar. Para um gremista,  Renato jamais será um treinador vulgar. Não é a estátua que o eterniza. É o jogo que o torna gigante, imenso, imortal. A estátua apenas fornece a sombra para uma selfie.
2017 é o ano que nunca terminará para um gremista. Está tatuado na alma, nas memórias. Eternamente jogará no imaginário teatro de grama e paixão que move a vida. Ou, num Campo de Sonhos, como no filme. O melhor Grêmio que vi jogar. O mais envolvente, o mais sedutor. O time que provocou um exílio voluntário. Em dias de jogos, nada fazia. Somente esperava o tempo passar para a ver a grande arte. Deixer de ir ao cinema, visitar os amigos, passear na praia só nos domingos de manhã. Assinei o Premiere para ver todos os espetáculos. Curti como nunca aquele Grêmio. Nem as derrotas provocavam tristezas. Queria aproveitar cada minuto daquele momento que sabia ser êfemero. O tempo e a vida perpetuam a alegria, a poesia do jogo, a beleza, a emoção, só como saudades. E, como dói esta saudade!
A cada ano que passou o Grêmio foi se diluindo, até se destruir por completo. Perdeu a inspiração, a organização tática, a ousadia e se tornou um time banal, desorganizado, frágil, perdido em conceito tático desconstruído, que Renato fingiu, ou ignorou, não perceber. Neste tempo, a 'multidão' trucidou jogadores, comissão técnica, dirigentes. Massacraram jovens, como Bressan e Ramiro. Nem o genial Luan escapou da 'fogueira'. Medalhões decadentes, descompromissados, jogadores comuns não sobreviveram. Quem arcou com o fracasso milionário? Os ultimos torrados foram os promissores Jean Pyerre e Pepê. Perto da 'fogueira' estão Matheus Henrique e Alisson. O último queimado pelos 'savonarolas' - nós, os torcedores - foi Renato. Desde aquele 5 a 0 do Flamengo, Renato foi devorado, em fatias, ano após ano, derrotas após derrotas, vexame após vexame, para ser mais cruel, para doer mais nos gremistas. Num sadomasoquismo que não consigo entender. Teria sido amor, esperança ou o ódio por imolar o ídolo eterno tão devagar?
Renato Portaluppi foi quem me mais provocou ilusões no teatro, aquele que embala sonhos, de grama e paixão. O mágico que brincou com um balão mágico e encontrou a sábia cabeça de Cesar e bailou, em vez de filosofar, com alemães numa madrugada/manhã em Tóquio. Tão encantador que tatuei seu nome na alma e na vida. Faz a dupla, com o libertador do Grêmio dos anos vermelhos, André, no nome de meu filho mais velho. Escrevendo este texto, tentando fugir da emoção, de um suposto sentimento de culpa, descubro que a queda não foi um adeus. Foi um até breve. Não sei! Espero que não! É dolorido demais devorar um ídolo.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Losers

 
"Quem vai acreditando numa vitória é um idiota"
Ao contrário do torcedor do Turquay United, Jonh Louis, quem acredita na vitória pode ser somente um apaixonado que não percebeu que as ilusôes se perderam na bola, na vida.
 
Mauro Antônio Pandolfi
 
Nunca vi um jogo do Taguá. Nem entrei no estádio. Passei várias vezes por ele. O Plácido Scussel fica perto da velha casa da tia Circe. Cheguei no portão de entrada há alguns anos. Só encarei as suas ruínas. O Taguá faz parte do meu imaginário de futebol. O poético clube de meu pai é um dos times de minha vida. Um dos mais inesquecíveis. 'Sofri' muito com ele. Tantas vezes pareceu ameaçador. Na infância imaginava um esquadrão. O temível time que derrotaria o Grêmio, segundo o pai. Tempos depois, descobri que era um desejo, um delírio, um desvario dele. Uma vitória retumbante do Grêmio, lá vinha o pai: 'se enfrentar o Taguá, perde!" A profecia era acompanhada pela sua gostosa gargalhada. Nas derrotas, parecia mais cruel: 'imagina se pegar o Taguá? Vai perder!' Nem sempre respeitava o 'nosso' sofrimento e ficava em silêncio. A lágrima que caiu no teclado ilumina a saudade.
E, quem disse que os desejos são fantasias? Foi num setembro de 1991. O Grêmio vinha de uma vitória retumbante no Grenal. Renato estava de volta. As vitórias eram promessas. O pai ficou calado todo o dia. Olhavámos, respeitosamente, também, em silêncio para ele. Só um leve riso irônico. A vingança que logo viria. Devastadora! Mas, não é que o lanterna do gaúcho, o que só perdia, ganhou. Dois gols de Duia. O maior herói do Taguá - que tem apenas um título em sua história -, que não virou estátua, só é reverenciado pela memória dos moradores de Getúlio.
O pai nos esperou na porta. 'E, o teu Grêmio, hein? Marchou para o meu Taguá!' A frase, a gargalhada, o abraço gostoso. Repetiu a cena três vezes naquela noite. A história durou mais uns dias. No returno, o Grêmio goleou o Taguá por 6 a 1. O pai nunca mais 'ameaçou' com o Taguá. Aquele vitória foi dele. Do seu desejo, de seu delírio, de sua provocação. Levei tempo para entender que não foi auto-ajuda, nem previsão, que estava escrito nas estrela feito um deus astronauta, nada! Foi uma brincadeira dos deuses da bola. Um carinho ao meu querido pai.
Há uma série na Netflix que fala da derrota que se transforma em vitória. A superação gloriosa ou épica. 'Losers' é poética. Tem um olhar generoso, profundamente humano, sobre perdedores. O terceiro episódio ('Vitória por um triz', é o título) é sobre o Torquay e o milagre que o futebol consegue fazer. À beira da queda, quem sabe do fim, o Torquay é salvo por um cão policial. A mordida, a dor, a vergonha, a honra, a glória. Nada de spoiler. Assistam. É fantástico! Lembrei do Taguá, da paixão de meu pai, quando assisti. Me emocionei. Flutuei entre a tristeza e alegria. O teatro de grama e paixão é a melhor invenção dos sapiens. Já o Taguá terminou em 1996. Ainda lembra de uma conversa, num sábado à tarde, lá em Getúlio, um amigo - o nome sumiu da memória - disse uma frase inesquecível: 'perdi os meus domingos. Gostava de tomar uma cerveja vendo o Taguá. Nunca fui para vem uma vitória. Ia pelo prazer de beber com amigos, os do campo e os da arquibancada. Não vou aos bares tomar uma cerveja assistindo a dupla grenal. Não há encanto nisto. Há a destruição da paixão do time da cidade".
A tristeza atingiu a alma nestes dias. Dois times de minha vida estão na encruzilhada que levou o Taguá e quase o Torquay: o Botafogo e o Figueira. A camiseta branca, a estrela solitária no peito, foi a primeira que tive. Era a paixão que descobri ao abrir aquele presente com dois times de futebol de botão. Um era o Botafogo e a sua encantadora poesia da escalação. O verso quee começa torto e termina mágico: Cao; Moreira, Leônidas, Chiquinho e Valtencir; Nei e Afonsinho; Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo César. Tinha nove anos e adorava declamar este poema. O outro era o Flamengo. lembro de Doval e Onça. Nada mais. Rebaixado pela terceira vez, uma dívida impagável, o Botafogo tem tudo .para ser o novo América. Virar, como Garrincha e Didi, uma eterna saudade. Um vídeo em preto e branco no youtube.
O Figueira foi uma paixão que começou em 1975. Logo no primeiro jogo que vi. O Inter de Lages ficou no passado, ficou no Vermelhão de Copacabana e nos sonhos de Maurinho. Vibrei com vitórias e títulos. Sofri nas derrotas, nos rebaixamentos. Mas, nada tão igual ao desta série B. Levou três anos para cair. Fatiado, destruído ano após ano, para ser mais dolorido, cruel, devastador. Encontro um 'homem do futebol' alvinegro, que pediu anonimato, triste, cabisbaixo, com seus passos lentos e pergunto: 'E,agora?' O sorriso é lacônico. 'Fecha no final do ano! Não há saída'. Dramático? (A conversa foi no inicio de fevereiro. Talvez, ninguem ainda pensava na ação de recuperacao judicial). No teatro de grama e paixão tudo é possível. Até a vítória impossível! É o que resta ao Botafogo e ao Figueirense. Torcer pelo milagre dos deuses da bola. Boa sorte!

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O brasileiro Sócrates. Memórias...

 
"Arte, no futebol, nunca foi adjetivo"
Sócrates foi único. Talento no caminhar, no passar, no toque sutil de calcanhar, na hora do gol, no braço erguido de um pensador atrevido e único. Este tempo seria menos sombrio com Sócrates. A sua lucidez faz falta.

Mauro Antônio Pandolfi

Tem dias que sinto saudades. Às vezes, da vida, de algum momento. Noutras, de um amor perdido, de uma paixão bem vivida. Muitas, de amigos imprescindíveis, eternos, isolados em distanciamento social. Hoje senti saudades de Sócrates. Escutei Juca Kfouri falando dele, da gentileza e do craque. Casagrande declarando a paixão por ele, o amor pelo ídolo, pelo homem. O futebol é movido por duplas desde Pelé e Coutinho. Ou, até antes, no magistal River Plate de Labruna e Di Stefano. Casão e o Magrão foi um encontro de almas, de pensares, de jogo. A serenidade e a rebeldia. A ousadia e a maturidade. O arrojo e a lucidez. Complementares! Jovem, ainda sonhador, virei corinthiano por instantes, pela Democracia Corinthiana, por um sonho de um país, livre, leve, justo. Tudo foi um engano. A Democracia Corinthiana assustou o mundo reacionário da bola, sumiu, virou história. E, o país? Será mesmo um país? Ou, só um hospício controlado por um 'líder' insano, hostil, manipulando uma horda de devotos alucinados?
Saudades de Socrates! Mais do que suas palavras, seu jogo. Do passe preciso. Do meia que controlava o espaço e o tempo. Tudo era medido. Regido por um gênio. Gostava de suas passadas largas, de sua lentidão enganosa, do raciocínio rápido. Sócrates faria hoje 67 anos. Partiu tão cedo, foi tão apressado. É um dos meus ídolos. Um dos poucos que me tirava de um jogo do Grêmio para vê-lo. O último a me fazer torcer pela seleção brasileira. Jamais terei outra camisa amarela. Para lembrar de Socrates republico um texto deste crônicas.


Sócrates!



"Se as pessoas não tiverem o poder de dizer as coisas,eu vou dizer por elas. Quando era jogador, minhas pernas ampliavam a minha voz".
Sócrates era o jogador que pensava. O jogo e a vida. Genial, artístico, político. Um homem que faz falta em qualquer tempo.

Mauro Pandolfi


Ando com saudade de Sócrates. Fucei no you tube e achei alguns lances que alegraram a minha alma. Gols e passes. Vi um jogo completo e acompanhei a sua movimentação em campo. Não sei se o Sócrates grego era físico além de filósofo. O Brasileiro parecia um físico jogando. A movimentação, o olhar, o andar não eram acidentais, triviais, ao esmo. Eram pensados. Noção perfeita entre tempo e espaço. Certamente Stephen Hawking o conhecia. Desconfio que algumas teorias sobre gravidade e tempo foram baseadas na dinâmica de Sócrates, na sutileza e elegância de seus deslocamentos. Não foi só o futebol que me deixou com saudades dele. Ao ver Ronaldinho Gaúcho fazendo campanha para Bolsonaro lembrei do Magrão. Socrates se manifestou contra a ditadura. Ronaldinho faz apologia ao defensor da ditadura. Como pode alguém que vestiu a camisa do Barcelona apoiar um fascista? Certamente, nas horas de folga, o 'gaúcho' preferia seus pagodes a um bom livro sobre a história do Barcelona, da Catalunha contra o fascismo franquista.
Sócrates foi o meu ídolo de juventude. Tinha um poster dele no quarto. Durante algum tempo sublimei a paixão gremista pelo Corinthians. Tempo da Democracia Corinthiana. Metido a rebelde, eu gostava de quem desafinava o coro dos contentes, que desafiava a ordem. Sócrates era o meu preferido. Amava o seu jogo. A cabeça erguida, a falsa lentidão e a técnica apurada. Meu lance preferido era o calcanhar. A sutileza e magia num átimo de tempo. Tão rápido, tão desconcertante, tão artístico. Admirava o seu pensar. Não era um jogador comum. Tinha algo para dizer, propor, sugerir. Irritou o conservadorismo deste país. Velhos jornalistas - e nem  tão velhos assim -, amantes da opressão, das 'boquinhas', não o toleravam.  Eram obrigados a engolir pelo talento. Mas, sempre tinha um mas...
'Cervejeiro, revolucionário, contestador, rebelde, jogador tem que jogar bola, não falar de política'. Ouvi muito isto. Desliguei rádio, tevê, joguei fora jornais, não suportava a estupidez conservadora da imprensa esportiva. Nunca fiz uma entrevista com Sócrates. Com Paulinho Scarduelli gravei uma conversa com o psiquiatra Flávio Gikovate, fazia parte da diretoria do Corinthians no tempo da Democracia, sobre futebol, política, sexualidade, vida e, principalmente, Sócrates. Anos depois, entrevistei Raí, que fazia a estréia na Seleção Brasileira. Duas ou três perguntas sobre ele. Os outros 20 minutos foram sobre Sócrates. Não resisti a idolatria.
A vida foi cruel com Sócrates. Já tinha sido com Garrincha. O álcool foi um marcador feroz com os dois. Foi íntegro até nas últimas horas de vida. Recusou o privilégio de ídolo para um transplante. 'Só que é o seguinte, eu tenho de estar na lista. Eu não furo fila, não. E eu não estou em nenhuma lista", disse. No dia quatro de dezembro de 2011, Sócrates morreu. Um triste domingo. Ele sempre foi um exemplo para mim. Enquanto que Ronaldinho e seu irmão Assis foram denunciados por mau uso de verba pública em um 'suposto' projeto social em Porto Alegre. É! O futebol dá para comparar. Já o caráter, não!
  

 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Outras memórias: Reinaldo!


"Eu quero um gol de meia-bicicleta de Reinaldo para tatuar na pele da lua e tomar o lugar de São Jorge com seu cavalo, para que os namorados e os ex-namorados, os amantes e os ex-amantes, de todas as idades, digam uns aos outros, apontando para a lua:.

Olhe só o que pode um homem, mesmo quando está caído".

Roberto Drumonnd foi o cronista que melhor decifrou a genialidade de Reinaldo. Drummond é o apaixonado que torcia contra o vento que balançava a camisa do Galo estendida no varal.


Mauro Antônio Pandolfi


Lembrei de Reinaldo hoje de manhã. De seus gols mágicos, do punho erguido da rebeldia, de sua inteligência apurada. Nunca vi um centroavante como ele. Romário tinha a capacidade de finalizar de Reinaldo. Careca, a imensa habilidade. Ronaldo, o controle do espaço. Reinaldo era todos. Foi intenso, tão imenso, durou tão pouco. Muito pouco. Quase nada. Apenas os atleticanos, os mineiros, os apaixonados pela arte do gol bem elaborado, esteticamente perfeito, reverenciam. Não chegou no topo do mundo. Os joelhos destruídos impediram que a glória e o talento o tornasse um Messi ou Cristiano Ronaldo. Mas, ele era, no mínimo, no mesmo nível. Quem sabe, superior. Delírio de fã? Pode ser. No entanto, Reinaldo era extraordinário.

Do nada, bem aleatório, uma página do feicebuque mostrou lances, dribles, gols de Reinaldo. É o dia de seu aniversário. 64 anos. Bah! Meus ídolos já estão velhos, como eu. Onde foi parar o tempo que imitava, sem sucesso, Reinaldo? Queria encontrá-lo! Não tinha a intenção de republicar um texto. Entretanto, a bela saudade, o encantamento que tinha com Reinaldo, mudou a minha opinião. Republico com alma lavada e enxaguada de emoção.



O Rei

 

Mauro Pandolfi


Era um menino com cara de anjo, um moleque de cabelos enrolados, feliz com a bola nos pés. Brincava com ela. Seus dribles eram versos livres, soltos. E, os gols? Obras de arte! Foi um rei tão mágico, tão elegante, tão contestador. Um rei rebelde, como são rebeldes todos os guris que nasceram para jogar bola. Um rei de um povo apaixonado, que gritava em coro o seu nome. Rei de um tempo distante, perdido no passado, encontrado nas memórias de quem viu jogar, nos arquivos do you tube. José Reinaldo de Lima está de aniversário neste 11 de janeiro (59 anos). Estupendo jogador que disputava o 'trono' com Falcão e Zico. Um guardanapo era um latifúndio para ele. Hábil e cerebral. "Ei, ei ,ei! Reinaldo é nosso Rei!". Os gritos da torcida do Galo ainda ecoam quando o Mineirão fica em silêncio.

O punho cerrado da revolta. O braço erguido da contestação. A doce corrida pelo gol. Reinaldo era um inconformista. Rebelde de gestos e lances. Um atrevido! Tinha prazer em incomodar. O garoto sem meniscos, sem medo, com talento. Abusado, desafiou a ditadura militar, pediu eleições diretas, livres e anistia. Tinha um jeito anárquico de ser. Leitor de Proudhon e Freud criticou o conservadorismo comportamental da vida brasileira, da família, da imprensa. Um libertário! Reinaldo era doce e melancólico. Tinha cara de anjo. No futebol, terminou como um anjo caído

Aos 13 anos foi tirado de um treino após uma sequência de dribles em zagueiro titular do Atlético. Medo da violência. Violência que o abateu aos 15 (operou um joelho), aos 16 (cirurgia em outro joelho), sempre bateram nele. Reinaldo não resistiu aos pontapés, as dores insuportáveis nos joelhos. Jogou em alto nível até os 27 anos. Depois, perambulou mais sete anos por aí. Era só uma lembrança do Rei.

Tornou-se político nos anos 80. Um parlamentar comum, sem expressão. Tentou ser técnico. Não conseguiu. Sumiu. Parecia um exílio. Até ser preso, acusado de tráfico.  Foi driblado pela vida. Não sei onde anda Reinaldo. O que faz? Quem é hoje? No dia que escolhem o melhor do mundo, eu lembro dele. Estou triste. Era um jogador para o planeta, para sempre, eterno. Não foi! Guardo na memória o mais fantástico centroavante que vi jogar.



 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Universo em desencanto. O adeus?

 

"O homem é um vago bicho sem destino que nasceu em cima desta terra, sem saber porquê e nem para quê".
Foi com Tim Maia que me iludi com o Racionalismo. E, foi o mesmo Tim quem abriu os meus olhos sobre o Racionalismo e o desencanto do universo. Mas, há pensares deste Universo que levam à reflexão, à tentativa de entender os movimentos das pessoas durante este tempo sombrio, seus atos, sua estupidez. É a vida por um fio? Breve, não haverá ninguém? Ou é só um delírio de um velho com medo de enlouquecer? Ou, pior, descobrir a lucidez?

Mauro Antônio Pandolfi

Há tempos que não penso no futuro. Nada planejo. Nem cogito. Apenas, espero. Até o passado virou um enigma. Aconteceu mesmo ou é ficção, um desejo, um sonho que o tempo ou a imaginação criou? Entendi que o passado não é definitivo, nem para sempre. Ele muda, altera, inventa, vive. Cria ilusões, revela decepções ou apenas mitiga a saudade, a utopía perdida. Vivo o presente. Que presente? O agora, o já! O hoje que é igual ao ontem e muito semelhante com o amanhã? Todo dia tem o mesmo caminho. Até as nuvens não se modificam. Sei que muda quando vejo a lua. Outro dia é quando o sol me acorda. O meio do caminho é quase sempre o mesmo. É um buraco de minhoca onde o espaço permanece igual. Sei onde estou e com quem estou. Mas, qual tempo? O que já aconteceu? O que virá? O da criação da vida ou da destruição? A biopolítica que propõe a eternidade ou a necropolítica de rudimentares fundamentalistas que usam a Bíblia como um vulgar manual de autoajuda? 2020 bagunçou as minhas, parcas, ideias. As incertezas ruiram. Nada ficou de minhas dúvidas. Como se fossem sólidas, desmancharam-se no ar. Agora, busco as certezas que já tive. Muitas no passado de um adolescente sonhador. De um jovem que flertou com utopias. Loucura ou lucidez? Em 2021 espero ter algumas respostas.
Elas começam no futebol. A paixão vai se reconstruindo aos poucos. Encontro no Maurinho o desejo, a poesia que o Vermelhão despertava. A ansiedade que durava uma semana. Às vezes, mais. Uma doce angústia. Domingo, sempre gostei dos domingos, vestia a camiseta branca, com o símbolo vermelho, atravessava a rua, já me conheciam nas entradas do estádio, descia rumo à portão de acesso ao campo, ficava perto do Ricardo e entrava feliz com time. Nenhuma foto tenho! Gostava de ouvir os fogos, os gritos da torcida. Aqueles minutos de felicidade sempre foram eternos. Muitas vezes, ficava como gândula. Outras, ia para a arquibancada ou, como dizia meu pai, 'para casa se o Inter estivesse perdendo'. Foi ali, lá por 1966, que descobri como a bola é apaixonante. Durou pouco. O Inter foi jogar no Municipal, lá no Coral. Distante demais para um garoto de seis anos. O rádio, a tevê, a descoberta da leitura, as figurinhas, os jogos na rua, no Boldo, ampliaram o universo desta paixão. Agora, este rude tempo, de canalhas no poder, de genocidas, de verme e vírus, quase provocaram o desencanto da paixão. 'Sobreviver, neste tempo, é um ato subversivo', como diz o Mário. Manter o desejo, o tesão do que te encanta, também, é resistir a destruição programada. É um ato revolucionário! E, escrever, o que é?
Muitas vezes é um peso. Ainda tenho dificuldades de me expôr. Me revelar os segredos que a alma esconde. Afinal, uso muito este crônicas como terapia. Em vários momento, sinto alívio com que escrevi, contei ou analisei. Em outros, bate uma melancolia, especialmente, quando falo do passado, do que vivi, com quem vive, com quem sonhei. Por instantes, a tristeza e saudade formam uma dupla que afeta o coração e a mente. Mas, também, é prazeroso. Encontrar um 'achado', uma frase bem feita, redonda como uma poesia de Chiko Kuneski, um pensar lúcido, faz bem para a alma. E, principalmente, se alguém lê, curte e comenta. Aí, é uma vaidade gostosa.
É a hora do adeus. De fechar um ciclo. De agradecer os leitores, os que passam, curtem, ignoram, compartilham. Não penso no futuro. Este crônicas pode chegar ao fim ou até virar um livro. Vou deixar o tempo levar. Agradeço todos. Desejo um Feliz Natal e um 2021 resistente, lúcido, saudável.
Como um regalo, uns versos de Ferreira Gullar:

"Meia-noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.
Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça
nada ali indica
que um ano novo começa.
E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.
Começa com a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bichjo
estelar
que sonha
(e luta).